Do reconhecimento de imagens à geração de música, uma inteligência artificial pode ser treinada para fazer quase qualquer coisa. O que acontece quando uma IA cria receitas culinárias?

Redes neurais. Aprendizado de Máquina. Inteligência Artificial. De vez em quando esses termos aparecem no noticiário, mas o que significam e como funcionam essas coisas? Uma rede neural é uma estrutura computacional que toma como modelo a organização do cérebro, com as inúmeras interconexões das sinapses sendo ativadas de modo mais ou menos organizado.

O aprendizado de máquina é um algoritmo, um processo que busca ensinar algo a uma rede neural por meio da exposição a quantidades enormes de dados: diante de uma tonelada de fotos de todo tipo, uma rede neural pode perceber alguns padrões e fazer as devidas classificações – fotos com gente, imagens de gatinhos ou batidas de trânsito. Juntas, essas duas abordagens estão levando a Inteligência Artificial a patamares jamais vistos. Uma IA já é capaz, por exemplo, de gerar sons musicais. Será que poderia conseguir inventar receitas?

Receitas culinárias são, aliás, um bom meio de verificar a emergência de uma IA pelo aprendizado de máquina. São textos curtos, mas com estrutura clara, vocabulário bem-definido e precisam ter instruções em ordem correta. Pensando nisso, Janelle Shane, pesquisadora e autora do AI Weirdness (um blog de divulgação científica de IA) resolveu ensinar sua máquina a fazer receitas. A seguir, apresentamos a tradução de alguns resultados desse experimento tecno-culinário, batizado de Silicon Gourmet.

A bem da verdade, uma das primeiras receitas geradas pelo Silício Gurmê nem precisa de tradução:

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Parece um lixo incompreensível, mas esse resultado foi alcançado após algumas dezenas de iterações — i.e., de tentativas de reprodução a partir do material apresentado. Para Shane, é um exemplo de progresso. A princípio a máquina gerava apenas caracteres aleatórios mas a partir daqui a IA percebeu um texto de receita contém várias linhas curtas, com letras (geralmente minúsculas) e alguns números.

Faltava entender que uma receita tem basicamente três partes: o título, a lista de ingredientes e as instruções. Em alguns casos, há a indicação de rendimento ou o modo de servir. Quando percebeu que precisava fazer uma lista de ingrediente, o Silicon Gourmet gerou isto (mantivemos os termos sem sentido nesta tradução):

Tued Bick Carro
apies
2 1/5 copo tomate whene intte
1 copo com (17g cas panelas ou
1/2 copo ferver em patsorwe 1/2 colher em chansed
1 1/2 copo nunabes regado farinha fite (115 leclic
2 polheres pão de
1/4 copo 12" onça rato
1 ovo barte, shrild em pedaços fim
2 copo olasto hote
1/4 fite molhopon; peppen; corte desdobre
12 copo mestsentoly fervura acelerado,, (pedra de afiar
1 bressed vivo
1 22 ozcugarlic
1 copo de woth uma sopa
4 colheres de chá de vinagre
2 9/2 colheres de alho pimenta
2 colheres deatt
(…)

E assim sucessivamente, prosseguindo pelo equivalente a 11 páginas só de ingredientes. Mesmo assim, observa-se algum progresso. Além de perceber o uso de números no início de cada item (inclusive com frações), a IA estava começando a adquirir um vocabulário típico de receitas. No entanto, ainda havia bastante ruído, como se nota pela frequência de palavras absurdas ou inventadas.

Mais tarde, após várias iterações, o mestre-cuca artificial deu uma receita com começo, meio e fim:

Imediatamente Cuida, Mim Pesado
upe, chips
3 endros loasted substetcant
1 creme batido cortado em cubos
3 umpreased, estoque; preparado; em tempero
1 óleo
3 copos leite
1 1/2 copo mOyzanel fatiado
1/2 colher de chá de suco de limão
1 1/4 colher de chili em pó
2 colheres mostarda dijon - esmagada
30 encontros afrester batedeira restante
Asse até suco. Esfregue do molho de batata: levemente manteiga até a víscera. Cozinhe combine água. Tempo: 0 25 segundos; transfira um madiun larenja canela co elétricos se baseado, faça drenado tala whilli; ou frango até bem. Salpique pele engordurada com um cuia fervente. Torre o pão spritikries.
Rendimento: 6 porções

Repare que apesar da estrutura correta, ainda tem muita coisa nonsense. A IA não sabe separar sabores, nem o que assar primeiro muito menos que é impossível ter um creme batido em cubinhos. Claro, você poderia congelar o creme e cortá-lo em cubinhos, mas isso não faz parte da receita nem faz sentido culinário. Ainda há muitas palavras aleatórias e as frases da parte instrutiva mal passam de um ajuntamento de termos. Isso é quase uma receita surrealista: inútil na prática, mas reconhecível como receita.

Num estágio mais avançado, o programa de inteligência artificial redigiu a seguinte receita:

Peras ou Para Garnstmeam
carnes
1/4 libra ossos ou pão fresco; opcional
1/2 copo de farinha
1 colher de vinagre
1/4 de colher de chá de suco de limão
2 ovos
Doure o salmão em óleo. Adicione carne em creme e outra mistura profunda.
Descarte os filés. Descarte a cabeça e transforme num tempero teflon. Ponha 4 ovos numa gordura limpa e magar para a pia metades.
Escove cada um com assado e refrigere. Coloque torta em prato fundo assadeira em chipec corpo doce; corte oof com cruzados e cebolas. Remova as ervilhas e coloque em 4-dgg porção. Cubra levemente com plástico. Esfrie no refrigerador até as caçarolas fiquem tenras com as bordas assadas. Sirva imediatamente em açúcar pode acrescentar 2 maçanetas sobregengibre ou com água fervente até muito pudim cracker está quente.
Rendimento: 4 porções.

Aqui, as coisas começam a ficar mais claras: a lista de ingredientes é curta, com alguns itens que fazem sentido nessa parte. O modo de fazer apresenta etapas em parágrafos distintos. No entanto, a IA ainda não aprendeu que a preparação deve ser feita a partir dos ingredientes listados anteriormente.

Existe um motivo pra isso.

Acontece que, embora seja pesquisadora e entusiasta de IAs, Janelle Shane não é uma especialista nesse ramo nem tem um equipamento muito sofisticado. Como revela em seu blog, ela baseou esse aprendizado de máquina a partir de uma rede neural open source rodando num Macbook 2010 e alimentada com uma coletânea de receitas de David Shields. Shane fez esse projeto por pura diversão — e talvez também quisesse entender como se dá o desenvolvimento de uma IA desse tipo.

Parte do absurdo gerado se dá por uma limitação do sistema utilizado, que tem, nas palavras da autora, uma “memória de peixinho dourado” e só analisa 65 caracteres por vez. Assim, quando está na lista de ingredientes, o Silicon Chef já esqueceu qual era o título do prato — e quando chegar ao preparo, vai esquecer os ingredientes reunidos. O resultado é cômico pelo absurdo criado por essa falta de memória.

Ao mesmo tempo, as receitas geradas impressionam pela qualidade estrutural: embora tenha uma memória limitadíssima, o programa conseguiu aprender que uma receita geralmente é curta, com estrutura bem-definida e vocabulário adequado. Não fosse uma brincadeira, o chef artificial poderia ter chegado mais longe ao aprender as relações lógicas dentro da receita e fora dela também — saber que não dá pra ter creme em cubinhos é um conhecimento extra-culinário, que depende do reconhecimento da consistência das substâncias.

Está claro que algum dia teremos receitas criadas exclusivamente por Inteligências Artificiais. Por enquanto, os Mestre-Cucas podem ficar descansados: seus concorrentes robóticos estão mais para a geração de poesia surrealista do que literatura culinária.


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