Um Tanystropheus em plena caça, segundo concepção artística de Emma Finley-Jacob para a New Scientist.
Durante décadas, paleontólogos quebraram a cabeça com os restos de um bicho de pescoço descomunal. Agora, sabemos como viveu esse animal esquisitão.

Paleontologia, como o próprio nome indica, é o estudo dos seres antigos. Muitas vezes, porém, as maiores novidades vêm de velharias empoeiradas não no solo mas nos museus. Quando se descobre um fóssil, ele muitas vezes acaba engavetado nos arquivos de instituições de pesquisa logo após ser identificado e receber um nome. Isso é ainda mais comum quando não está muito claro qual seria a forma do animal fossilizado: o que resta parece-nos tão fragilizado, incompleto ou confuso que ninguém sabe ao certo como remontar o esqueleto.

Um exemplo típico desse abandono paleontológico é o Tanystropheus. Descoberto há cerca de um século na fronteira ítalo-suíça, ele recebeu um nome científico após ser identificado como um réptil pré-histórico — e só. Seus esqueletos deixaram os cientistas confusos por apresentar um pescoço extraordinariamente longo. Além disso, alguns exemplares eram maiores que outros. Então, não faltavam perguntas: seria este um réptil terrestre ou aquático? os menores eram filhotes dos maiores ou a diferença de tamanho era reflexo de diferentes espécies?

Oliver Rieppel do Museu Field de História Natural de Chicago trombou com essas mesmas perguntas ao descobrir fósseis de Tanystropheus engavetados nos arquivos dos Museus de Hist. Natural de Milão (Itália), da Univ. de Oxford e Nacional da Escócia (ambos no Reino Unido). Ele reparou que o tamanho dos animais variava de 1,5m de comprimento a 6m de cabo a rabo — e boa parte desse “cabo” era puro pescoço. Entre as peças reencontradas por Rieppel e seus colegas daqueles museus e da Univ. de Zurique (Suíça) havia um crânio de uma variedade grande. Apesar de esmagado, o crânio tinha todos os seus cacos intactos.

O crânio de um exemplar de Tanystropheus tal como foi encontrado (A), sua versão digitalizada, com os fragmentos em cores distintas (B-C) e a reconstrução completa (G). [Fig. 1 do artigo em referência]

Graças à tecnologia da tomografia computadorizada, Rieppel e sua equipe puderam remontar a cabeça do animal e, assim, descobriram indícios anatômicos de sua forma e modo de vida. Um dos detalhes notados por essa montagem digital é a posição das narinas. Situadas no lado superior do focinho, as narinas do Tanystropheus revelam que esse bicho podia respirar debaixo d’água. Portanto, vivia em ambiente aquático. Para Rieppel, agora tudo faz sentido: aquele pescoção todo seria biomecanicamente incompatível com a vida em terra firme.

Mas e a variação de tamanhos? Nesse caso outros exames de imagem mostraram que mesmo os fósseis pequenos tinham vários aneis de crescimento ósseo — o que significam que eles eram adultos de uma espécie distinta, não filhotes dos grandões. As duas espécies parecem ter coexistido nas mesmas águas porque provavelmente tinham hábitos alimentares diferentes. Os pescoçudos maiores comiam peixes e lulas, enquanto os menores se alimentavam de invertebrados como camarões.

O pescoção, aliás, pode ter sido útil na obtenção de comida. Essa é uma das conclusões do artigo publicado por Rieppel e seus colaboradores na Current Biology no início deste mês. Os Tanystropheus podiam esconder o corpo atrás de uma pedra, por exemplo, e dar um bote em suas presas jogando o pescoço para frente. É mais ou menos como se esses bichos fossem jacarés com um corpo encolhido e um pescoço (muito) esticado.

Por mais esquisita que pareça, essa configuração deve ter sido bem-sucedida: fósseis do bichão pescoçudo já foram encontrados em lugares tão diversos quanto a Europa, a China e Israel.

Enfim sabemos o que foi o Tanystropheus — um monstro submarino.

Referência

SPIEKMAN, Stephan N.F. et. al. Aquatic Habits and Niche Partitioning in the Extraordinarily Long-Necked Triassic Reptile Tanystropheus [Os hábitos aquáticos e a partição de nicho no extraordinariamente pescoçudo réptil triássico, Tanystropheus]. Current Biology. Publicado online em 06/08/2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2020.07.025


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