Cientistas descobriram que um jogo de palavras simples é uma boa maneira de medir nossa capacidade criativa

CRIAR. Tanta coisa cabe nestas cinco letrinhas que é até difícil definir. Embora seja frequentemente estudada, a criatividade tem sido uma pedra no sapato da comunidade científica. Não que faltem ocorrências criativas nos laboratórios, mas é que é dificílimo medir essa nossa habilidade de inventar coisas. Até existem diversos testes e escalas que tentam medir a criatividade. Mas, da mesma forma que acontece com a inteligência, esse tipo de medição depende de exames muito específicos e muitas vezes peca pelos critérios pouco objetivos. Assim fica complicado fazer análises em larga escala para esclarecer o que é, de fato, a criatividade.

Recém-saído de um pós-doutorado do Departamento de Psiquiatria da Universidade McGill (Canadá), Jay Olson estava se tornando mais um desses pesquisadores que se debatem para compreender a criatividade. Até que ele próprio teve seu momento eureka: que tal um jogo de palavras?

Não qualquer jogo de palavras, claro. Ele se recordou de um que costumava praticar na infância. A regra é bem simples: basta listar o maior número de palavras sem relações entre si, de preferência no menor tempo possível. Pare por um momento, leitor, e pense consigo mesmo: você consegue elencar três vocábulos sem ligação? E cinco? Que tal dez?

Quando lembrou do jogo, Olson percebeu que ele poderia ser uma maneira simples e elegante de medir o chamado pensamento divergente, aquele que gera soluções diversificadas para problemas abertos. Esse modo de pensar é uma das principais forma de exercer a criatividade.

Para testar a eficácia da brincadeira de criança como medida de criatividade, o psiquiatra americano padronizou as regras numa metodologia que chamou de Tarefa de Associação Divergente (TAD). Nessa forma, digamos, oficial do jogo de palavras, é necessário dizer 10 palavras num intervalo de 4 minutos. Os termos escolhidos devem ser tão distintos entre si quanto possível.

Testando o teste

Para colocar seu teste em prática, Olson trabalhou com colegas das Universidades de Harvard (EUA) e de Melbourne (Austrália). Os pesquisadores reuniram grupos de voluntários que eram orientados a seguir as regras da TAD. As palavras selecionadas por cada jogador-voluntário foram inseridas numa base de dados. Mais tarde, um algoritmo computacional foi usado para estimar a distância semântica entre os vocábulos registrados.

Três exemplos de conjuntos de palavras e suas respectivas distâncias semânticas (em inglês). Quanto mais próximo de 100 mais distintas são as palavras de cada grupo, o que é um indício de criatividade segundo os pesquisadores. [Figura 1 do artigo em referência]

A distância semântica é um conceito tão simples quanto jogo. “Cão” e “gato” são palavras semanticamente próximas entre si – ambas indicam, afinal, animais de estimação. Por outro lado, “gato” e “livro” não têm relação direta e, portanto, são semanticamente distantes. A hipótese de Olson e sua equipe é que quanto maior distância semântica de uma lista de palavras aleatórias, mais criativa é a pessoa que faz a lista.

Num estudo preliminar, feito na Austrália e no Canadá, os pesquisadores descobriram uma correlação moderada a intensa entre o distanciamento semântico e dois índices comuns de criatividade (a Tarefa de Uso Alternado e a Tarefa de Cobertura Associativa). Em seguida, o estudo foi ampliado para um universo com 8500 participantes de 98 países. Nesse aprofundamento, foi notado que as distâncias semânticas variam muito pouco segundo as variáveis demográficas, o que sugere que o novo teste pode ser útil para o estudo de populações diversas.

Os resultados dessa investigação metodológica foram publicados por Olson et. al. em artigo na Proceedings of the National Academy of Sciences de 22 de Junho passado. O cientista ressalta que a nova técnica deve ser tomada como um complemento e não como um substituto das outras formas de medir criatividade. “Nossa tarefa mede apenas uma fatia de um tipo de criatividade”, declarou Olson em comunicado ao Eureka Alert. “Mas essas descobertas permitem que as análises de criatividade sejam feitas em amostras maiores e mais diversas, com menos vieses, o que certamente vai nos ajudar a compreender melhor essa habilidade humana fundamental.”

Referência

Jay A. Olson et. al. Naming unrelated words predicts creativity [Nomeação palavras sem relação prevê a criatividade]. Proceedings of the National Academy of Sciences Jun 2021, 118 (25) e2022340118; DOI: 10.1073/pnas.2022340118


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