Histórias de Mundos Sem Fundos

symzonia diagram
Diagrama de “Symzonia” (1820)

Se está no Google, dizem os defensores da Terra Oca, é porque existe. Se depender apenas de fontes respeitáveis, a ideia também esteve presente nas páginas da Philosophical Transactions e de vários livros do século XVIII e XIX. O que ninguém diz é que a Terra Oca daquela publicação respeitável era apenas uma pequena hipótese que nunca foi levada a sério pelos cientistas. E a maioria dos livros que se seguiram eram apenas obras pioneiras de ficção científica.

Aquele artigo da Philosophical Transactions dizia “que a aparentemente sólida terra é em verdade uma concha de cerca de 500 milhas de espessura contendo três esferas concêntricas menores […] cada esfera é separada das outras por umas 500 milhas de atmosfera.” O autor deste artigo era ninguém menos que Edmond Halley (1656-1742) — isso mesmo, aquele do cometa! O astrônomo britânico escreveu, em 1692, um paper em que buscava explicar o movimento dos pólos magnéticos. Entre outras explicações que apresentava — inclusive analogias com harmonia musical —, Halley propunha a possibilidade de que o planeta não seria assim tão sólido.

terra oca de Halley
A terra oca de Halley, publicada na “Philosophical Transactions” em 1692 (o artigo foi republicado em coletâneas pela Royal Society em 1753 e 1809 e estas estão disponíveis on-line).

Ainda que hoje nos pareça difícil entender o que haveria em comum entre a Terra Oca e o geomagnetismo, a hipótese de Halley provavelmente foi influenciada por séculos e séculos de relatos de viagens ao submundo através de canais ou cavernas — gregos e romanos já tinham histórias parecidas. Nem precisamos falar da noção de inferno subterrâneo e da influência da Divina Comédia, com seus múltiplos submundos concêntricos. Nos séculos XVII e XVIII a Terra Oca passou a ser vista não apenas como o inferno, mas como a explicação de coisas tão diversas como vulcões, redemoinhos marítimos e ciclones. Ainda que não fossem cientistas, outros propositores seiscentistas da Terra Oca foram o teólogo inglês Thomas Burnet (1635?-1715) e o polímata jesuíta alemão Athanasius Kircher (1601-1680).

Como não parecesse muito provável empiricamente, a Terra Oca de Halley logo caiu no esquecimento da comunidade científica. Mas não da comunidade literária, que então acompanhava publicações científicas como a Philosophical Transactions. Em 1721, uns trinta anos depois da teoria de Halley, surgiu na França um livro de autoria anônima chamado Relation D’Un Voyage Du Pole Arctique Au Pole Antarctique Par Le Centre Du Monde [Relato de uma Viagem do Pólo Ártico ao Pólo Antártico através do Centro do Mundo]. Como indica o título completo (que sempre acaba com qualquer suspense), a obra descreve uma viagem por um canal que atravessa o mundo de pólo a pólo. Mas um poço polar sem fundo, por mais fantástico que possa parecer, ainda não é uma Terra Oca o bastante.

Outras duas décadas se passariam antes do surgimento do primeiro livro autenticamente ambientado numa Terra Oca — um mundo não com um mas com dois planetas internos. Um desses planetas, localizado do outro lado da crosta terrestre, era habitado por uma fantástica variedade de seres vivos inteligentes. No outro, situado ainda mais dentro da Terra, viviam refinadíssimas árvores falantes e andantes, separadas em classes de acordo com suas espécies.

Esses dois mundos (ou mais) eram descobertos acidentalmente por Niels Klim. Ele chega ao universo subterrâneo ao cair num buraco enquanto descia para dentro de uma caverna (não, ele não estava à caça de um coelho com um relógio). Surpreso, Klim dizia durante sua queda que “as conjunturas daqueles homens que mantém ser vazia a Terra estão corretas. No interior da concha ou crosta externa há outro globo menor, e outro firmamento adornado com um sol menor, estrelas e planetas”.

Nesse pequeno cosmos intramundo (e côncavo) Niels Klim descobria que todas as criaturas, vegetais e animais, eram dotadas de fala e de sentimentos. Havia apenas uns poucos homens, mas ali eles eram os únicos animais irracionais — o que leva Klim, bravamente, a buscar civilizar a sub-humanidade e libertá-la do obscurantismo e de sua posição literalmente inferior. O herói norueguês fabrica pólvora e tenta conquistar todas as nações do firmamento, tornando-se “o Alexandre do mundo subterrâneo”. Seu domínio, porém, dura pouco e, enquanto fugia de uma turba enfurecida de criaturas bizarras, Klim tropeça e cai num buraco — o mesmo onde havia caído anteriormente — e volta à Noruega.

Basicamente, esse era o enredo de um livro escrito em latim por um escritor dano-noruegês em 1741: Nicolai Klimii iter subterraneum, Novam Telluris theoriem ac Historiam Quintae Monarchiae adhuc nobis incognita exhibens [algo como O Itinerário Subterrâneo de Nicolau Klim, apresentando uma teoria da Nova Terra e a História da até agora incógnita Quinta Monarquia]. O autor era Ludvig Holberg (1684-1754), considerado pai das Literaturas Dinamarquesa e Norueguesa (os dois países nórdicos eram um só naquela época). Ensaísta, filósofo, historiador e dramaturgo — para alguns, o Molière do Norte —, Holberg foi o mais famoso autor nórdico antes de Ibsen.

Niels Klim
Niels Klim e os seres vegetais do planeta Nazar.

Nikolai (ou Niels) Klim era uma espécie de Gulliver escandinavo: uma combinação de sátira social, utopia e fantasia (ou, se preferir, ficção científica). Não sabemos quem são “aqueles homens que […] mantém que a Terra é oca”, mas não parece absurdo que Holberg tenha sido influenciado pelas teorias de Halley ou as de Kircher. O que importa é que as aventuras de Nikolai Klim alcançaram grande sucesso na época. O texto em latim do original facilitou muito a difusão da obra fora da Escandinávia, mas também houve traduções — a primeira versão em inglês, por exemplo, saiu já em 1743. Não sabemos se houve alguma versão em português, mas é interessante notar que a Quinta Monarquia (a avançadíssima sociedade vegetal do planeta situado no núcleo terrestre) lembra o Quinto Império do Padre Antonio Vieira (1608-1697) e dos sebastianistas portugueses.

Holberg seria o primeiro a estabelecer a mitologia da Terra Oca, mas não o único. No começo do século XIX, com o crescente interesse da comunidade científica no mistério das regiões polares, a teoria da Terra Oca ressurgiu. É fácil se lembrar de Júlio Verne (1828-1905) e sua Viagem ao Centro da Terra (interessante notar que o professor Lindenbrock inicia sua viagem com após decifrar um antigo manuscrito islandês).

Porém, em grande parte, a popularização do conceito se deve ao esforço de John Cleves Symes Jr (1779-1829). Em 1818, convencido de que era original quanto à vacuidade do interior do planeta, Symmes fez uma turnê de palestras pela América do Norte e mandou diversas cópias de sua Circular Número 1 para “cada notável governo estrangeiro, príncipe reinante, legislatura, cidade, universidade e sociedade filosófica”:

Declaro que a Terra é oca e habitável em seu interior; que contém um número de esferas sólidas e concêntricas, uma dentro da outra, e que é aberta nos pólos 12 ou 16 graus. Juro pela minha vida em defesa desta verdade e estou pronto a explorar o vazio, se o mundo me sustentar e me apoiar nesta empreitada.

Está mais para uma declaração de fé e um pedido de verbas a fundo perdido do que para uma descrição convincente de um descoberta científica revolucionária. Enquanto Symmes tentava ser o Colombo das profundezas, novos autores voltavam a explorar o tema em seus romances científicos, que começavam a entrar na moda — Mary Shelley (1797-1840) acabara de publicar Frankenstein. O mais famoso romance científico de Terra Oca antes dA Viagem ao Centro da Terra (1865) foi Symzonia, uma viagem de descoberta. Publicado em 1820 por um certo Capitão Adam Seaborn, Symzonia era ricamente ilustrado com mapas e diagramas dos mundos internos — e tem sido frequentemente atribuída ao próprio Symmes, como peça de propaganda de sua teoria e de seus planos de exploração polar.

Até hoje, tanto as teorias de Symmes quanto Symzonia tem sido apontadas como fontes fiáveis pelos conspiracionistas defensores da Terra Oca. Mesmo que citassem Halley ou Holberg ou o visionário Verne, não estariam mais corretos. Só porque uma ideia é antiga ou foi adotada por homens célebres ou está presente em livros com mapas, não quer dizer que seja real. Se fosse assim, os mapas nos livros de J. R. R. Tolkien (1892-1973) seriam a prova irrefutável da existência da Terra Média e de seus Ents — seres arbóreos muito parecidos com os habitantes do submundo imaginados por Holberg no século XVIII.

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  • Claudio

    Não podemos esquecer do livro escrito pelo Comandante Bird, da Força Aérea Americana - "TERRA OCA" - onde descreve os vôos realizados por ele e sua tripulação, sobre os polos Norte e Sul, onde narra que em dado momento, pensavam estar ultrapassando a grande abertura dos Polos, quando na verdade estavam "entrando" nos mesmos.

    • Renato Pincelli

      Sim, claro. E ele entra no intramundo mas não traz nenhum artefato de lá. Nenhum ser intraterrestre. Nada.

      O fato é que não aconteceu nem uma coisa nem outra, Claudio. Richard E. Byrd (1888-1957) pode até ter pensado estar entrando numa boca polar, mas certamente isso não é verdade. Primeiro porque há sérias dúvidas sobre se ele esteve mesmo no Polo Norte: trechos de seu diário de bordo foram rasurados pelo próprio Byrd e a velocidade alegada para o feito não bate com a necessária. No máximo ele esteve bem perto do Polo e pensou ter estado lá. Ou então voltou mais cedo por um pequeno vazamento de óleo dizendo que mesmo assim tinha chegado lá, sem jamais admitir que pudesse ter se equivocado. É difícil ter certeza porque a única testemunha era o copiloto dele, Floyd Bennett, que morreu em 1928.

      Sua expedição aérea ao Polo Sul, porém, é mais bem documentada (inclusive em filme) e lhe rendeu, com justiça, reconhecimento internacional.

      Quem leu o post inteiro já percebeu que mesmo que Byrd fosse o autor do tal livro, um livro não serve de prova em tempos de imagens de satélite - ainda mais um volume supostamente escrito vinte anos depois dos fatos, quando o autor provavelmente já não andava bem da cabeça. Mesmo que a autoria seja do comandante, Byrd foi só mais um a cair na ilusão da Terra Oca. O que prova que, por mais heroico que alguém seja - e o heroísmo do Comandante Byrd nos primórdios da aviação polar é inegável -, ainda dá pra ser tolo. Certamente, ele deve ter acreditado em seu compatriota oitocentista, Mr. Symmes.

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