Você sabe o que é Neofobia Alimentar?

O nome pode parecer estranho. Porém, um número significativo de pessoas tem ou já teve esse comportamento em alguma fase da vida, principalmente na infância.

Mas, o que é neofobia alimentar? E como ela pode influenciar na resistência em mudar os hábitos alimentares?

Neofobia alimentar é literalmente o “medo de alimentos novos”. É um comportamento caracterizado pela rejeição ou recusa de alimentos não familiares. Trata-se de uma resistência individual em comer e/ou experimentar “novos” alimentos, ou seja, alimentos diferentes do padrão habitual de consumo.

Comum em crianças, também pode prevalecer em adolescentes, adultos e em idosos pela interação entre fatores genéticos e ambientais.

Causas da Neofobia Alimentar:

  1. Hereditariedade, ou seja, pais com neofobia alimentar podem ter filhos com esse comportamento;
  2. Hipersensibilidade ao gosto amargo – causada pelo polimorfismo no gene TAS2R38 – leva a uma alta percepção do amargo e rejeição de alguns tipos de verduras, legumes e frutas;
  3. Práticas alimentares restritivas, além de características culturais e socio-demográficas que levem a monotonia alimentar;
  4. Emoções negativas associadas à exposição ao alimento podem contribuir para recusas alimentares na infância, adolescência e vida adulta.

Portanto, o conhecimento e a experiência pessoal e familiar influenciam o interesse em experimentar alimentos diferentes do habitual.

Assim, pessoas expostas a diversas práticas e culturas alimentares, de forma harmônica e sem pré-conceito, podem ser menos neofóbicas. E, assim, apresentarem maior interesse em experimentar alimentos novos.

De maneira prática, os alimentos são rejeitados pela falta de estímulos internos ou externos para consumi-los por razões como:

  • Aparência, textura, temperatura, não familiaridade com o alimento e extremos de variação de gostos, seja por ser muito doce/salgado ou pouco doce/salgado.

Entretanto, quando se remete ao gosto, o amargo é o mais frequentemente rejeitado. E esta é a razão pela qual é necessário um tempo para desenvolver “o paladar” para determinados alimentos como algumas hortaliças, por exemplo.

A preferência por alimentos amargos pode ser desenvolvida por exposições frequentes ao alimento e por experiências positivas relacionadas ao seu consumo.

Um exemplo disso é o consumo de café que, apesar do gosto amargo característico, é apreciado mundialmente. Além disso, seu consumo é associado positivamente a momentos em família, pausa para o descanso e convívio social.

Sobre a resistência da maioria das pessoas em não tomar café sem açúcar ou adoçante, a neofobia ao gosto amargo pode ser uma explicação. 

 

Neofobia Alimentar e Evolução Humana:

  • A neofobia relacionada ao gosto amargo é uma questão de evolução da espécie humana. Em se tratando de instinto de sobrevivência, nossos ancestrais consideravam o amargor como um sinal para rejeitar o consumo de alimentos deteriorados ou potencialmente tóxicos (dilema do onívoro).
  • Todavia, uma consequência evolucionária de se considerar o gosto amargo como um sinal de toxicidade é que as pessoas passaram a rejeitar níveis baixos de amargor que não são nocivos a espécie humana.
  • Assim, o que era um mecanismo de sobrevivência no passado, atualmente pode ser um fator prejudicial à saúde.
  • Pesquisas mostram que a neofobia é associada ao baixo consumo de frutas e hortaliças e ao elevado consumo de açúcares.
  • Além disso, pessoas com alta neofobia e resistência em mudar hábitos apresentam monotonia alimentar, alto consumo de alimentos hipercalóricos (ricos em açúcares, gorduras e sódio), e baixa variedade/qualidade da alimentação.

Isso pode contribuir tanto para carências como excessos nutricionais, levando ao:

  • Baixo peso (mais comum em crianças, adolescentes e idosos) ou
  • Obesidade, diabetes e hipertensão em adultos e também em crianças e adolescentes de acordo com o balanço energético alimentar e estilo de vida.

Portanto, a neofobia influencia negativamente as escolhas alimentares em todas as faixas etárias e pode dificultar a adoção de hábitos mais variados e equilibrados do ponto de vista nutricional.

Uma estratégia para reduzir a neofobia é a exposição contínua aos alimentos, sem julgamento ou pressão, de forma atrativa  para que a rejeição seja aos poucos substituída pelo hábito.

Dessa forma, é possível reduzir a neofobia alimentar e contribuir para mudança de hábitos a partir de uma relação mais harmônica e positiva com os alimentos.

Para saber mais sobre Neofobia Alimentar, acesse o artigo “Translation and Validation of the Food Neophobia Scale (FNS) to the Brazilian Portuguese” em: http://www.aulamedica.es/nh/pdf/9108.pdf
Sobre Helena Previato 11 Artigos
Helena Previato é Doutora em Alimentos e Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Nutricionista e Mestre em Saúde e Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto. Especialista em Nutrição Clínica pela Associação Brasileira de Nutrição.

18 Comentários

    • A neofobia alimentar, apesar do nome ser diferente, é um tipo de seletividade alimentar muito comum, principalmente em crianças. O importante é buscar acompanhamento nutricional especializado. Dessa forma, o Nutricionista irá identificar o comportamento de neofobia alimentar e propor orientações alimentares individualizadas para promoção da saúde tanto física quanto emocional.

      • Eu tenho seletividade alimentar e descobri recentemente que era um transtorno, pode se dizer também como neofobia. Não sei por onde começo meu tratamento, tenho 26 anos e desde pequena sofro com isso, pois sempre foi tachado por todos como sendo frescura. A algum tempo fui em uma nutricionista e ela deu a entender que isso era apenas frescura e que eu devia forçar comer os alimentos.

        • Olá, Josiane. É possível fazer o tratamento tanto da seletividade quanto da neofobia alimentar. Se precisar de algum auxílio, estou à disposição.

      • Meu filho tem 18 anos vê, não como nada, disse que a pior hora pra ele é vá hora do almoço, e, seu almoço é arroz e banana. Ele não come carne, frutas, verduras. Já estou ficando doente com essa situação. Me ajuda, pelo amor de Deus.

        • Olá, Maria. Obrigada pelo contato. Sim, essa situação é muito difícil e angustiante para as mães. Mas, é possível tratar a neofobia alimentar. Pode entrar em contato comigo que será um prazer ajudá-los.

  1. Muito legal, obrigada pelos esclarecimentos.
    Eu com certeza sofri disso por muitos anos,
    depois dos 16 anos, comecei a ver que passava muito perrengue na rua, na casa dos outros, e sabia que tinha que mudar…
    Eu mesma me coloquei em desafio, e tentava forçar as comidas, mesmo quando não queria…
    hoje, posso dizer que estou 80% melhor… foi aos poucos… meu maior desafio eram as texturas, até quando descobri que as vezes, só se come uma verdura justamente pela textura ser crock crock… e dai fui percebendo que cada alimento tem uma função, seja adoçar, seja dar crocancia, seja dar cor e vida…

    obrigada por compartilhar para que mais pessoas se curem!

    • Olá, Jéssica. Obrigada por compartilhar sua história! Com certeza o conhecimento e a busca de auxílio profissional são fundamentais para o tratamento da neofobia alimentar. Um abraço!

  2. A minha neta de 2 anos tem horror a comida, não come nada de comida, arroz,feijão, legumes etc,na maioria das vezes só mama mamadeira, mesmo assim é difícil de mamar, minha filha já tentou de tudo, mas ela faz até vômito quando tentamos dá comida pra ela. Não sabemos mas o que fazer, já levamos em vários médicos, mas todos dizem que isso é normal, que com o tempo ela volta a comer, mas isso não acontece, já tem quase 2 anos Quê ela não come comida. Ela comeu dos 6 meses até 1 anos e 2 meses, depois não quis saber mas de comida, não sabemos mas o que fazer fazer. Obrigada

    • Olá, Suely. Agradeço pela sua mensagem! Nessa idade esse tipo de comportamento seletivo e restritivo é comum. Porém, é preciso buscar um acompanhamento nutricional o quanto antes para entender as causas dessa recusa alimentar e começar a incluir novos alimentos de uma forma positiva e respeitosa com a criança.

  3. Minha filha com 22 anos sofre deste problema desde bebê. Quase não come alimentos sólidos, não experimenta nada novo, só toma sopinha batida, come pão francês puro, batata frita,pipoca e chocolate ao leite.Come maçã e banana,alguns biscoitos específicos e marcas também específicas. Um horror.Nunca conseguimos mudar isto nela, apesar de todas as tentativas.

    • Olá, Lucia. A neofobia pode ter início na fase de introdução alimentar e se manter ao longo dos anos até a adolescência ou vida adulta. Mas, com acompanhamento adequado é possível mudar os hábitos e essa relação de recusa alimentar.

  4. Boa noite,Helena! Tudo bem?
    Meu filho tem 10 anos e as únicas coisas que ele come, são:
    Suco de maracujá, chá mate, batata frita,apenas o queijo que vem por cima da baguete e sopa de legumes e feijão batidos e coados no almoço e janta. Faz acompanhamento com fono, e já fez com terapeuta ocupacional. Me dizem que é problema sensorial, mas ainda não melhorou em nada. Sofro muito de ver meu filho assim!

    • Boa tarde, Elisângela! Tudo bem e você? Agradeço pelo contato. Imagino como é difícil para você essa situação. Mas, é possível fazer um acompanhamento e tratamento desse tipo de restrição alimentar mais severa. Vamos conversar mais!

  5. Boa tarde doutora! Venho te pedir ajuda, meu filho de 16 anos não come nada, assim como muitas histórias. Ele está com acompanhamento de psicólogo há +- 1 ano, e até agora não vimos resultado, já passei com Nutricionista e ele não consegue comer nada. Só come comidas que não são saudáveis, ele chora dizendo que sente fome mas não consegue comer. Estou desesperada, por favor se puder me indicara algum profissional em São Paulo, te agradeço. Só preciso ajudar o meu filho! Minha alimentação é saudável, graças a Deus não falta nada para ele poder se alimentar melhor….Só preciso de ajuda! Obrigada

    • Olá, Mara. Boa tarde! Agradeço pelo seu contato! Eu faço atendimentos on line e posso atender seu filho.
      Fico à disposição para ajudá-los.
      Um abraço!

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