Escrita científica: conhecimento ou empoderamento?

Pra quem já passou pela fase de defesa de mestrado ou doutorado sabe o quanto o último semestre é um momento de dúvidas, aprendizagem e até mesmo empoderamento. Durante esse post irei contar um pouco de como tem sido o meu processo de escrita científica.

 

Já faz algum tempo desde o meu último post, e esse distanciamento do blog aconteceu porque eu acabei entrando numa fase crítica do meu doutorado, o de finalização desses quatro anos. E desde outubro de 2018 eu me vi no meio de artigos, tese, congressos e a dúvida do que fazer depois.

Em outubro eu comecei a escrever meu primeiro artigo, mas eu me dei conta que eu estava perdida, sem saber por onde começar e sem ter certeza se eu estava preparada para isso. Foi então que eu fui atrás de mais conhecimento para quebrar uma crença que eu sempre tive: “De que que eu não sabia o suficiente”. Comecei a ler um livro sobre escrita científica e finalmente achei um ponto de partida.

E durante esse processo de escrita veio meu primeiro grande desafio, um congresso internacional no Chile, em que eu enfrentei cara a cara o meu medo e a minha insegurança. Essa foi a primeira viagem que eu faria totalmente sozinha, e por mais que eu fosse encontrar amigos lá, eles não estariam ao meu lado 100% do tempo. Além disso, passei pelo desafio do idioma, afinal, eu estava em um país que fala espanhol para participar de um congresso que utiliza basicamente inglês e com amigos brasileiros.

No final meu maior aprendizado foi: “Muita coisa vai dar errado, você vai tomar decisões não tão boas ou que te levem a uma situação mais complicada (principalmente quanto à organização da viagem), mas está tudo bem. Afinal, você tem muito o que aprender, e a única coisa que você pode fazer é levantar a cabeça e continuar insistindo, pois é isso que te fará alcançar o sucesso lá na frente”.

E assim, eu voltei disposta a descobrir qual seria o próximo passo, a encontrar aquela paixão pela vida que eu deixei pelo caminho e a motivação necessária para finalizar meu doutorado.

Então eu voltei a trabalhar no meu artigo e me dei conta do quanto eu gosto de filosofar em torno do que as análises de bioinformática me mostram. É incrível você parar para pensar que a natureza segue seu próprio caminho contornando todas as adversidades que surgem. E porque nós resistimos tanto para mudar?

Enfim, sempre chega aquele momento que você tem que parar de filosofar e dar de cara com a verdade, tudo tem seu prazo. O meu já tinha acabado, e eu precisava começar a escrever minha tese. Pois é, já está chegando a hora de defender. E depois? Claro que eu dei uma leve pirada nesse momento, decidir o próximo passo nunca é fácil quando você ainda se vê presa a algo.

Por isso, eu decidi focar em terminar primeiro o doutorado, afinal tudo parecia muito claro e fácil na minha mente. Mas quando eu passei pro papel e as coisas foram tomando forma eu percebi que eu tinha muito mais coisas a fazer, e sem dúvida isso não seria tão rápido assim.

E ainda nesses últimos dois meses surgiram outros artigos para escrever e revisar. Além de um futuro projeto de pós doutorado, que ainda está por começar.

Como definir o limite de dar o seu melhor e buscar a perfeição? O que eu tenho a aprender com a escrita? Tudo isso me fez perceber que eu venho buscando o perfeito mais do que eu imaginava, que eu ainda tenho dificuldades em passar para o papel o que está na minha mente de forma objetiva e clara.

Já fazem cinco meses e eu tenho passado por uma avalanche de autoconhecimento, profissional e pessoal. O estresse é alto, a necessidade de um descanso mental também, a vontade de desistir sempre surge, e meu corpo tem sentido os resultados disso. E a forma que eu encontrei para reduzir os danos foi buscar conhecimento e testar tudo que fosse possível. Porque os efeitos do estresse nem sempre são imediatos, eles são cumulativos, e é preciso lidar enquanto há tempo.

E nessa busca, eu tenho aprendido muito sobre o que me faz bem, a como lidar com meu estresse e minha ansiedade, a respeitar o meu tempo, a me organizar e planejar pouco a pouco os próximos dias e principalmente, a entender que eu posso não saber tudo mas eu sei muito, e eu irei continuar apredendo mais a cada dia. Afinal, nós sempre saimos mais fortes depois das tempestades se soubermos encontrar o nosso ponto de equilíbrio.

E depois de ter passado por pouco mais de 50% de todo o processo eu me dei conta que a escrita científica é mais do que apenas transmitir um conhecimento, ela é dependente também de autoconfiança (conhecimento já adquirido e idioma), de clareza dos nossos próprios objetivos, e de um olhar além do que está na nossa frente, o que de uma certa forma resume o nosso estado de empoderamento.

 

E pra quem estiver passando por isso e estiver tão ansiosa quanto eu para a defesa, deixarei nas referências dois textos com dicas de como se portar e do que esperar durante o seu grande momento =D.

 

Referências

Kuschnir, Karina. 2015. “Defesa de doutorado: dez dicas para sobreviver (e aproveitar)”, Publicado em karinakuschnir.wordpress.com

Sgarbi, Adrian. 2013. “O que não fazer em sua defesa de dissertação ou tese”, Publicado em pesquisatec.com

 

 

Tags , , , , , , .Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Sobre Sheila Tiemi Nagamatsu

Formada em Biotecnologia pela UFSCar, Dra. em Genética e Biologia Molecular com ênfase em Bioinformática na UNICAMP, apaixonada por desenvolvimento pessoal e, atualmente, pós-doutoranda em YALE na área de psiquiatria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.