A política dos fragmentos

Um tecido com vários fragmentos serve como metáfora para explicar a conjuntura política atual no Brasil. Por “conjuntura política atual”, entendo o conjunto dos acontecimentos que estão afetando e alterando o cenário político desde 2018. Na lista dos governadores, percebe-se a divisão das vitórias entre diferentes siglas, 12 no total. Essa fragmentação diz respeito à quantidade de partidos que venceram as eleições estaduais e também ao modo como os discursos políticos foram apresentados ao eleitorado em 2018.

Esta é a política dos fragmentos: vitória do Novo em Minas Gerais, do PP no Acre, do PHS em Tocantins, do PCdoB no Maranhão e do PDT no Amapá. Todos esses partidos conquistaram apenas um estado. Três partidos venceram em dois estados: DEM, partido mais votado entre eleitores goianos e mato-grossenses para o Executivo estadual, PSD elegeu governador no Paraná e em Sergipe e PSC no Rio de Janeiro e no Amazonas. 

E, por fim, os partidos com mais conquistas: 
PSB com Espírito Santo, Paraíba e Pernambuco, MDB com Alagoas, Distrito Federal e Pará, PSDB com Rio Grande do Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul, PSL com Santa Catarina, Roraima e Rondônia, PT com Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. 

O cenário, evidentemente, está mais desagregado do que na eleição anterior, embora exista uma frente suprapartidária de governadores apoiadores da chapa vitoriosa na eleição presidencial de 2018. Em 2014, venceram as eleições para governador um total de 9 partidos: PMDB  (sete estados) PSDB e PT (cinco estados), PSB (três estados), PDT (dois estados), PSD (dois estados), PCdoB, PROS e PP (com apenas um estado). Havia, então, uma concentração de 17 estados governados por três partidos (PMDB, PSDB e PT). 

Aqui não farei uma análise minuciosa das recentes alterações nas arenas eleitorais no Brasil, afinal, seria necessário um tratamento sistemático de dados para tal tarefa. Iniciativas de pesquisa demonstram as tendências recentes da relação entre Executivo e Legislativo. Conforme analisado por Bonfim e Luz, em painel apresentado no GT “O presidencialismo de coalizão brasileiro” no Encontro da ANPOCS de 2018, havia expectativa de alteração dessa interação entre Executivo e Legislativo com a Emenda Constitucional 86/2015. Minha aposta: daqui a algumas décadas surgirão estudos de caso sobre os inúmeros equívocos dos cálculos políticos no Executivo e no Legislativo no curto intervalo compreendido entre 2013, das manifestações nas ruas, e 2018, da eleição presidencial com 13 candidaturas. A Emenda Constitucional 86/2015, que ficou conhecida como a do “orçamento impositivo”, tramitou no Congresso por 15 anos. O Senador baiano Antonio Carlos Magalhães foi o autor em 2000, mas somente em 2015, durante a presidência de Eduardo Cunha na Câmara e a de Renan Calheiros no Senado, o Congresso promulgou a Emenda 86. 

A vitória dos desconhecidos ou dos novatos – para evitar o termo “outsider” – marcou as campanhas de estados com “tradições” políticas e dimensões eleitorais heterogêneas. Foi assim em Santa Catarina, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, somente para citar três exemplos de candidatos que usaram seus respectivos ofícios como forma de justificar sua distância em relação à “velha política”: um bombeiro, um empresário e um ex-juiz federal.  O caso fluminense foi, inclusive, tema de curiosa cobertura da imprensa, pois parte do eleitorado não sabia o nome do candidato do PSC, vencedor do pleito. Uma radiografia desse desconhecimento foi apresentada em matéria da revista piauí, texto preciso do jornalista Tiago Coelho.

O voto de confiança em figuras políticas que parecem “sinceras” ou “autênticas” evidencia que partidos fragmentados, os quais parecem cada vez mais ajuntamentos ideologicamente heterogêneos, podem obter sucesso eleitoral. E vários dos recursos recorrentes das candidaturas à presidência, desde as campanhas de 1994, se mostraram prescindíveis para a vitória eleitoral (como vasto tempo de TV, bom desempenho nos debates, amplas coligações partidárias, vinculação a partidos com grandes bancadas e programa de governo coerente e explícito). 

Sobre Luã Leal 29 Artigos
Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

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