Vozes de cientistas

É possível aquilatar, entre adultos da minha geração (Millennials), um crescente interesse pelo universo de podcasts. Esse tipo de companhia com mediação de vozes, de alguma forma inspirada na experiência radiofônica, é fragmentada em múltiplos nichos. Quem tem interesse por conjuntura política, pode procurar programas como o “Foro de Teresina”, da revista piauí, ou o “Café da Manhã”, da Folha de S. Paulo. Para profissionais das áreas de ciência, tecnologia e inovação, existe um emaranhado de programas voltados especificamente para esse público, com interesse em ouvir as vozes de cientistas.

Nas universidades, inúmeras experiências também estão atraindo a atenção de docentes e discentes. Há poucas matérias sobre um tema central: quais as formas de investimento em divulgação e difusão científica? E uma questão para cientistas sociais: seria o universo de podcasts uma forma promover uma sociologia pública?

O sempre carismático Burawoy já desenvolveu várias reflexões sobre a importância de jamais produzir apenas para o público especializado, situado no interior das fronteiras da disciplina conhecida como sociologia. Um resumo de sua argumentação pode ser assistido nesta palestra, com tradução continuada, proferida em 2011 na UFBA. Eu publiquei uma postagem sobre o tema em setembro de 2016, quando divulguei três inspirações para o “Vértice Sociológico”: 1) vídeos como estes da Nature; 2) colaborações diversas sobre temas específicos no site Circuito Acadêmico; 3) podcasts temáticos como os disponibilizados no site The Sociological Imagination.

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Ouvir ciência pode ser também uma forma de cativar público para além dos muros das instituições universitárias de ensino e pesquisa, mas ainda são escassas as iniciativas nas humanidades. O cenário começa a se mover aos poucos. O Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem, o EA², da Unicamp promoverá em maio o evento “Podcast como mídia educacional?”, com participação de docentes-podcasters.

E como pensar a especificidades do formato podcast para as áreas de humanidades? Estudantes, na graduação ou na pós, em poucas oportunidades conseguem apresentar suas respectivas pesquisas. Os espaços mais “normais” são os eventos acadêmicos (às vezes exposições orais que ocorrem em salas vazias). os periódicos (alguns com pequeno público de leitores) ou as atividades fechadas de grupos de pesquisa ou de orientação. Por outro lado, é fácil acompanhar relatos sobre trajetórias de quem pesquisa, sobretudo itinerários de figuras consagradas. Entrevistas escritas a respeito da carreira de “um pesquisador se tornou um sociólogo renomado e reconhecido” encontramos até mesmo em revistas acadêmicas, mas poucas vezes lemos relatos sobre bastidores da atividade acadêmica. Um exemplo, que pode servir para inspirar, é o blog mantido por José Nunes.

Como ouvir as vozes de cientistas falando sobre percalços da vida acadêmica? Esta é minha primeira sugestão de tema para quem tem interesse de entrar no universo de podcasts científicos na área de ciências sociais.

A Unicamp mantém um “programa de jornalismo e divulgação científica”, o podcast “Oxigênio”, sob coordenação de Simone Pallone. A lista dos programas completos está disponível aqui: http://oxigenio.comciencia.br/category/programa-completo. Na edição 277, da revista Pesquisa Fapesp, de março de 2019, Fabrício Marques publicou amplo mapeamento de podcasts sobre ciência. A matéria “Microfones abertos para a ciência” traz ao público depoimentos dos criadores do “Alô, ciência?” (biólogos egressos da USP), “Dragões de garagem” (equipe formada por especialistas de diferentes áreas), “Fronteiras da ciência” (físicos da UFRGS) e do “SciCast“, do portal “Deviante”. Vale citar na íntegra estes dados sobre o público, predominantemente adulto e masculino, apresentados na matéria:

Segundo a PodPesquisa 2018, levantamento realizado com 22 mil ouvintes pela Associação Brasileira de Podcasters, 84% do público de podcasts no Brasil é masculino. Cerca de metade tem entre 20 e 29 anos de idade – em seguida vem a faixa dos 30 aos 39 anos, com 34%. Seis em cada 10 estão fazendo ou concluíram um curso superior, enquanto outros 20% têm pós-graduação.

A partir deste ponto, é fundamental retomar a questão: como pensar em investimento para divulgação científica no Brasil? Para ouvir cientistas, o Instituto Serrapilheira financiou os projetos do podcast de ciência “37 Graus”, do programa de TV CIENTE (UECE) e do canal no youtube “Computação sem Caô”. Esses foram alguns dos escolhidos no Camp Serrapilheira, que ocorreu em dezembro de 2018. Branca Vianna Moreira Salles preside o Conselho Administrativo do Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos que atua como fomentadora da ciência no Brasil.

O CNPq mantém uma rádio na web, a Rádio CNPq (https://soundcloud.com/user-349483946) com programas disponibilizados no Soundcloud, como o “Pioneiras da ciência”. O episódio 26 deste programa, aliás, foi dedicado à trajetória da socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918-2018). O fenômeno do crescimento do número de ouvintes de podcasts de ciência parece global. A revista Nature publicou, em janeiro de 2019, uma reportagem sobre o crescimento desse tipo de programa. Nesse texto, é citada a pesquisa de MacKenzie, da Universidade de Durham: de acordo com seus dados, os podcasts de ciência falados em língua inglesa passaram de cerca de 200 em 2010 para mais de 950 em 2018.

Doutora em paleontologia e atualmente pós-doutoranda, Gabriela Sobral preparou e divulgou, em janeiro de 2019, uma lista bastante completa de projetos de divulgação científica É notório que, no Brasil, há mais podcasts de história do que de ciências sociais. No Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Unicamp, foi realizada uma experiência do curso de graduação em história: o Republicast.

Uma iniciativa com vídeo e áudios foi criada em Santos no início desta década. Desde 2011, o programa “Urbanidades” é produzido pela Fundação TV Educativa Universidade Católica de Santos. A série de podcasts, com episódios divulgados até 2014, é uma demonstração de como temas diversos podem ser abordados em espaços de conversa sobre pesquisas das áreas de humanidades.

Minha segunda sugestão, então, é indicar que cientistas sociais leiam bastante sobre o mercado de podcasts. Somente assim poderemos analisar os melhores formatos para a comunicação com um público mais amplo e heterogêneo do que aquele que assiste palestras em congressos científicos. Além do caso da Serrapilheira, o programa de criação de podcasts do Google, com apoio da empresa de mídia especializada em programas radiofônicos PRX, é um exemplo de que, emboras escassas, ainda existem alternativas de financiamento.

 

 

 

Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

Sobre Luã Leal 25 Artigos
Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

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