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Divulgação Científica

Plataformas digitais, usuários de redes sociais e escolhas de conteúdos

Ao fundo, em márca d´água, várias marcas de redes sociais interligadas por linhas. à frente, a ilustração de uma mulher, de vestido vermelho e cabelo azul, com as mãos na cabeça e várias perguntas ao seu redor: liberdade de escolha? nicho de público? Indústria de hits e virais e distribuição de conteúdos. Abaixo da imagem há uma faixa pequena, com a frase "Notas não aleatórias sobre Cultura, Educação e Divulgação Científicas".

No texto anterior falei um pouco sobre público alvo e furar bolhas. Hoje, eu gostaria de falar sobre a tal da liberdade de escolha em relação aos perfis e canais que seguimos – e, também, do nosso público de seguir. Existe uma infinidade de variáveis nem sempre simples de mensurarmos e analisarmos, seja como usuários das plataformas de redes sociais, seja como produtores de conteúdos. [nota da autora: eu não gosto do termo produtor de conteúdo, mas por enquanto seguirei usando…].

Há quem fale nas infinitas possibilidades do espectador nos dias de hoje em termos de canais e perfis, tanto quanto nas infinitas possibilidades de interlocução de quem produz conteúdo.

Mas isso não se refere – nem de longe – à liberdade de escolha e de compreensão de como achar e entregar estes conteúdos.

E é aí que existem muitos gargalos que são importantes!

Seguem alguns questionamentos:

  • Será mesmo que temos este poder todo de escolha?
  • Como os conteúdos aparecem para nós?
  • Todas as pessoas ou perfis que seguimos aparecem igualmente?

Primeiramente, já vou soltar o spoiler óbvio de que não existe liberdade de escolha quando falamos em mídia social. Existe muitos meandros – desde patrocínios, segmentação de público e algoritmos que estamos longe de compreender e ter transparência para os usuários finais. Portanto: não temos poder de escolha não… Porém, vamos lá falar sobre o que eu estudei e encontrei enquanto estudava…

Foi tentando entender estas questões enunciadas acima, sobre produção de conteúdo em plataformas, um pouco de marketing e publicidade, outro tanto sobre comunicação, que me deparei com o conceito de Chris Anderson de Cauda Longa. Confesso que apenas comecei a ler e estou longe de ser uma expert nisso (nem sei se pretendo ser, inclusive…).

Mas vou compartilhar um pouco do que compreendi, ao me embrenhar no tema.

A imagem representa o gráfico Cauda Longa, de Chris Anderson (de livro homônimo) em que ele fala do mercado de massa e do mercado de nicho. Em uma ponta do gráfico há a cauda curta, que seria uma grande quantidade de vendas (ou acesso a um produto/conteúdo) e de outro a cauda longa, que é um baixo acesso ou venda, atingindo um público muito específico.
Imagem ilustrativa a partir de algumas leituras do livro Cauda Longa, de Chris Anderson

O autor aponta sobre como a venda de produtos e serviços modificou-se nos últimos tempos. De um lado temos a “indústria dos hits” – que são aqueles produtos de massa, com um grande investimento desde a produção, passando pelo marketing, até o usuário/cliente final;

Do outro lado, temos os nichos de mercado – que são aqueles produtos consumidos e utilizados por poucas pessoas, por inúmeros motivos. Por exemplo, pela especificidade do produto, ou por ser pouco palatável ao grande público, por ser culturalmente isolado a grupos sociais delimitados, etc.

A cauda longa se refere ao formato gráfico entre os primeiros produtos e os produtos de nicho, dentro da mesma categoria cultural (como cinema, música, até outros itens consumíveis).

E porque existe a cauda longa?

O Nicho de mercado sempre existiu de um modo ou outro, claro. Mas o autor argumenta que a internet potencializou o fenômeno, por causa de 3 fatores em especial:

Democratização das ferramentas de produção

tecnologias mais baratas e acessíveis, os próprios usuários produzem seu conteúdo. A lógica do “nós somos nosso próprio canal”. Uma individualização de quem presta o serviço e também acaba sendo “empregado de si mesmo”. Há quem fale também desse processo como precarização – o que faz muito sentido, quando pensamos que acabamos sendo um faz tudo, sobrecarregando nosso dia a dia, sem conseguir aprofundar nosso tempo de produção em nada muito específico exatamente pela exacerbação da individualização, sem pagamento necessário para um aumento de contratações especializadas. O debate é longo e valeria a conversa com quem teria mais aprofundamento que eu para abordar o tema.

Redução de custos de distribuição

muitos materiais são digitais, nós lançamos nas redes, tudo fica acessível via upload. Neste caso, temos pouco debate também sobre o custo de manutenção destes materiais na nuvem. Como disse alguém (em alguma rede social, em um post que fica armazenado em alguma nuvem): a nuvem é espaço físico em algum servidor do mundo. A que custos mantemos os materiais em nuvens e por quanto tempo teremos isto sem ser contabilizado realmente? E quais dados nossos são disponibilizados sem que compreendamos o modo de ser usado, ao mantermos “de graça” conteúdos nas nuvens por aí?

Ligação entre oferta e demanda

os meios digitais aproximam produtores de conteúdos e usuários finais, ferramentas de busca tornam simples o acesso de conteúdos variados. Talvez valha pensar aqui sobre qual o modo esse acesso “torna-se” simples. Isto é, o que existe de organização e programação nas plataformas de buscas, de redes sociais, de plataformas quaisquer para que isto nos pareça “simples”, para que realmente consigamos acessar o conteúdo relevante ao que buscamos. Por fim, se efetivamente o que sugere-se para nós nestas plataformas é o que procuramos e precisamos…

O que tem a ver isto com nosso público alvo?

Pensando nas redes sociais, o que vemos na prática é que temos uma proliferação de canais, que competem entre si pelos usuários/clientes/leitores em meio a muitos outros conteúdos. Claro que estes autores que fui buscar falam basicamente de marketing e publicidade para compra e venda de produtos em meios digitais. Mas a questão é que na divulgação científica, sendo feita dentro destas plataformas, muitas destas lógicas se aplicam e precisam ser pensadas, quando desenhamos nossos projetos de comunicação, nosso público alvo, nosso modo de ação como um todo.

E aqui a ideia de público alvo e furar bolhas novamente pode ser retomado. Quando pensamos em um público alvo, se ele volta-se a um nicho restrito, não terá um crescimento gigante, pois não existem muitas pessoas dentro desta bolha. Se quisermos furar bolhas (ou seja, expandir seguidores para além do público alvo): não estaremos modificando nosso conteúdo e saindo deste nicho? Quais os motivos que nos levam a isto?

Lembrando que não é um problema em si, mas é uma questão importante de ser pensada. Uma vez que se trata de organização, planejamento e estudos dentro de uma área (científica) para atuação em outra área (a comunicação), faz parte de uma estratégia que precisa ser delimitada.

Sobre público alvo, mídias sociais e conteúdos para estes públicos

Para além do debate feito na divulgação científica sobre como a informação é pouco linear e a fragmentação desfavorece o aprofundamento, temos que lembrar que o conhecimento científico não é um produto “que se vende”. Porém é, também, um pouco – se for pensado dentro destas plataformas. Estamos falando de consumo de informações em redes sociais. A própria linguagem de produção de conteúdo está muito mais relacionada ao marketing nessas redes do que, por exemplo, ao planejamento pedagógico das temáticas que abordamos… [pedagógico aqui no sentido de ser organizado a partir de um conhecimento científico que será acessível a um público extra pares].

Há pouco espaço para um debate mais longo nas redes sociais sendo lidos/escutados/vistos no dia a dia. Isto é, enquanto estamos em uma rede social: lemos tweets, vemos fotos, escutamos playlists, ouvimos episódios, maratonamos séries (enquanto comentamos nas próprias redes). E tudo simultaneamente, muitas vezes.

Enquanto curtimos um post de divulgação científica, ao rolar a tela também daremos risada com algum gato fazendo gatices, pulando depois para algum viral do momento em dancinhas, para depois cair em outro post de divulgação, de temática diferente, entremeado de postagens patrocinadas. Isto tudo em poucos minutos (em que podemos estar escutando uma música ou podcast, por exemplo). Isto é: fragmentação, não linearidade, informações e ruídos diversos, sem aprofundamento e imersão.

Parece disputa de atenção? 

Ao atuarmos como divulgadores, disputamos sim a atenção dentre estes vários itens/perfis/conteúdos. Nem estou aqui lastimando isso como fato, tampouco sendo inovadora no que estou falando: apenas levantando itens relacionados ao trabalho cotidiano.

Todos estes conteúdos podem ser interessantíssimos (incluindo as fotos maravilhosas de gatos). Dessa forma, são vistos por pessoas que compõem o que chamamos de “público alvo”. Na mesma plataforma há, também, amigos e familiares com informações aleatórias, no mesmo rolar de tela.

Tudo isto é informação para o usuário final (isso inclui nós mesmos, claro). E, mais do que isso, tudo isso compete pela atenção, distrai, causa risos, raivas, alegrias  Ou seja, tudo isso permite ao público compreensão do mundo ao redor, tanto quanto desinformação, cansaço pelo excesso de fragmentação e ruídos gerados.

Por fim…

Para finalizar este texto, aponto que esta discussão é, obviamente, insipiente ainda e tem mais um texto que sairá, sobre engajamento, dentro desta série!

Aguardem 🙂

Para saber mais

A inspiração do texto de hoje pode ser vista aqui:

Luiza Caires

Scienceblogs Brasil

Já falamos sobre a Divulgação Científica e especialistas, também, no primeiro post do CEDiCiências

Além disso, consultei os materiais:

Anderson, Chris (s/d) Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho.

Larrosa, Jorge (2002) Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, n.19.

Strutzel, T (2015) Presença digital: Estratégias eficazes para posicionar sua marca pessoal ou corporativa na Web. Rio de Janeiro: Alta Books.

E do Mindflow:

Desafios do produtor de conteúdo – da comunicação de massa ao digital

O Dilema das Redes e porque esse problema também é seu!

O que é Comunicação Institucional?

No PEmCie

Divulgação científica em tempos de pandemia: como elaboramos conteúdos?

Excessos: informação, opinião, experiência

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