Ciências Cognitivas e Religião

ResearchBlogging.orgHá alguns dias, eu estava assistindo a um documentário sobre uma tribo indígena da região amazônica brasileira. Em uma parte do programa, os repórteres acompanham uma espécie de ritual de passagem para a vida adulta: o jovem candidato à adultez tinha que ser picado por centenas de formiga “Bala”. Só pra você ter uma idéia, as formigas “Bala” são número 2 no ranking “the 5 most horrifying bugs“. O nome dessa formiga é “bala” não porque ela gosta de coisas doces, mas por que a sua picada é considerada uma das picadas mais dolorosas do reino animal e se assemelha à sensação de se levar um tiro.

Enfim, no ritual, a pessoa deve ser picada por centenas dessa formiga por aproximadamente um minuto. Daí você está preparado para ser adulto.
Esse programa me chamou atenção, pois está diretamente relacionado com uma linha de pesquisa que estou ativamente trabalhando recentemente. É o estudo da “religião” e “crenças” a a partir de um ponto de vista cognitivo. Durante muitos anos, o estudo da religião era algo executado por antropólogos e estudiosos culturais. Esses estudiosos, a partir de uma perspectiva émica, investigam as peculiaridades de certas religiões e rituais religiosos. Meu interesse (e das pessoas que trabalham com essa perspectiva) é: será que conceitos religiosos são fundamentalmente diferentes de conceitos não religiosos? De um ponto de vista cognitivo, em que nossas ações cotidianas se diferem das nossas ações ritualísticas?
Essa nova Ciência Cognitiva da Religião surgiu a partir da vontade de se compreender as bases cognitivas que permitem que crenças religiosas surjam. E o mais importante: essas investigações são todas de caráter empírico (ver meu post sobre crenças e religião).
O interesse geral dessa linha de pesquisa é: entender como conceitos religiosos são adquiridos, mantidos e como eles motivam ações humanas. A hipótese é de que, mesmo ações ritualísticas surpreendentes (como o ritual de passagem com as formigas bala) podem ser compreendidas a partir de um aparato cognitivo simples.
Justin Barret, do Departamento de Psicologia do Calvin College nos Estados Unidos, publicou em 2000 uma revisão interessante sobre o que está rolando na área de Ciência Cognitiva da Religião. São estudos que envolvem (1) representação de conceitos sobre coisas naturais e sobrenaturais (2) o surgimento do pensamento religioso durante a infância, (3) a forma como conceitos religiosos/sobrenaturais co-existem com conceitos naturais e não-religiosos, etc.
Justin Barret estará no próximo encontro da Cognitive Science Society em Amsterdam em um simpósio organizado pela professora Cristine Legare do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas. Eles discutirão alguns trabalhos recentes que estão sendo desenvolvidos no mundo, inclusive um trabalho que Cristine e eu estamos desenvolvendo no Brasil. Assim que tivermos resultados mais concretos, eu postarei alguma coisa sobre esse nosso estudo aqui.

Referência:
Barrett, J. (2000). Exploring the natural foundations of religion Trends in Cognitive Sciences, 4 (1), 29-34 DOI: 10.1016/S1364-6613(99)01419-9
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