Send in the Clowns: O Triunfo da Ignorância no Brasil.

ResearchBlogging.orgMais um período de eleições presidenciais no Brasil. Infelizmente, apesar de um primeiro turno de eleições bem movimentado, com a presença de dois canditados fortes (Dilma e Serra) e uma clara promessa para as eleições de 2014 (Marina Silva), o destaque das eleições foi outro: São Paulo elege, com mais de 1 milhão de votos, um palhaço analfabeto para Deputado Federal.

Tiririca, como é conhecido o mais novo representante de São Paulo no Congresso Nacional, não tem conhecimento algum sobre os problemas que afetam o Brasil. Ele não sabe o nome do presidente do partido em que concorreu nas eleições, não têm uma proposta concreta para atuação no Congresso, e sequer entende o processo de distribuição de cadeiras no Congresso Nacional. No entanto, a ignorância de Tiririca com relação a esses fatos não me surpreende. De fato, o que mais poderíamos esperar de uma figura como ele?

De um ponto de vista cognitivo, no entanto, fico curioso. Em particular, o que chamou minha atenção foi (1) como pode um candidato como o Tiririca demonstrar tanta confiança e segurança durante o que ele chamou de “campanha política”? e (2) como pode essa confiança e segurança convencer mais de um milhão de pessoas de que Tiririca é sim uma boa escolha para o Congresso Nacional? Em outras palavras, fiquei sim intrigado com a confiança e segurança do Tiririca (e das pessoas) diante de tanta ignorância política.

A única tentativa de explicação que me vem à mente tem haver com um conceito cunhado em 2002 pelos psicólogos Frank Keil e Leo Rosenblit, conhecido como, “Illusion of Explanatory Depth“. O que esse conceito quer dizer é basicamente o seguinte: as pessoas geralmente tendem a “achar” que sabem como certas coisas funcionam, mas simplesmente não conseguem “explicar” esse funcionamento quando pedimos uma explicação. Por exemplo, muita gente diz que sabe como um relógio funciona. No entanto, essas mesmas pessoas não conseguem explicar, de fato, o funcionamento de um relógio.

Tiririca parece “achar” que seu jeito engraçado e descontraído (na minha opinião: seu jeito apelativo) é a melhor solução para os problemas que a política brasileira enfrenta hoje. É uma atitude que demonstra uma clara ilusão de que conhece o funcionamento da complexa rede que caracteriza os problemas que afetam o nosso país. O mesmo, na minha opinião, acontece com as pessoas que votaram nele. Mesmo aqueles que votaram para “protestar”. De novo, essa atitude demonstra um conhecimento ilusório sobre o funcionamento do sistema político e da democracia no Brasil.

Mas e o por quê dessa segurança e confiança? Por que Tiririca e os mais de 1 milhão de eleitores que votaram nele não percebem (reconhecem) a própria ignorância e falta de conhecimento? A Psicologia Cognitiva também oferece uma possível explicação para esse fato. Em 1999, Justin Kruger e David Dunning, ambos da Universidade de Cornell nos Estados Unidos, publicaram um estudo interessante sobre como pessoas que apresentam dificuldade em reconhecer a própria ignorância apresentam também um alto grau de confiança nelas mesmas. Basicamente, os pesquisadores investigaram o desempenho de várias pessoas em várias áreas distintas (humor, raciocínio lógico, habilidade gramatical, etc.). Eles também pediram às pessoas que dessem uma estimativa de como eles achavam que se sairiam nas tarefas. Em outras palavras, é como se eu pedisse a você que fizesse um teste de português e, assim que você terminasse o teste, eu te perguntasse: “como acha que se saiu no teste?”

Como resultado, os pesquisadores encontraram que as pessoas que tiveram o pior desempenho nas tarefas propostas foram as que acharam que se sairam melhor. E mais interessante ainda: essas pessoas apresentaram uma grande dificuldade em apontar os itens e as áreas que elas achavam que teriam mais dificuldade, ou seja, essas pessoas simplesmente não sabiam reconhecer as próprias limitações e falta de conhecimento.

O que os autores sugerem (e eu concordo) é que o conhecimento necessário para ter um bom desempenho em alguma tarefa é o mesmo conhecimento necessário para julgar a própria competência. Falando de uma maneira mais simplificada: se você não entende o suficiente sobre alguma coisa, é difícil para você avaliar como seria seu desempenho nessa coisa. Se não entende nada de política, é difícil avaliar objetivamente como seria seu desempenho na política.

Geralmente utilizamos a confiança e segurança que alguém nos passa como uma medida precisa da competência que essa pessoa tem. O que o estudo sugere, no entanto, é que confiança e segurança podem não ser boas medidas para competência (engraçado como isso se aplica também à campanha política do candidato à presidência José Serra. Mas isso é uma outra história).

Apesar da tentativa de compreender, sob um ponto de vista cognitivo, o por quê do sucesso de Tiririca nas eleições de 2010, o fato de que um palhaço, analfabeto e apelativo consegue ocupar um cargo tão importante no sistema político brasileiro ainda é assustador. A democracia brasileira se demonstra mais uma vez vazia e muito pouco funcional. A eleição de Tiririca para Deputado Federal, depois de uma campanha altamente desrespeitosa, só me faz pensar em uma coisa: Macaco Tião não foi eleito prefeito do Rio de Janeiro em 1988, não por que era um chimpanze, mas sim por que não sabia contar piada.

Referência:

Kruger J, & Dunning D (1999). Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of personality and social psychology, 77 (6), 1121-34 PMID: 10626367

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3 respostas para Send in the Clowns: O Triunfo da Ignorância no Brasil.

  1. Paulo Silveira disse:

    >esse cenário não é apenas brasileiros. temos palhaços (não no sentido pejorativo) eleitos na França e nos Estados Unidos também. Assim como também temos jogadores de futebol e atores de filmes em ambos os outros países.

    • Michele de Assis disse:

      A questão não é ser um palhaço, jogador de futebol, ator ou etc. A questão é que no caso do Tiririca ele simplesmente usou do seu humor de uma forma apelativa para consegui um cargo que não fazia nem ideia de como funcionava. Você pode ser político e palhaço, um não exclui o outro na minha opinião, mas que saiba separar as duas áreas, por que elas definitivamente não conversam entre si!

  2. VIRGINIA disse:

    >Gostei do texto! Não havia pensando na eleição triunfante do Tiririca sob a perspectiva cognitiva. Mas também nos ajuda a entender essa situação o que os cientistas políticos chamam de atitude anti-política: a população vota em alguém que não se encaixa nos moldes do candidato tradicional (que se veste bem, que fala bem e que promete "mundos e fundos") como uma forma de protestar e mostrar sua indignação com o cenário político atual. É uma pena que a população acredite que eleger um palhaço para deputado federal seja uma atitude de protesto bem-sucedida! Por que, sem sombra de dúvidas, pior fica!

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