Vida boa é vida de cachorro. Será?!

ResearchBlogging.orgTenho que confessar: por várias vezes na minha vida (várias), eu já quis ser um cachorro. Sempre achei que vida de cachorro é que vida boa. Você já viu algum cachorro preocupado com a hora de chegar no trabalho? Já viu cachorro “deprimido” porque o cachorro vizinho tem uma coleira mais bacana que a dele? Por um acaso você já viu um cachorro chorando e triste porque não consegue se relacionar bem com outros cachorros? Tudo isso sempre me levou a pensar que vida de cachorro que é vida boa.

Mas a verdade é que cachorros têm estado sob “domesticação” humana por, pelo menos 100.000 anos. Em outras palavras, cachorros têm participado de interações com seres humanos durante muito tempo e, consequentemente, é inevitável que não tenham adquirido ao longo desses anos alguma habilidade cognitiva própria do ser humano. Pior pra eles.

Uma das principais características do ser humano é a capacidade de perceber estados atencionais de outras pessoas. Basicamente, desde de muito novinhos (+/- a partir do 6 mês de vida) nós já conseguimos saber que quando a mamãe e o papai apontam para algum objeto, eles querem que nossa atenção seja transferida para o objeto. Sabemos também que às vezes não é preciso nem apontar: apenas o olhar e/ou um movimento com a cabeça são capazes de direcionar a nossa atenção.

Durante muito tempo, psicólogos comparativos (aqueles que comparam a cognição humana com a cognição de outros animais) acharam que essa capacidade de perceber estados atencionais era apenas do ser humano. No entanto, algumas pesquisas com chimpanzés têm mostrado que, ainda de maneira incipiente, outras espécies também possuem essa capacidade cognitiva. Principalmente as espécies que têm mais convívio com os seres humanos.

Em 2003, Josep Call, Juliane Bräuer, Juliane Kaminski e Mike Tomasello (todos do Instituto Max Planck de Antrologia Evolucionista) realizaram um estudo para investigar se cães também possuem essa habilidade cognitiva de perceber estados atencionais dos seres humanos. O procedimento é bem simples: o pesquisador coloca um pedaço de comida na frente do cachorro e o “proibe” de pegar essa comida. São várias condições experimentais para verificar o comportamento do cachorro: (1) a pessoa sai da sala, (2) a pessoa fica na sala, com os olhos abertos e olhando para o cachorro, (3) a pessoa fica na sala, mas com os olhos fechados, (5) a pessoa fica na sala mas virada para a parede e (6) a pessoa fica na sala, com os olhos abertos, mas fazendo alguma outra coisa e não prestando atenção no cachorro.

Bom, acho que já conseguem prever o resultado, né? Os cachorros comeram a comida mais frequentemente em todas as condições que envolviam “falta de acesso visual” por parte do ser humano. E os cachorros mais “atrevidos” comeram a comida mesmo com o humano olhando, mas o fizeram de maneira indireta (passeavam perto da comida antes de dar o bote). Os resultados sugerem que até mesmo os cachorros já estão sendo mais sensíveis às características cognitivas humana.

Os resultados sugerem também que ter vida de cachorro nem deve ser tão bom assim. A partir de hoje, acho que vou querer ser planta!

Referência:
Call, J., Bräuer, J., Kaminski, J., & Tomasello, M. (2003). Domestic dogs (Canis familiaris) are sensitive to the attentional state of humans. Journal of Comparative Psychology, 117 (3), 257-263 DOI: 10.1037/0735-7036.117.3.257

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9 respostas para Vida boa é vida de cachorro. Será?!

  1. none disse:

    >100.000 ou 10.000?[]s,Roberto Takata

  2. Andre L Souza disse:

    >100.000A referência que utilizei foi Vilà et al., 1997 (Multiple and ancient origins of the domestic dog). Posso verificar, no entanto, se essa informação não estiver correta! :-)Obrigado pela visita ao blog!

  3. Anonymous disse:

    >Adorei o texto: Vida boa é vida de cachorro, mas nao acredito que ele viva melhor que os humanos, do ponto de vista geral. O que eu envidencio nas ruas, lugares públicos, e mesmo em algumas residências, é o descaso e o abandono. Eu jamais, trocaria a minha condiçao humana pela de um cachorro, nao que ele seja insignificante ou inferior ao homem. A nossa capacidade de interagir com outros seres e de poder mudar nossos hábitos e valores e crenças, é que nos difere dos outros animais. Precisamos é de sabedoria e de conviver harmonicamente com o mundo que nos cerca, respeitando as diferenças e, acima de tudo, preservar o que existe de mais importante, a vida, seja ela humana ou não.Márcia estudante de letras – PUCMinas

  4. Anonymous disse:

    >Gostei muito do texto, André, parabéns! Em particular gostei da ênfase que você deu sobre à capacidade do animal domesticado, no caso o cachorro,de adquirir habilidade cognitiva a partir da convivência com o homem. Eu, como estudante do assunto, muitas vezes me perguntei como o meu cachorrinho poderia compreender tão bem algumas expressões e palavras. E acredito que animais em constante convivência com o homem possam adquirir mesmo habilidades cognitivas. Mas, como Márcia disse acima, eu também não trocaria minha condição humana pela de um cachorro, afinal a capacidade para interagir e nos construir como sujeito através da linguagem , para mim, é o bem mais valioso do homem e os cachorros ainda não possuem esse previlégio.Abraços, Clarissa Chamon estudante de letras- PUC Minas.

  5. Anonymous disse:

    >deveríamos aprender com os animais, estes hábitos, não deprimir, não invejar e coisas do tipo. Mas, quanto a domesticação, aí não, neste caso o melhor é este processo que temos de socialização em nossa cultura. Quanto a ser planta, parece ser legal, mas só viveriamos se fossemos bem cuidados, não poderíamos fazer nada por nós mesmos. Bom mesmo é sermos humanos e através de nossas experiências nos constituírmos e construir nossa subjetividade. Abraços, Renan Guirá estudante de Letras – PUC Minas.

  6. Rita Gab disse:

    >É incrível como tudo que envolve o ser humano é de tamanha complexidade. Quanto mais estudamos a respeito da nossa espécie, mais surpresos ficamos e mais perguntas aparecem. Quanto mais se descobre, mais tem o que se descobrir. De onde será que vem essa ilimitada capacidade do ser humano de, através das interações, interferir e modificar tudo que o cerca?E você ainda que ser planata… (rs)

  7. Anonymous disse:

    >Realmente, outras espécies também possuem capacidade cognitiva, mas é importante lembrar que é algo absolutamente diferente da cognição humana, que não pode ser "passada" a outras espécies.Crisluana Rocha – PUC Minas – Letras

  8. Anonymous disse:

    >Creio que melhor é ser humano, interagir de igual pra igual e poder partilhar dos mesmos níveis e mesmas condições de interação social.Acredito na boa relação que há entre o homem e o cachorro, mas creio que independente de quão grande seja essa relação ela é limitada, um cachorro sempre será um cachorro, não importa o quanto for domesticado e “humanizado” ele não evoluirá ao ponto da mente humana e nem o homem se rebaixará a uma vida “animalesca”. Mariana Andrade

  9. Ligia disse:

    >Através da leitura do texto nesta seção inserto, deparamo-nos com o fato de que ele nos incita, conclama e instiga à reflexão, questionamento e análise crítica de afirmações, as quais, de certo modo, terminaram por se cristalizar [ou se popularizar] no senso comum. Logo ao título, traz-se à baila o anúncio da desmistificação/ desconstrução da idéia de ¹uma sentença que, por sua vez, encontra-se contextualmente vinculada à negação da condição humana. Assim, considerando-se as declarações acima expressas, vale ressaltarmos que o homem se constitui num ser de ²cultura, através da qual não consegue se afirmar como sujeito social e historicamente. Portanto, a proclamação de assertivas como ³a exemplificada pelo texto, no eixo cultural em que nos situamos, talvez denote a existência de um ser humano insatisfeito com os valores de seu tempo, e vitimado por uma crise identitária, posto que sequer obtém êxito ao projetar-se perante a alteridade lhe oferecida por uma sociedade com a qual definitiva e verdadeiramente não se identifica. Essa realidade o faz enfrentar dificuldades ao construir-lhe a subjetividade no meio em que se encontra e no lugar social que ocupa, apresentando, por produto final, o desejo de renúncia à natureza humana. Embora não hesitemos em abandoná-la quando o mundo parece recusar-se a conspirar em nosso favor, não temos a consciência de que, ao proceder de tal modo, estaremos abdicando de deveres a serem cumpridos e, consequentemente, “abrindo mão” de direitos os quais nos pertencem, posto que estes apenas se consolidam por meio daqueles. Em diversos momentos, a vida não lhe revela a face da forma que gostaríamos e nem sempre haverá de ser conforme a queremos, pois representa somente uma parte do imenso universo com o qual interagimos. Entretanto, isso não significa que ela consista única, restrita e exclusivamente de obrigações, sofrimento ou atribulações. Pode nos ofertar privilégios se por ela soubermos lutar, assumindo a condição humana nos designada, ao invés de trocá-la pela natureza de uma planta ou animal. O homem precisa aprender a se dar a iniciativa e a prerrogativa de enfrentar desafios, visto que, ele almeje ou não, a vida existe para ser vivida. Somos humanos e de nada nos servirá nos tornarmos refugiados de nossa própria condição; descriminá-la pressupõe o desperdício de uma poderosa arma que possuímos: a cognição, conceituada por “ato ou processo de conhecer, através de capacidades, habilidades e operações mentais”. Por mais que haja semelhanças cognitivas entre nós e outros animais, atrevo-me a afirmar que eles nunca terão o mesmo nível/ perfil de cognição que o nosso. O homem deve se aceitar e valorizar-se, além de propor a si mesmo mudanças capazes de renová-lo, conduzi-lo a outros paradigmas. ¹/ ³ “Vida boa é vida de cachorro”.² Segundo o dicionário Aurélio, “o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade”.Ligia Côrtes

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