Quanto mais não sei, mais eu gosto!

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“Eu gosto de quem eu sei que gosta de mim”. Essa foi uma das frases que escutei ontem, durante uma conversa com uma amiga que tentava me explicar o divórcio recente do marido. Essa frase retrata muito bem um conceito muito estudado em psicologia, conhecido como princípio da reciprocidade. Gostamos de quem gosta da gente. Somo gentis com quem é gentil com a gente. Somos carinhosos com quem é carinhoso com a gente. Além disso, saber que uma outra pessoa gosta de você cria sentimentos positivos e uma percepção “boa” do caráter e intenções da outra pessoa.

Agora, o que acontece quando não temos muita certeza se uma outra pessoa gosta da gente? Imagine uma situação em que Ana não tem muita certeza se Moisés gosta dela. Será que Ana vai então gostar do Moisés mesmo assim? Segundo o princípio da reciprocidade, não. A Ana vai gostar “menos” do Moisés, uma vez que ela não tem muita certeza se ele gosta ou não dela. Mas quem disse que nossa cognição é simples assim?

Na verdade, existem várias pesquisas que mostram que “incerteza” com relação a alguma coisa, pessoa ou acontecimento aumenta nosso sentimento — positivo ou não — com relação à essa coisa, pessoa ou acontecimento. Basicamente, isso acontece pois quando temos certeza de alguma coisa, começamos a pensar (ou racionalizar) nos porquês. Isso faz com que o sentimento em si, fiquei em segundo plano. Em outras palavras: imagine que você tem certeza de alguma coisa boa que irá acontecer. Uma vez que seu sistema cognitivo não precisa “se ocupar” em pensar sobre “o que” vai acontecer, ele começa a pensar no “porquê” desse acontecimento, de maneira que o lado “positivo” do acontecimento fica em segundo plano. Mas, quando você não tem certeza sobre algum acontecimento, seu sistema cognitivo se engaja em procurar saber “o que” vai acontecer e focaliza no sentimento relacionado ao acontecimento.

Sendo assim, será que não ter certeza se alguém gosta de você não aumentaria o seu sentimento em relação à essa pessoa? Essa pergunta foi investigada por Erin Whitchurch, Timothy Wilson (University of Virginia) e Daniel Gilbert (Universidade de Harvard), em um estudo bem interessante, com um design de pesquisa bem criativo.

Todas as participantes da pesquisa (apenas mulheres participaram) tinham um perfil ativo na rede social Facebook. Primeiramente, os pesquisadores disseram a elas que um grupo de rapazes viram o perfil delas no Facebook e deram uma nota, dizendo se, com base no que viram, eles achavam que dariam certo com elas caso tivessem a oportunidade de conhecê-las pessoalmente. Após dizer isso, os pesquisadores disseram a elas que elas veriam o perfil de 4 desses rapazes que viram o perfil delas. Para um grupo de meninas, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil dos 4 rapazes que deram as maiores notas pra elas. Para um outro grupo, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil de 4 rapazes que deram uma nota mediana para elas. E finalmente, para um outro grupo, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil de 4 rapazes que não tinham muita certeza se gostaram ou não delas. Em todos os grupos, elas tinham que dizer o grau de atração delas pelos rapazes.

Os resultados foram bem interessantes. Eles mostraram que as mulheres se sentiram mais atraídas pelos homens disseram não ter muita certeza se gostaram ou não delas. Esse resultado confirma a hipótese de que incerteza aumenta o sentimento com relação à pessoa de que se tem a incerteza.

Mas será por que isso acontece? Uma explicação é que, em momentos de incerteza, o seu sistema cognitivo se engaja num processo de tentar “entender” a situação. E se engaja de tal forma que a pessoa literalmente não sai da sua cabeça. E como o nosso sistema cognitivo muitas vezes não sabe discernir sentimentos, ele acaba confundindo a presença permanente dessa pessoa em seu sistema como indício de que ela é importante para você e que você, na verdade, gosta muito dela. E o mais interessante é que, tentar “evitar” certos pensamentos pode ser pior e ter o efeito contrário — veja aqui porquê).

O princípio da reciprocidade ainda sim é válido e devemos, sempre que possível, buscar gostar e conviver com pessoas que gostam da gente. O bem que isso faz vai além do simples bem-estar emocional.

Referência:

Whitchurch, E., Wilson, T., & Gilbert, D. (2010). “He Loves Me, He Loves Me Not . . . “: Uncertainty Can Increase Romantic Attraction Psychological Science DOI: 10.1177/0956797610393745

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