Adoce a minha boca que eu te perdoo!

ResearchBlogging.orgOntem escutei a história de uma mulher (28 anos de idade e “casada”) que está insatisfeita com o marido dela. Motivo: ele faz sexo com ela um dia sim e seis não. E, segundo ela, quando ele faz é ruim. A solução que ela encontrou para isso foi: “se aventurar” com outros homens. Conheceu um rapaz pela internet, encontrou-se com ele e fizeram muito sexo (uma tarde inteira). Após isso, ela se encontrou com um amigo do rapaz da internet e, aparentemente, também fizeram muito sexo. Assim que chegou em casa, fez sexo com o marido (ela estava com sorte: era o dia “sim” do marido).

O que você sente quando escuta uma história como essa? Qual é o sentimento que logo vem à sua cabeça? Algumas pessoas sentem “nojo” e classificam tal atitude como altamente imoral e errada. Outras pessoas nem vêem tanto problema assim. Chegam a julgar que viver assim é “uma delícia” e não classificam tal atitude como imoral ou completamente errada. Mas será por que?

Já no século XVIII, o filósofo Hume sugeria que nossos julgamentos de moralidade (certo e errado) estão diretamente ligados às nossas emoções e sensações. Em outras palavras, julgamos se algo é certo ou errado (moral ou imoral) com base em como esse “algo” nos faz sentir. Várias pesquisas na área de Psicologia Social tem mostrado que essa ligação é mesmo plausível. Em 2008, por exemplo, um estudo dividiu um grupo de pessoas em dois grupos menores. O primeiro grupo ficou em uma sala em que os pesquisadores coloram um odor de “peido”. O segundo grupo foi para uma sala sem odor algum (ou um cheiro neutro). Essas pessoas tinham que julgar o grau de “imoralidade” de um conjunto de “ações transgressoras” (tipo: fazer sexo com uma prima). O resultado foi que o grupo que estava na sala com cheiro e peido julgou as ações como mais imorais do que o grupo que estava na outra sala. Em outras palavras, o estudo sugere que o sentimento de “nojo” causado pelo cheiro de peido foi suficiente para influenciar no julgamento de certo ou errado dos participantes.

Mas será que somente a sensação de nojo que influencia julgamentos de moralidade? Lembro de uma vez (eu devia ter 19 anos de idade) que eu estava na sala e escutei minha mãe na cozinha dizer para o meu irmão: “nem mexe com o André, pois hoje ele está super azedo”. Provavelmente, o que minha mãe quis dizer foi que, devido à minha “azedura”,  eu não seria uma fonte de opinião à ser considerada. Será que a sensação física (o gosto, mesmo) de azedo é suficiente para influenciar julgamentos de moralidade?

Foi exatamente essa a pergunta que Kendall Eskine, Natalie Kacinik e Jesse Prinz, da CUNY, investigaram e publicaram no período Psychological Science de Março/2011. O estudo foi bem simples. Eles pediram à um grupo de participantes que julgassem o grau de imoralidade de uma série de ações (dois primos que mantem relações sexuais constantes, um homem que comeu o próprio cachorro morto, um deputado que aceita propina, um advogado que busca clientes em hospitais, uma pessoa que rouba no supermercado e, finalmente, um aluno que rouba livros na biblioteca da universidade).

No entanto, antes de julgarem as ações, um grupo de participantes bebeu um copo de suco docinho, um outro grupo bebeu um copo de suco azedo e um terceiro grupo bebeu um copo com água. A idéia era que os participantes que beberam o copo de suco azedo julgaria as ações como mais graves, erradas e imorais do que os participantes que beberam água ou o suco docinho.

E esse foi exatamente o padrão de resultados que eles encontraram. Houve um efeito significativo do tipo de bebida no julgamento de imoralidade das ações descritas acima. Os pesquisadores ainda incluíram um outro estudo (do qual não vou falar aqui) em que eles mostraram que esse efeito é mais forte para pessoas conservadoras do que para pessoas liberais.

O estudo é mais um que corrobora com a idéia de que o nosso sistema sensório-motor influencia de maneira significativa o nosso processamento cognitivo de alto nível — idéia defendida pela teoria da cognição coporificada (leia a postagem anterior).

De todas as possíveis implicações e conclusões que podemos tirar desse estudo, eu destaco duas:

1) devemos ficar mais atentos aos deputados e políticos que estão constantemente “adoçando” nosso paladar. Nas próximas eleições, chupe uma laranja bem azeda ao assistir à propaganda eleitoral gratuita.

2) a mulher da história que contei no início dessa postagem deve fazer uma “senhora” torta de morangos!!!

Referência:
Eskine, K., Kacinik, N., & Prinz, J. (2011). A Bad Taste in the Mouth: Gustatory Disgust Influences Moral Judgment Psychological Science DOI: 10.1177/0956797611398497

Esta entrada foi publicada em Psicologia Cognitiva. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 respostas para Adoce a minha boca que eu te perdoo!

  1. Rafael disse:

    >Bem interessante, vou aplicar este conhecimento para quando for conversar com a minha orientadora! Agora vou lembrar sempre algum doce!Adicionei seu blog aos meus feeds/RS!

  2. Edilson Mafra disse:

    Desculpe, mas esse conceito de moral e imoral está errado e da embasamento igual ao resto do texto. Moral diz respeito a um acordo da maioria (moral) com o objetivo de manter viva a sociedade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.