Luto nas Ciências Cognitivas

Ainda estudante de graduação na UFMG, eu sempre gostei de me aventurar pelas aulas da pós-graduação em Estudos Linguísticos. Uma das primeiras disciplinas que participei como ouvinte foi uma disciplina chamada “Aspectos Cognitivos e Culturais da Linguagem”. A disciplina era basicamente uma introdução ao estudo da linguagem humana, levando-se em consideração os aspectos gerais da cognição humana. Na época, como diz minha mãe, eu não sabia “nem a hora que eu estava com fome”. Mas mesmo assim, a disciplina serviu pra mim como uma introdução às Ciências Cognitivas.

Lembro-me de uma aula em que discutimos o primeiro capítulo do livro Rethinking Innateness: a connectionist perspective on development. A aula era sobre conexionismo: esse conjunto de abordagens que, colocando de uma maneira bem simples, basicamente caracteriza a atividade mental e comportamental do ser humano como um processo emergente e que surge da interação de uma rede de unidades mais simples. É uma linha de pesquisa complexa, de maneira que, daquela aula, eu não entendi nada.

Mas sou curioso. Quis saber de onde veio essa idéia e, principalmente, quem começou com essa idéia. De cara, descobri que essa ‘coisa’ chamada conexionismo revolucionou a ciência cognitiva. Fiquei sabendo também que os principais personagens dessa revolução foram os professores David Rumelhart e James McClelland.

Quero falar de David Rumelhart. Ele foi estudante de psicologia e matemática na University of South Dakota (formado em 1963), fez doutorado em Psicologia Matemática em Stanford e, assim que terminou os estudos de doutoramento, em 1967, conseguiu emprego como professor em um dos maiores centros de Ciência Cognitiva do mundo — Universidade da Califórnia em San Diego. Mais tarde, voltou para Stanford como professor.

David (juntamente com o professor James McClelland) liderou uma equipe de pesquisadores que de 1970 a 1980 criaramvários modelos computacionais que simulavam uma variedade de comportamentos propriamentehumanos, tais como percepção, compreensão da linguagem, memória, etc. Juntamente com James McClelland escreveu o livro Parallel Distributed Processing:Explorations in the Microstructure of Cognition. Esse livro é a apresentação do modelo conexionista ao público acadêmico em geral. É o livro que estabelece o caráter inter-disciplinar do modelo conexionista. Um modelo que faz parte das pesquisas em psicologia, linguística, robótica, inteligência artificial, dentre outras áreas.

Davidfoi membro da Academia Nacional de Ciências e recebeu vários prêmios pela contribuição que fez não só às CiênciasCognitivas mas também às ciências em geral.

Davidparou de lecionar em 1998 após contrair uma doença neurológica grave. Em 2000, a fundação Glushko-Samuelson fundou o Prêmio Rumelhart: um prêmio no valor de 100.000 dólares concedido a cientistas que contribuemsignificativamente para o avanço dos estudos sobre a cognição humana. Em 2011, o vencedor do prêmio foi o professor e pesquisador Judea Pearl, que contribuiu significativamente para o avanço dos estudos que aplicam modelos probabilísticos para explicar comportamentos inteligentes.

A notícia triste dessa postagem é que David Rumelhart faleceu no último dia 13 de março emMichigan nos Estados Unidos. O mundo científico perdeu um dos pioneiros no campo da neurociência cognitiva econexionismo. Além da contribuição científica, espero que fique como parte do legado de David para os cientistas de hoje, a imagem de um fazer científico com competência e seriedade. E mesmo não entendendo sobre conexionismo quando eu era aluno de graduação, eu sabia que David Rumelhart era um modelo de pesquisador que eu deveria seguir.

Referência:

Rumelhart, D., Hinton, G., & Williams, R. (1986). Learning representations by back-propagating errors Nature, 323 (6088), 533-536 DOI: 10.1038/323533a0

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