Vai votar em quem? Como nossa mente funciona em época de eleição

BrazilElectionA batalha pela presidência da República do Brasil tem sido acirrada e marcada por debates fervorosos e, em certos momentos, até engraçados. Humorismo à parte, o momento é delicado e deve ser encarado com seriedade. Mas como será que funciona a nossa cabeça em época de eleição? Como decidimos em quem votar? Como escolhemos os nossos candidatos? Entender um pouco da natureza da cognição humana nos ajuda a compreender o que está acontecendo nesse momento político do Brasil.

Nós somos seres racionais, certo? Hmmm médio! Apesar de sempre termos a impressão de que agimos de maneira racional e cautelosa, vários estudos mostram que não é bem assim. Na maioria das vezes, as decisões que tomamos não são decisões racionais. Por exemplo, um estudo realizado em 2008 mostrou que apesar de as pessoas sempre reclamarem de filas longas, elas preferem ficar em uma fila que tem mais pessoas a ficar em uma fila que tem pouca gente. Para decidir em que candidato votar, a história não muda. A verdade é que raramente o eleitor faz uma lista dos pros e contras de cada candidato envolvido e toma uma decisão racional com base no candidato que apresenta mais pontos a favor que contra.

Em geral, decidimos em quem vamos votar usando o que chamamos de gut rationality, ou seja, utilizamos uma forma de cognição mais implícita, rápida e pouco racional. Esse tipo de “pensamento” é geralmente associativo e mais susceptível a erros. Por exemplo, se eu te disser que uma bala e um pirulito custam juntos R$ 1,10 e que o pirulito sozinho custa R$ 1,00 a mais que a bala, e depois te perguntar quanto custa somente a bala, intuitivamente você vai responder R$ 0,10, apesar de ser essa uma resposta incorreta. O sistema que processa essa informação de forma mais intuitiva nos conduz a erros desse tipo. E esse é o mesmo sistema que alguns de nós utilizamos para decidir qual candidato é melhor para a presidência do Brasil.

As nossas emoções também têm papel muito proeminente nas decisões políticas que fazemos. Alguns estudos nos Estados Unidos, por exemplo, mostraram que um eleitor — que tem o direito de escolher se vai votar ou não — geralmente escolhe participar da eleição apenas para votar no oponente do candidato que ele odeia. Em outras palavras, ele não leva muito em consideração as propostas do candidato que ele escolheu, mas leva em consideração o fato de que o candidato que ele escolheu é oponente do outro candidato que ele odeia. O medo também está associado às decisões que tomamos. Alguns estudos sugerem que pessoas mais medrosas (não só com relação à política, mas medrosas em geral), tendem a ser mais conservadoras e apoiar candidatos que irão manter a sua situação particular a mesma. A propósito, o pensamento irracional e intuitivo é marcado por análises de situações específicas e não análises da situação global. Assim, o pensamento intuitivo nos leva a decidir que o candidato A é ruim só por que ele não aumentou o meu salário, mesmo que a política desse candidato seja globalmente mais benéfica que a do outro.

Lembra do exemplo de que as pessoas preferem filas com mais pessoas do que filas com menos pessoas? A ideia por trás desse comportamento é o fato de que as pessoas preferem se sentir parte de um grupo a não fazer parte de um grupo. É o que chamamos em inglês de group bias. Assim, muita gente decide em quem votar pelo simples fato de que votando no candidato A ela vai se sentir parte daquele grupo de pessoas que votam no candidato A. E esse sentimento de pertencimento é alimentado pela percepção de que somos mais parecidos com os membros daquele grupo. Assim, se você é professor e professores em geral votam no candidato A, seu sistema intuitivo vai te levar a perceber o candidato A como a melhor escolha (mesmo que as propostas dele não sejam as que você avalia como as melhores).

E por último, um ponto que tem sido muito pervasivo nos debates políticos entre os candidatos e entre os adeptos de cada um: o papel das informações negativas. Nosso sistema cognitivo processa informações negativas de maneira muito diferente de como ele processa informações positivas. Até vale ressaltar que esses dois tipos de informação são processados por áreas distintas no nosso cérebro. Informações negativas tendem a durar mais tempo na memória e requerem um esforço cognitivo maior para serem processadas. Por esse motivo, baseamos nossas decisões muito mais nas informações negativas de cada candidato do que nas informações positivas que temos de cada um deles. E isso os candidatos têm feito muito bem: expor o lado podre de cada um.

O que deve ficar claro com isso tudo é que nós não utilizamos o melhor aspecto da nossa cognição para decidir em quem votar. Estamos o tempo todo sendo influenciados por viéses sociais, emocionais e (ir)racionais. O candidato que melhor explora esses aspectos da nossa cognição acaba vencendo a batalha. Precisamos ficar atentos, no entanto, a esses viéses e, sempre que possível, procurar contorná-los buscando informações e fatos mais precisos e confiáveis para evitar erros de intuição na hora de decidir quem vai ser nosso próximo presidente.

O voto deve ser consciente. E ter ciência de como nossa mente funciona certamente ajuda nessa tarefa. My two cents! 🙂

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11 respostas para Vai votar em quem? Como nossa mente funciona em época de eleição

  1. Kursch disse:

    Vamos ao que interessa: QUANTO CUSTA A BALA?!!?!?

    • R$ 0,05 centavos (pirulito R$ 1,05 + bala R$ 0,05 = 1,10 total) 🙂

      • Anônimo disse:

        A bala pode custar 10 centavos e o pirulito 1,00 e todas as condições são satisfeitas: o total é 1,10 e o pirulito custa 1 a mais do que a bala.

        Há mais de uma resposta à pergunta quanto custa a bala.

        Ou seja, o texto parece incorreto.

        • Hmmm será que o texto está confuso? Se a bala custa R$0,10 e o pirulito R$1,00 A MAIS que a bala (ou seja R$ 1,10), a bala e o pirulito juntos não podem custar R$1,10. A idéia é: qualquer que seja o preço da bala, some a esse preço R$1,00 e o resultado será o preço do pirulito sozinho. Assim, para satisfazer a condição de o total ser R$1,10, a bala deve custar R$0,05. Basicamente temos x+x+1=1,10, onde x é o preço da bala. Essa equação vai resultar em um x=0.05. O texto não dá essa ideia?

  2. José Luís disse:

    Ótimo texto, André! E muito oportuno também. Penso que estar consciente da forma como raciocinamos, é parte integrante de “votar conscientemente”.

    A propósito, apesar de não informar o resultado diretamente, o texto passou a ideia do problema da bala e do pirulito corretamente. Penso que ou o comentário anterior foi feito por uma pessoa pouco afeita à matemática, ou que procurava uma maneira (qualquer) para desacreditar o texto, o que condiz com o anonimato (um troll?)…

  3. Jorge Oliveira disse:

    O texto é bem realista mas tem MUITO POUCO DE CIÊNCIA POLÍTICA ! Se todos tivessem compreensão de como “funciona” a sociedade e reconhessessem a luta de classes e suas demandas de ação pela maioria. O artigo está focando aspectos emocionais mal trabalhados pela insuficiência de educação em nossos tempos. Também a minoria “esclarecida” mas egoísta, e sua mídia dominante, fortalecem o status quo ao incentivar e propor sempre a “livre” iniciativa (para quem pode) e a competitividade, tratando a solidariedade como benesse.

    • Jorge Oliveira disse:

      O texto é bem realista mas tem MUITO POUCO DE CIÊNCIA POLÍTICA ! Se todos tivessem compreensão de como “funciona” a sociedade e reconhessessem a luta de classes e suas demandas de ação pela maioria, seria possível optar pelos programas e práticas políticas mais justas. O artigo está focando aspectos emocionais mal trabalhados pela insuficiência de educação em nossos tempos. Também a minoria “esclarecida” mas egoísta, e sua mídia dominante, fortalecem o status quo ao incentivar e propor sempre a “livre” iniciativa (para quem pode) e a competitividade, tratando a solidariedade como benesse.

      • Oi Jorge,

        Obrigado pelo comentário! O texto tem pouco de ciência política de fato, o que por um lado é bom por que nunca pretendeu ser um. O texto foca em aspectos cognitivos e emocionais que permeiam TODA e qualquer tomada de decisão, e a única coisa que tentei fazer foi contextualizar esses aspectos em um tipo específico de tomada de decisão que é a escolha de um chefe de estado.

        Obviamente vários outros fatores estão em jogo, mas eu resolvi focar em um deles: a nossa cognição. E esse aspecto não é necessariamente mal-trabalhado na educação. Muitos desses viéses que menciono são parte integrante da nossa cognição — por motivos evolucionistas, talvez — mas não necessariamente algo que faça parte da forma como somos educados nas escolas. Isso seria um assunto para uma outra postagem que certamente esclareceria ainda mais esse complexo ato que é ser cidadão e votar consciente.

        Mais uma vez, obrigado pela leitura e pelo comentário 🙂

  4. Dany disse:

    Vendo a discussão “preço pirulito” lembrei das aulas de heuristica de filosofia do ens. médio rsrsrs

    Bem… Eu certamente não fiz parte das pesquisas pois “odeio filas longas” hehehe
    Então… Vejo muitas pessoas fazendo uma listinha de prós e contras mas ja enviesadas pra um dos lados, e ainda que os contras prevalessam só levam em consideração o que lhes convém… Numa pseudo ideia de que estará votando consciente.

  5. Dany disse:

    Só esqueci de acrescentar que “possivelmente” faço parte dessa turma ” pseudoesclarecida” vivendo no mundo dos quem.

  6. Rodrigues disse:

    Há pesquisas que mostram que as pessoas votam em candidatos mais bonitos e que o local onde a urna está colocada influencia o voto (no caso de uma eleicão para diretor de escola, por exemplo). Então, essas limitações humanas, fazem que as eleições se transformem num circo (bem dispendioso).

    O ideal seria que os candidatos colocados no pleito já tivessem passado por um filtro (lei da ficha limpa e lei de concurso público para cargos políticos), já que a decisão nas urnas provavelmente será irracional.

    Vendo os debates, me lembrei daquela lista (baseada em escritos do Schopenhauer) de formas de vencer um debate sem ter razão. Os candidatos parecem usar várias daquelas estratégias.

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