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A atual geração de jovens, formada principalmente pelos nascidos nas décadas de 1980 e 1990 vai ter um papel fundamental e importantíssimo no futuro e na História da Humanidade. Alguém poderia dizer que toda geração jovem pensa em mudar o mundo. Mas, no caso da atual geração, se isso não acontecer, a Humanidade como um todo correrá sérios riscos. Eis por que ela devia ser chamada de Geração Noé.
Não é apenas pela mudança climática. A Humanidade passa por um período crítico que vem se acumulando já há alguns séculos, desde o surgimento da industrialização e do pensamento racionalista-materialista. Ocorre que passamos milênios seguindo basicamente um modelo de sociedade patriarcal, agrário, nacionalista, provinciano, religioso e moralista.

A partir do século XX, em todo o mundo, esses velhos valores passaram a ser profundamente modificados e questionados. Até agora, porém, ainda não encontramos um modelo social que seja benéfico a todos e ao próprio planeta. Para piorar, diante de tamanha crise de identidade da sociedade humana, nosso crescimento demográfico aumentou ainda mais rapidamente quando deveria diminuir ou se estabilizar.
A importância da atual geração de jovens está no fato de que é ela quem vai definir os novos valores da nova civilização humana global que está emergindo agora, após um processo de globalização que começou com as Grandes Navegações dos séculos XV e XVI. Há justiças e injustiças nessa responsabilidade que enfrentamos.
Nunca houve tantos jovens no planeta Terra; a população nunca teve uma maioria tão grande de jovens. Embora pareça uma geração alienada políticamente – muitos jovens, de fato, o são – o que ocorre é que esta geração não busca o poder apenas pelo poder. Nossa geração tem consciência de que o poder corrompe por que, em todo o mundo, crescemos vendo escândalos políticos e/ou econõmicos causados, acima de tudo, por uma luta feroz – e um tanto primitiva – pelo poder.
Nos últimos séculos, as diversas sociedades humanas abraçaram o materialismo com certa facilidade. Em muitos casos, o mote materialista (“O Homem é o Senhor da natureza”; uma versão semelhante da frase já estava presente no Gênesis. A ideia, portanto, não é tão nova assim.) foi levado longe demais e perdeu-se a noção de que fazemos parte de um todo muito maior e mais poderoso. Deixamos de ser uma humilde espécie animal dotada de alguma racionalidade e fomos inundados por um orgulho ufanista que nos levou à exploração desenfreada de recursos naturais e até humanos.
— “OH, E AGORA, QUEM PODERÁ NOS DEFENDER?”
O lado racionalista da filosofia moderna foi quase esquecido. As pessoas comuns se aproveitam dos bens produzidos pela tecnologia, mas parecem ter preguiça de pensar e de aprender. Quantas pessoas têm um carro ou um computador e não sabem como eles funcionam? Você sabe? Se não sabe, procura saber? Se você não procura aprender, por que não se importa? A ignorância não é uma bênção, como muitos pensam.
O pensamento livre e crítico, base da filosofia moderna, foi duramente reprimido em sociedades autoritárias e mesmo desestimulado em sociedades democráticas. Por que, em qualquer situação, o simples questionamento pode demolir o status quo tão caro aos poderosos de plantão. Felizmente, a atual geração de jovens conta com a liberdade da internet e dos meios de comunicação convergentes para se encontrar, se conhecer e se reconhecer, se organizar e trabalhar em conjunto.
Por outro lado, porém, não deixa de ser injusto que nós tenhamos que corrigir erros que jamais cometemos. Não fomos responsáveis pelas explorações colonialistas e imperialistas; não fomos nós que colocamos mulheres e negros em cativeiro; não fomos nós que inventamos deuses e depois passamos a guerrear por causa deles ou de nossas nações; não fomos nós que exploramos inconsequentemente este planeta acreditando na infinitude de seus recursos ou na milagrosa intervenção divina. Muitos dentre nós não se sentem responsáveis por causa disso tudo.
Entretanto, cabe a esta geração corrigir ou, ao menos, aliviar as sociedades injustas decorrentes das explorações sociais, econômicas e ambientais. Cabe a nós libertar as mulheres e os trabalhadores que ainda estão escravizados e cabe a nós inseri-los na sociedade humana moderna. Cabe a nós tirar países inteiros da miséria e da fome sem deixar de esquecer que nem todos podem ter um padrão de vida tão luxuoso quanto o do “primeiro mundo”. Cabe a nós evitar o desaparecimento catastrófico de ecossistemas inteiros cujo valor pode ser inestimável. Cabe a nós deixar de adorar deuses, nações ou líderes carismáticos e passar a ter uma humilde reverência pela Terra, um profundo respeito pela vida e uma imensa gratidão pelo Universo que nos cerca em todas as direções.
Nossa tarefa será longa e árdua, mas ainda será mais fácil que o mítico trabalho de Noé. Em lugar dele, nós temos um planeta inteiro para dividir com todos os animais e plantas e para formar uma família humana muito mais diversa e promissora. A Terra tem espaço bastante, desde que saibamos administrar sua finitude ao longo deste primeiro século do Terceiro Milênio da Civilização Humana. Estamos saindo da adolescência histórica, mas nunca fomos tão jovens.

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PS: Dedico esse texto ao Mola e à Giu. A ideia e a expressão “Geração Noé” me surgiram durante um bom papo pré-balada com eles.


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