>Cadê a maturidade democrática que estava aqui?

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Esquecendo-se de que a Guerra Fria já acabou e tentando mostrar que há disputa política numa eleição marcada pelo continuísmo, PT e PSDB agem de forma imatura e apelam para o jogo da arapongagem mútua.

Os recentes escândalos de arapongagem que envolvem os dois principais concorrentes à presidência da República mostram como a política brasileira continua atrasada. PT e PSDB travam uma verdadeira Guerra Fria nos bastidores. Mas diante das câmeras dizem que tudo deve ser investigado e que os responsáveis serão punidos. Entretanto, os responsáveis pelos mensalões — cada lado com o seu — jamais foram julgados e muito menos punidos. Marcos Valério, José Dirceu (PT) e Eduardo Azeredo (PSDB), entre outros, continuam livres, leves e soltos, graças ao corporativismo político que domina os bastidores (e que, ironicamente, une os dois partidos antagonistas). Mais de cinco anos se passaram e a desculpa já é velha: os acusados têm amplo direito à defesa e foram simplesmente pré-julgados.
Enquanto em 2002, a eleição de Lula foi louvada como uma demonstração da maturidade política da Nova República, a sucessão do ex-líder metalúrgico aparece como um claro retrocesso político. Tanto Dilma quanto Serra tentam se apresentar como continuadores de políticas sociais que, embora bem sucedidas do ponto de vista quantitativo não resultaram em avanços qualitativos. A situação da educação pública está aí para prová-lo. Nem o PT nem o PSDB têm bons planos para essa área crucial. Ambos insistem em focar no ensino técnico, mas ignoram solenemente os problemas da educação básica. Por quê? Por que investir em ensino básico é projeto de longo prazo. Nem Dilma nem Serra têm maturidade política para assumir tal projeto. Ambos apresentam-se da mesma forma: como administradores bem-sucedidos, não como estadistas com visão de futuro.
E, ainda que nominalmente seja da “oposição”, Serra faz de tudo para convencer que não vai destruir o que deu certo no governo Lula. Com uma campanha tão baixa nos bastidores — e jogando contra a “máquina federal” que o próprio Lula vivia criticando, mas agora usa a seu favor — essa imagem de “Serra Paz e Amor” simplesmente não cola. Os erros absurdos na TV, o “como” e a pseudofavela (menos convincente que as das novelas da Globo) só pioraram a situação. Aí, bateu o desespero no PSDB.
Dilma, por sua vez, não passa de um produto de marketing. Foi escolhida a dedo não por ter qualidades políticas ou mesmo administrativas, mas por ser mulher. Afinal, ela só chegou à Casa Civil após o afastamento de José Dirceu. Desde então, sua imagem de admistradora foi construída tendo em vista as eleições deste ano — com um eleitorado majoritariamente feminino. Exatamente por ser uma candidatura artificial e imposta, o PT ainda não confia em Dilma. Aí, bateu o desespero no PT.
Desesperados, ambos partem para a arapongagem mútua. A esperança é que enquanto tucanos e petistas brincam de gato e rato à moda da Guerra Fria, a população abra os olhos. Não estamos tendo uma eleição democrática; estamos nos encaminhando para um plebiscito branco.
Nada contra a manutenção de um partido no poder por mais de dois ciclos presidenciais. Isso também acontece nos Estados Unidos, onde há ciclos alternados, às vezes com décadas de duração, de Republicanos e Democratas na Casa Branca. O problema está nos métodos usados para manter o Palácio do Planalto: cooptação e chantagem eleitoral através de programas sociais; censura de parte da imprensa e até de humoristas (que só foi suspensa por que já estava passando dos limites e isso poderia afastar parte do eleitorado); e, por fim, espionagem suja.
Se a maturidade democrática brasileira está viva, para quê tudo isso? Se a maturidade está sob ameaça, como parece estar agora, é hora de dar um recado a quem quer ameaçá-la em nome da simples luta do poder pelo poder. Esqueça as forças políticas que ainda não superaram a queda do Muro de Berlim. Está na hora de fazer política de acordo com o século XXI.
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