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Por mais patéticas que tenham sido, as 95 patentes apresentadas ao menos se esforçaram para tentar resolver algum problema de ordem prática (mas que geralmente já tinham soluções mais simples). Uma patente dedicada à confecção simplificada de mapas mais precisos pode parecer algo mais sério e mais útil. Esse seria o caso de Map (profile) of Earth’s continents and methods of manufacturing world maps [Mapa (perfil) dos continentes da Terra e métodos de manufatura de mapas-múndi]. Mas a seriedade e utilidade dessa patente acaba no fim do parágrafo-resumo:

Mapas-múndi com os continentes da Terra são formados a partir do hemisfério continental como corpo principal através da anexação de diversas seções dos hemisférios oceânicos [sic]. Dobrar os hemisférios pela metade repetidamente gera mapas em disco quase-planos de ambos os hemisférios. Outros métodos de produção de mapas-múndi com menos distorções são apresentados [aqui]. Esses mapas mostram que os continentes da Terra surgiram concomitantemente e não tiveram suas formas muito modificadas desde então. Isso também suporta a hipótese do inventor de que um corpo meteoroide gigante partiu-se no ar e caiu como pedaços de lava sobre uma proto-Terra coberta somente pelo oceano.

Estranho como possa parecer, temos aqui uma patente que busca comprovar uma teoria pseudocientífica sobre a gênese continental. Não faço ideia do motivo que levou Yasuo Shinozuka a registrar suas especulações em uma patente e não em um livro. Talvez o morador de Foster City, Califórnia, tenha uma concepção tão torta de ciência que acha que uma ideia que seja aprovada por um órgão governamental tenha algum valor de verdade. Ou talvez ele tenha visto uma patente como um meio de propaganda gratuita — já que as patentes são livremente acessíveis e qualquer um pode pedir uma cópia (ou baixar em pdf).

O texto da patente nº. 7.331.790 B1 (deu entrada em 10 de janeiro de 2005 e aprovada em 19 de fevereiro de 2008) é daqueles que merece ser lido na íntegra. Há 29 ilustrações e algumas são hilárias, como a Fig. 23:

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Não cole a África com pedaços de fita adesiva. Você estará infringindo uma patente se fizer isso sem pagar royalties ao Sr. Shinozuka…

Resumindo muito o texto principal, Shinozuka-san mostra-se tremendamente incomodado com as imperfeições da forma do planeta Terra e mais ainda pelas representações gráficas dos continentes. No que parece um eco das velhas crenças gregas de um grande continente antípoda, que equilibraria o planeta, Shinozuka parece incomodado com a existência de um hemisfério continental (o norte) e um oceânico (o sul):

Se a Terra fosse perfeitamente redonda, a água do mar teria um nível médio e se estenderia sobre os lugares onde os continentes e outras massas terrestres estão presentemente situados. Esse presumido nível médio do mar é chamado geóide.
Mas então porque o real desvio do geóide ocorre na forma do desequilíbrio do hemisfério continental? Embora a Terra tenha sido descrita às vezes como “em forma de pêra”, o desequilíbrio do hemisfério continental nunca foi referido por uma analogia similar, até onde sei. Eu acredito que a forma da Terra deveria ser vista como “uma bolota redonda com uma capa por cima”. Naturalmente, esse é um exagero, uma vez que as anomalias de sua superfície são negligíveis em comparação com seu tamanho.
[…] Ainda assim, a causa intrínseca do inchaço hemisférico é desconhecida. A gravitação exerce uma força algo negativa na formação de uma protumberância, como discutirei mais adiante. Deste fato, eu encontrei uma causa estranha: eu proponho que, num estágio inicial da história da Terra, um gigantesco corpo meteoroide partiu-se no ar e caiu como pedaços de lava sobre uma proto-Terra coberta apenas pelo oceano. Eu batizei esse corpo celeste perdido de “Yasoon” (Ya-suo-moon), porque originalmente pensei que fosse outra lua que girava ao redor da proto-Terra.

O inventor atira para todos os lados: diz que Alfred Wegener (1880-1930) não soube explicar “como e porquê surgiu o supercontinente Pangeia” nem como ele se partiu. Isso é verdade até certo ponto, mas as explicações com base na convecção do manto começaram a ser comprovadas nos anos 1960. Também critica a teoria de George Darwin sobre a formação da lua: “Essa noção relaciona-se de algum modo à origem dos continentes, mas apenas como um subproduto”. Quanto à própria existência de um supercontinente ou de um hemisfério predominantemente continental, diz que “a enorme força gravitacional não deveria permitir tamanha protuberância num planeta redondo.”

Como se vê, Shinozuka insiste em afirmar que a Terra é, de fato, perfeitamente redonda. Chega a ser meio platonista até. Ele ignora solenemente a existência de medições feitas por satélite que comprovam as imperfeições do planeta. Até mesmo a deriva continental causada pela convecção de material magmático é questionada: “Se eles insistem que o material dos continentes é mais leve que o material do manto, como um material mais leve poderia entrar no interior profundo da Terra em primeiro lugar?” #expliquemessaateus

Depois, ele passa a atacar as representações gráficas dos continentes, especialmente a projeção de Mercator (que, realmente, tem grandes defeitos). Mais que isso, ele afirma que as pessoas só se convenceram sobre as teorias geomorfológicas modernas por causa da aparência dos mapas:

Às vezes, uma imagem gráfica influencia mais a mente das pessoas do que a lógica. Elas acreditam em explicações sobre deriva continental, convecção do manto, abertura do solo marinho, plumas do manto (estreitas colunas de rochas aquecidas do manto, mais localizadas que as correntes de convecção), formação de montanhas e outros conceitos geofísicos oferecidos pelos cientistas com ilustrações lindamente desenhadas. Entretanto, nenhum desses tais fenômenos foi provado experimentalmente. Todos nós sabemos que a convecção termal ocorre num pote com água, mas, até onde sei, ninguém reproduziu com sucesso uma corrente de convecção que forme um centro de divergência linear como a cordilheira meso-oceânica em líquidos.

Como se as viscosidades do manto e da água fossem as mesmas! Ou como se o peso de continentes inteiros não tivesse seus efeitos! Ou como se a própria cordilheira meso-oceânica fosse mesmo perfeitamente linear!

Mas como Shinozuka propõe resolver os defeitos dos mapas? Embora diga que apenas um globo pode ser uma representação fiel do planeta, ele propõe mais um tipo de mapa:

Um mapa de acordo com a invenção é feito desenhando-se um mapa do hemisfério continental como corpo principal usando uma projeção azimutal equidistante e anexando-se as massas terrestres ao hemisfério oceânico de modo que massas terrestres interrompidas do corpo principal sejam completadas. Para fazer o mapa, um mapa de um globo é facsimilado sobre uma gratícula usada para uma projeção cônica equidistante. Então, esse mapa em forma de leque [fan-shaped map, no orig.] é convertido em um disco quase plano com concêntricas dobras similares às de um acordeon pela conexão das duas bordas do setor. Pela projeção da imagem do disco sobre uma superfície plana como um pedaço de papel, alguém pode fazer um mapa hemisfério sobre a projeção azimutal equidistante. Mapas planos podem ser produzidos usando diversos métodos para que haja mínima distorção, além de um sanfonado como uma lanterna (chinesa) e globos de fora para dentro.

Muito simples, não? Mas e as evidências para a sua teoria do surgimento dos continentes? Vejamos este trecho:

[…] Então eu desenhei as principais cordilheiras montanhosas 49 sobre os continentes para mostrar sua estrutura à primeira vista. Esse mapa proporciona uma excelente demonstração de como todos os continentes e cadeias montanhosas se originaram simultaneamente. Além disso, os contornos arredondados implicam uma similaridade com crateras induzidas por meteoros. Embora crateras anelares sejam feitas por impactos com objetos sólidos, eu suponho que no caso dos continentes contornos nítidos não foram formados porque os objetos que caíram sobre a proto-Terra eram majoritariamente de lava derretida.

Há vários outros argumentos assim espalhados pela patente. Há, inclusive uma tentativa de explicação gráfica na Fig. 18.

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A queda de objetos meteóricos não é, realmente, incomum (os russos que o digam). Uma hipotética proto-lua também não seria tão absurda. Mas essas considerações deveriam levar a uma série de perguntas: como (ou onde) essa lua teria se formado? Porque ela caiu? Quando, exatamente, ela caiu? E porque, sendo relativamente grande, transformou-se em lava em pleno ar? Nossa atmosfera já foi mais densa nos primórdios do planeta? Mas se fosse realmente densa, teria vaporizado e não derretido tal objeto.

E a hipótese de que esses pedaços de lava extraterrestre resfriados e transformados em continentes não teriam se modificado não é convincente, mesmo que a tectônica de placas não existisse (ou fosse apenas uma conspiração illuminati geomorfológica). E os processos erosivos? A ausência de uma cratera de impacto seria compreensível num planeta oceânico. Mas será que não teria sobrado nem um fragmento menor, mas capaz de gerar uma cratera submarina? Por fim, não deveriam ser observadas grandes diferenças físicas e químicas entre as massas continentais e as bacias oceânicas?

Nenhuma dessas perguntas é considerada por Shinozuka. Também parece que nenhum questionamento desses foi feito pelo USPTO em 3 anos de processo de aprovação da patente. Vindo de um país com uma educação científica tão falha, não é surpreendente (e talvez não fosse muito diferente por aqui). O esforço do inventor para simplificar a confecção de mapas e sua busca por representações mais precisas seriam louváveis e talvez até educativos.

Mas basta uma teoria maluca para transformar uma boa ideia em patente patética.


0 comentário

rafinha.bianchin · 18 de fevereiro de 2013 às 8:42

Eu admiro cidadãos com novas teorias, por mais esdrúxulas e refutáveis que sejam.
Porém, ele teria contribuído mais para a sociedade se tivesse se tornado um geólogo, ou algo do tipo, e não requerendo patentes para métodos de construção de mapas.
Sinto muito amigo, teu imenso potencial foi desperdiçado.

RIP
“Uma teoria que não foi”

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