Na corrida imperial pela Ásia Central, Akhun passou a perna em diplomatas e estudiosos britânicos e russos

No fim do século XIX, os cafundós da Ásia Central passaram a chamar a atenção de potências imperialistas, especialmente da Rússia e da Grã-Bretanha. Inacessível, desconhecido e quase inteiramente desértico, o coração do continente asiático virou alvo de cobiça tanto de militares quanto de estudiosos. Os acadêmicos estavam ávidos pelos supostos tesouros escondidos ali. Não demorou muito para que valiosos manuscritos começassem a surgir.

Foi nesse contexto de expedições arqueológicas, militares e etnográficas que Islam Akhun farejou uma oportunidade de fazer dinheiro com relativa facilidade. Pouco se sabe dessa figura hoje esquecida, exceto que ele era originário de Khotan ou Hotan, cidade da província chinesa de Xinjiang, às portas do deserto de Taklimakan e outrora parte da mítica Rota da Seda.

Islam Akhun, cuja data de nascimento é desconhecida, só entra nos registros históricos pela primeira vez em 1895. De alguma forma, o uigur foi parar em Kashgar, perto da fronteira com o Afeganistão, onde abordou o cônsul britânico. Akhun ofereceu a Sir George Macartney [1867-1945] um maço de manuscritos que teria descoberto. O diplomata aceitou a oferta e passou o material para Augustus Rudolf Hoernlé [1841-1918], filólogo e especialista em línguas indo-arianas.

Mais ou menos na mesma época, por meio de um sócio, Islam Akhun vendeu itens similares para o cônsul russo, Nikolai Petrovsky [1837-1908]. O colaborador de Akhun nesse caso era Ibrahim Mullah, que sabia alguma coisa sobre o alfabeto cirílico. Petrovsky, sem perceber que havia caracteres de cirílico nos manuscritos que adquiriu, mandou tudo para São Petersburgo, com ordens para que fossem decifrados. Na capital imperial russa, os especialistas ficaram confusos com um manuscrito salpicado com diversos scripts — e o que diabos algumas letras russas fariam ali?

Hoernlé, por sua vez, trabalhava nos manuscritos supostamente antiquíssimos em seus momentos de folga. Ele identificou parte do texto como o script brahmi, um dos vários sistemas de escrita indianos. No entanto, em artigo que escreveu para o Journal of the Asiatic Society of Bengal em 1897, ele admitiu que o material estava

…escrito em caracteres que ou me são muito desconhecidos ou os conheço muito imperfeitamente para tentar propor uma leitura no escasso tempo de lazer que meus deveres oficiais me permitem… Minha esperança é que, entre meus colegas de trabalho, haja alguém que tenha feito das línguas da Ásia Central a sua especialidade e talvez seja capaz de reconhecer e identificar os caracteres e a linguagem desses curiosos documentos.

Os curiosos documentos continuaram a convencer os diplomatas russos e britânicos nos anos seguintes. Ao ver que a demanda estava acima do esperado, Islam Akhun passou a produzir os manuscritos de modo semi-industrializado, imprimindo o material por meio de prensas xilográficas. Macartney repassou o novo material a Hoernlé, que produziu novo artigo em 1899. 

Em vez de suspeitar da clareza dos novos manuscritos, o filólogo ficou contente por identificar os diversos scripts presentes: kharosthi, brahmi indiano e centro-asiático, tibetano, uighur, persa e chinês. Mesmo assim, ele não conseguiu interpretar nada.

Enquanto os estudiosos britânicos e russos ficavam confusos (ou contentes) com as novas descobertas, Akhun abordou um missionário sueco, Magnus Bäcklund [1866-1903]. Curiosamente, foi o religioso quem demonstrou ceticismo frente ao material oferecido. Bäcklund foi o primeiro a chamar a atenção para a nitidez dos caracteres em manuscritos supostamente muito antigos.

Hoernlé chegou a discutir a possibilidade de falsificação em artigo publicado em 1899, mas ele duvidava que “Islam Akhun e seus confederados comparativamente iletrados” tivessem a capacidade de inventar os manuscritos. Em vez disso, ele preferiu acreditar nos relatos de Akhun sobre a descoberta, publicando-o. Segundo o suposto descobridor, o material havia sido encontrado nas ruínas do antigo Reino de Khotan, no deserto de Taklamakan.

A confiança de Hoernlé era tanta que criou desconfiança em Aurel Stein [1862-1943] — renomado arqueologista, especializado em assuntos indo-iranianos. Ao participar de uma expedição à Ásia Central em 1900, Stein visitou vários lugares do antigo reino de Khotan. O arqueólogo até achou alguns manuscritos em suas escavações, mas eles não eram nada parecidos com os fornecidos por Akhun. Ao consultar os moradores locais, Stein percebeu que ninguém se lembrava de nenhuma escavação recente na região. 

Depois de uma investigação meticulosa, Stein conseguiu localizar Akhun em Abril de 1901. Interrogado durante dois dias pelo arqueólogo, o falsário caiu em contradição rapidamente. A princípio alegava inocência: ele seria apenas um intermediário entre os britânicos e terceiros, que teriam lhe passado o material sem mais detalhes. Akhun, entretanto, parecia ter esquecido da história sobre a descoberta que havia contado aos britânicos, a essa altura já publicada por Hoernlé.

Exposto ao seu próprio relato, Islam Akhun acabou confessando as falsificações e mais do que isso: explicou como fez tudo. Além de descrever a manufatura xilográfica montada com Ibrahim Mullah, ele também descreveu como envelhecia o material. Depois de impressos os manuscritos eram envelhecidos com manchas de uma tintura extraída da papoula e, em seguida, eram defumados. 

Curiosamente, Stein não entregou o falsário às autoridades. Islam Akhun só foi capturado numa foto publicada mais tarde em Ancient Khotan, livro sobre a expedição do arqueólogo. Stein, com alguma relutância, expôs a farsa a Hoernlé, que havia sido seu orientador. Numa longa carta, ele demonstrou as “fabricações de I.A.”, um sujeito que, apesar da esperteza, “não é perigoso demais para ficar à solta numa inocente Khotan”.

Hoernlé e Stein só encontrariam pessoalmente em Oxford, em Julho de 1901. Já era meio tarde para corrigir a farsa. A maior parte do segundo artigo de Hoernlé, que ele havia decidido destruir, já havia sido impressa — só o final do artigo pôde ser editado às pressas antes de ser publicado. Naquela altura, as falsificações já eram parte das coleções da Biblioteca Britânica e do Instituto de Manuscritos Orientais de S. Petersburgo — onde parecem continuar até hoje.

E Islam Akhun? Que fim teve? Depois de passar a perna em estudiosos e diplomatas de dois impérios, ele desapareceu tão misteriosamente quanto havia aparecido. Seu paradeiro, suas atividades posteriores e a data de sua morte ainda são desconhecidos.


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