Casamentos Clandestinos

Hogarth, William, Marriage a-la-Mode, plate I, 1745 Engraving, 14 4/25″ x 17 4/5″

Eram muito comuns na Inglaterra setecentista. Tanto que, durante algum tempo, o governo de Londres multava em 100 libras o falso oficiante e em 100 libras cada pseudo-cônjuge. Mesmo assim, havia tabernas e até casas de moral duvidosa que chegavam a contratar seus próprios ministros religiosos, muitas vezes formados em teologia em universidades respeitáveis. Ou não. Por uma pequena taxa pagas a algumas casas de moral duvidosa, informavam anúncios em classificados, era possível se casar nesses lugares. Pouco importava que você estivesse bêbado feito um gambá, ou só com tesão demais por alguém: o casamento era feito e, de alguma forma, registrado.

Mesmo que fossem ilegais, esses registros nem sempre eram destruídos quando descobertos pelas autoridades. Algumas das notas depositadas no Registrar of the Consistory Courts [algo como Cartórios das Cortes Eclesiásticas] de Londres são bastante divertidas: (mais…)

“Anúncios Curiosos na Igreja”

sleeping congregation

“Sleeping Congragation” (William Hogarth, 1728)

Independente da religião, sempre há um momento bastante solene no culto, missa ou ritual. Pode ser um sermão ou pregação, uma oração ou a leitura da respectiva escritura sagrada. Por vezes, porém, essa solenidade toda pode ser perdida por motivos diversos. O Rev. R. Wilkins Rees relata alguns causos de sermões que deram errado no ensaio “Curious Anouncements in the Church”, publicado em Ecclesiastical Curiosities (ANDREWS, 1899). Vamos começar com um pequeno mal-entendido: (mais…)

Thomas Britton, o carvoeiro erudito

 

Thomas Britton, o carvoeiro musical (gravura de autor desconhecido, 1777)

Thomas Britton, o carvoeiro musical (gravura de autor desconhecido, 1777)

Pouco se sabe da vida deste curioso personagem que apareceu em Londres na virada do séc. XVII para o séc. XVIII. O que se sabe é que nasceu em Northamptonshire e, logo que pode, mudou-se para Londres, onde estabeleceu-se como vendedor de carvão — primeiro como empregado e mais tarde como autônomo. Também não se sabe se teve alguma educação formal, mas tudo indica que foi um autodidata, especialmente dedicado ao estudo da música, de livros antigos e talvez até de química. (mais…)

Um Anúncio Obscuro

Há quem reclame que os anúncios publicitários impressos de hoje são pobres em texto, supérfluos e muito dependentes da imagem. Os argumentos deram lugares a trocadilhos. Mesmo os anúncios classificados têm, por motivos diversos, um texto pobre. O amante de textos de publicidade deve, porém, lembrar-se que textos longos nem Leia mais…

Margorie McCall, a moça enterrada duas vezes

Lugan, condado de Armagh, Irlanda do Norte, 1705. Margorie McCall morre após uma doença misteriosa e seu corpo é enterrado às pressas. Seu marido, John, era o médico da vila mas não conseguira salvar nem a esposa nem o valioso anel que ela levou para a cova em um de seus dedos. O Dr. John McCall até tentou remover a joia, mas o inchaço do corpo da esposa não lhe permitiu reaver o anel.

Como a Lugan fosse um lugar pequeno, todo mundo sabia do anel. Assim, a recém-finada Miss McCall era o alvo perfeito para os lúgubres ladrões de cemitério. Na mesma noite em que foi enterrada, antes mesmo que o solo se acomodasse, Margorie foi exumada. Os ladrões abriram o caixão, mas também não conseguiram puxar o anel da falecida. Eles estavam prestes a partir para a ignorância — cortar o dedo para levar o anel. Quando a lâmina da faca mutiladora encostou no dedo de Margorie, houve um grito. Três, na verdade.

O primeiro foi de Margorie, que levantou-se do caixão. Ela não estava morta, mas fora enterrada prematuramente. Os outros dois gritos, claro, foram dos ladrões. Assustados, eles teriam simplesmente fugido, jurando jamais voltar a violar túmulos (há quem diga que um deles morreu com o susto). Mal souberam que haviam salvo a esposa do Dr. McCall.

Margorie, por sua vez, também fugiu dali. Não tinha muita agilidade e não estava em seu melhor estado, mas logo percebeu que não precisava de muito esforço. Ela havia sido enterrada no cemitério atrás da Igreja. Sua família morava numa casa perto dali, do outro lado da praça. A Lua cheia lhe iluminava os passos.

Em casa, o Doutor John consolava os filhos quando ouviu batidas bem familiares na porta da frente. “Se Margorie estivesse viva”, pensou ele, “poderia jurar que é ela quem está batendo”. Ao abrir a porta, depara justamente com a esposa, em suas vestes fúnebres e com sangue a escorrer do dedo. Viva, inteira e com o anel.

Era inacreditável demais. O coração de John McCall não resistiu à ressurreição da esposa e o médico bateu as botas ao dar de cara com a ex-falecida esposa. Ele acabaria enterrado na mesma cova onde esteve a mulher.

De volta à vida, Margorie casou-se novamente e teve vários filhos além dos que já tinha. Quando finalmente faleceu, em idade avançada, foi pela segunda vez no mesmo cemitério. Em sua lápide, que já caiu e tornou-se ilegível, lia-se: Margorie McCall: Lived Once, Buried Twice. (mais…)

Em uma palavra [169]

babovismo (ba.bo.vis.mo) s.m. Sociol. modelo sócio-econômico divulgado pelo jornalista e revolucionário francês François Noël “Gracchus” Babeuf (1760-1797), que pregava a absoluta igualdade dos homens em termos de trabalho, direitos e deveres. babovista (ou babofista ou babuvista), adj. seguidor de Babeuf. [do antropônimo Babeuf] O babovismo (ou babofismo ou babuvismo) foi, Leia mais…

Spotted: século XVIII

Ei, George, acho que esse anúncio é pra você! Ouça... [gravura de PUNCH, OR THE LONDON CHARIVARI. Vol. 156. May 7, 1919., via gutenberg.org]

Ei, George, acho que esse anúncio é pra você! Ouça… [gravura de PUNCH, OR THE LONDON CHARIVARI. Vol. 156. May 7, 1919., via gutenberg.org]

Esse negócio de publicar anúncios sob anonimato em busca de amores à primeira vista é mais velho do que se pensa. Talvez tão antigo quanto a imprensa, o ato de descrever alguém e fazer-lhe uma proposta (com ou sem segundas intenções) acontecia nos murais de redes sociais de 1700 e pouco: as páginas dos classificados.

Os seguintes exemplos são apresentados por Henry Sampson em A History of Advertising from the Earliest Times, Illlustrated by Anecdotes, Curious Specimens and Biographical Notes [Uma História dos Anúncios desde os Tempos mais Antigos, Ilustrada por Anedotas, Espécimes Curiosos e Notas Biográficas] (1874). O primeiro encontra-se no General Advertiser de outubro de 1748: (mais…)