Assédio em universidades: Qual o limite da brincadeira?

Quando nós pensamos em Brasileiros no exterior sempre vem à cabeça uma única palavra: DIVERSÃO, mas o que realmente encaramos como brincadeira? Para quem tem acompanhado a copa por aí deve ter visto comentários de brasileiros “ensinando” Russas a falar português, mas a típica brincadeira envolve um tema seríssimo e cada vez mais discutido: O Assédio.

E claro, que não é apenas em ambientes informais que o assunto se apresenta, cada vez mais tenho escutado por aí casos de assédio sexual, depressão e até mesmo suicídios em ambiente acadêmico. E, em geral, esses casos de depressão e suicídios estão associados a casos de assédio, principalmente assédio moral.

Segundo o CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego), o assédio pode ser definido por:

” Assédio é todo o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em fator de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador”

E quem convive em ambientes acadêmicos vivencia na pele o que o professor José Roberto Heloani declarou em um boletim especial sobre o tema ao ADunicamp: que o ambiente acadêmico é onde mais tem aumentado casos de assédio no Brasil. E os motivos declarados são inúmeros, mas entre eles se destacam: a competição gerada e o ambiente hierarquizado sem possibilidade de demissão. Ainda segundo o boletim:

“(..) os agressores possuem traços narcisistas e destrutivos, estão frequentemente inseguros quanto à sua competência profissional e podem exibir, às vezes, fortes características de personalidade paranoica, pela qual projetam em seus semelhantes aquilo que não conseguem aceitar em si mesmos.”

Mas e quanto a “vítima”? Depois de ter feito essa pesquisa eu me dei conta de que já passei por muitas situações na minha vida que podiam ser classificadas como assédio, e percebi que o estar dentro de uma pós graduação piora a situação, isso porque a vida pessoal se mistura com a vida profissional, tudo passa a ser uma coisa só, e as vezes relações problemáticas fora do ambiente de trabalho acabam tendo consequências as vezes até mais graves do que assédio envolvendo superiores.

Pra trazer um pouco da minha experiência quanto ao tema: “Durante uma festa universitária eu estava com alguns amigos e de repente um grupo de meninos me rodearam, e um deles virou pra mim e me disse pra escolher um pra beijar”. Olhando pra isso vocês podem estar pensando que isso não tem problema nenhum. E qual o mal de um simples beijo? Eu mesma pra ser sincera não vejo problemas nisso, encaro essas coisas como apenas uma brincadeira, mas pensando agora, o quanto isso está longe de evoluir pra algo mais grave? O quanto eu mesma não encaro coisas mais graves como normais? Só pra fechar a história, eu me aproveitei do meu pequeno tamanho, achei uma brecha e saí fora.

Mas, voltando a situações cotidianas, quantas amizades não terminam por ciúmes, competições ou briguinhas bobas? Quantos relacionamentos  não terminam sem que um nem sequer queira olhar na cara do outro? E como isso fica quando todas as pessoas envolvidas estão  no mesmo ambiente? E quando essas mesmas pessoas têm que deixar tudo de lado para trabalhar no mesmo projeto? E pior ainda, sem poder simplesmente jogar tudo pro alto por estar preso a uma tese que precisa ser defendida.

Por experiência própria, as finalizações de momentos críticos na nossa vida já geram estresse e pressões suficiente sozinhas, e quando isso tudo está acompanhado por problemas emocionais gerados por esse tipo de situação tudo se intensifica. E para quem já tem tendência a depressão então, o caso fica ainda mais grave.

Mas, é fácil tratar o assunto quando realmente percebemos que ele existe, e é relativamente mais fácil notar que o problema existe quando há uma hierarquia envolvida. E quando há um envolvimento emocional maior e nem sequer nos damos conta? Quantos relacionamentos começam com amizades e amores e se tornam abusivos? Isso porque passamos a viver numa dependência emocional e tudo que o outro nos pede passa a ter um peso de “obrigação”.

E o que fazer se nos encontramos em uma situação que pode se enquadrar em um caso de assédio (seja ele moral ou sexual)? Denúncia é sempre uma opção, apesar de em geral os assediados não denunciarem por medo ou por não ter como provar, como foi publicado pelo Adusp. Além disso, em tempos modernos nós ainda enfrentamos o julgamento, a culpa e a vergonha. Mas, ainda que você opte por não denunciar, é imprescindível que você busque ajuda, seja de pscicólogos, amigos, familiares, ou qualquer pessoa que você confie, porque a pior coisa que você pode fazer é tentar enfrentar tudo isso sozinho, é se isolar ainda mais.

No final das contas meu intuito com esse post não era apenas abrir os olhos pro problema que estamos enfrentando, mas trazer uma solução diferente. Passar por situações dessas é ruim? Sim, é péssimo. Mas, infelizmente, ainda tratam-se de situações rotineiras. E ao meu ver isso acontece porque simplesmente não sabemos como lidar com nossas próprias emoções, com nossas próprias fraquezas, e eu concordo plenamente com a frase citada acima, que nós transformamos o outro em nosso espelho, nós rejeitamos no outro aquilo que temos dentro de nós, e enquanto nós não aprendermos a nos controlar, nós seremos aqueles a ainda criar esse tipo de situação.

E seja para não ser o opressor e muito menos se sentir a vítima, o autoconhecimento, e o empoderamento pessoal se tornam de extrema importância no combate ao assédio, fazer ao outro aquilo que você gostaria que fizessem com você é a regra de ouro para a boa convivência, para criar ambientes harmônicos.

Aquele que realmente sabe quem é, não vai aceitar que outro lhe diga algo diferente. Aquele que sabe o poder que tem nas mãos, não vai se deixar dominar, vai ter consciência de sua força, e tudo se apresentará de uma forma mais suave. Ressignifique o que te acontece.

Agora, se você assim como eu, se revolta quando escuta sobre casos de assédio (sexual ou moral) e entende o que uma situação dessas pode gerar na vida de alguém que já vem enfrentando outros problemas emocionais, escolha transformar essa revolta em algo produtivo, escolha transformar a opinião e as ações da única pessoa sob a qual você tem pleno controle, você mesmo.

Assim, se coloque sempre no lugar do outro antes de agir, desenvolva sua inteligencia emocional, descubra e aceite suas fraquezas, e empodere-se, para que você saia da posição de possível vítima e, principalmente, da de opressor.

 

Para finalizar, tenha cuidado quando você estiver na posição da testemunha, porque a sua clareza pode não ser a do outro, cada um tem seu tempo, e você não deve julgar o posicionamento do outro perante o que lhe acontece.

“Libertei mil escravos. Poderia ter libertado outros mil se eles soubessem que eram escravos.” Harriet Tubman

 

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Referências

Assédio de brasileiros na Rússia

CITE

Boletim – Assédio moral nas universidades

Adusp

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Sobre Sheila Tiemi Nagamatsu

Formada em Biotecnologia pela UFSCar, Dra. em Genética e Biologia Molecular com ênfase em Bioinformática na UNICAMP, apaixonada por desenvolvimento pessoal e, atualmente, pós-doutoranda em YALE na área de psiquiatria.

4 respostas para Assédio em universidades: Qual o limite da brincadeira?

  1. O limite é quando percebemos que a outra pessoas está incomodada. ponto. não devemos agir em outrem de modo que não gostaríamos que outrem agissem conosco. Muito atual artigo, que as pessoas envolvidas sejam julgadas e se tome o corretivo necessário para que os mesmos se modifiquem e evoluam ok. Grato Sheila.

    • Sheila Tiemi Nagamatsu diz:

      Eu concordo Augusto, mas vejo um problema no “deixar de fazer o que não gostaríamos que nos fizessem” em casos mais leves, porque isso me parece mto subjetivo. Por exemplo, algumas pessoas trabalham bem sob pressão, outras não, então alguém que gosta da pressão pode pressionar o outro pra que ele se torne alguém melhor? Aí que eu acho que precisamos do desenvolvimento pessoal, porque no fundo só nós temos capacidade de definir o que nos incomoda e lidar com isso, seja conversando com o outro ou ressignificando tudo que nos acontece. Mas nos casos graves e de situações que pedem um bom senso, eu concordo plenamente que a situação exige que o agressor mude e evolua. Obrigada pelo comentário!

  2. Gustavo diz:

    Quem trabalhe no meio acadêmico corre grande risco de ter que lidar com pessoas narcisistas ( característica que bem observou o Prof. Heloani no boletim mencionado).

    Não adianta tentar consertar um narcisista. É um esforço mental enorme e inútil. A melhor alternativa é sempre eliminar o narcisista da nossa vida e preservar nossa saúde mental.

    No link abaixo, algumas características do transtorno de personalidade narcisística.

    https://www.psycom.net/personality-disorders/narcissistic/

  3. Pingback:Sobre o ser autêntico - Terabytes of life

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