Pesquisando durante férias, feriados e festas carnavalescas

Escrever no “Vértice Sociológico” me ajuda a pensar no texto que pretendo apresentar para minha qualificação no doutorado, por isso prometo que haverá regularidade nas postagens: a cada 15 dias, o público poderá ler conteúdos novos no blog. Gostaria de trazer um texto que me fez pensar no sentido de minha formação. Pouca repercussão nos círculos de cientistas sociais teve o texto “Bye-bye, Brasil” de Suzana Herculano-Houzel sobre as condições de pesquisa científica no Brasil. Não encontrei respostas às provocações publicadas por ela na edição 116 da revista piauí, de maio de 2016. Talvez eu tenha valorizado em excesso a importância dos comentários da autora acerca de sua própria experiência, mas ainda assim considero pertinentes algumas das suas considerações.

Assim que terminei de ler “Bye-bye, Brasil”, lembrei da fórmula proferida durante uma palestra por uma professora: fazer pesquisa aos finais de semana. Para quem cursa sociologia,  ou outras áreas cujas pesquisas não envolvem as dinâmicas de laboratório, há uma série de limitações a respeito de até quando é possível pesquisar. Não estou falando dos prazos de entrega de relatórios, dissertações ou teses, mas do limite de horário de bibliotecas e de salas de consulta de arquivos. Algumas funcionam por poucas horas, a maior parte fica fechada aos finais de semana, ainda assim é possível trabalhar nos dias de descanso (eu já realizei consultas na biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro aos sábados ou aos domingos). Para quem assume funções de docente no ensino básico ou universitário, conciliar a dupla jornada – pesquisar e lecionar – torna-se um desafio. Para quem trabalha com dedicação exclusiva, bolsistas de pós-graduação, para concluir o projeto de pesquisa dentro do prazo, há mais dúvidas do que certezas sobre o tipo de financiamento das atividades acadêmicas e as estratégias de carreira.

Será que quando acabar a vigência bolsa somente conseguiremos reunir material para nossas pesquisa nos dias de folga porque nossa rotina será de  aulas, relatórios e bancas? Flexionei na primeira pessoa do plural porque sei que tal angústia também atinge colegas da mesma geração. Com as mudanças no cenário institucional das universidades, pelo menos desde 2015, ficou imprevisível calcular algum futuro para quem até então pretendia se dedicar à carreira acadêmica no Brasil.

Espero que a caixa de comentários fique repleta de respostas, pois acredito estar tratando de um tema pertinente a muitas áreas acadêmicas. Para grande parte do universo de discentes de pós-graduação das Ciências Humanas, a defesa da tese – ou então a escrita para o pós-doutorado – é o ponto final de uma vida dedicada exclusivamente a ler, fichar textos, respirar a poeira de arquivos, realizar entrevistas, participar de congressos e escrever uma dissertação ou tese. A partir dessa zona limítrofe, cruzada no dia da defesa, quem egressa de qualquer programa, se pretender continuar carreira acadêmica, muito provavelmente terá que aprender um ofício a respeito do qual não recebeu treinamento específico na graduação, tampouco na pós-graduação. Estou falando do ofício de lecionar sociologia no ensino superior. Em 2016, escrevi sugestões para evitar essa dissociação em um comentário que virou postagem no blog “A vida pública da sociologia”, mantido pelo Professor João Marcelo Maia (CPDOC/FGV).

Nessa trajetória de aluno de Ciências Sociais e, mais especificamente, Sociologia, contando os quatro anos de graduação, dois de mestrado e, se tudo der certo, quatro de doutorado, jamais tive aulas sobre as formas mais apropriadas de explicar em uma sala com discentes da graduação temas como metodologia de pesquisa. No entanto, tive aulas de métodos e técnicas de pesquisa. Esse exemplo fortuito muito me preocupa. Haverá mais uma geração de cientistas sociais com treinamento apropriado para pesquisar, mas sem preparo para lecionar em cursos de graduação. Tenho restrições ao texto publicado na revista piauí por Suzana Herculano-Houzel, mas, após analisar os argumentos, sinto que algumas angústias transpassam as fronteiras de cada campo. A principal preocupação, sobretudo nesses tempos de reverberação de desmonte das universidades públicas, é saber quando a minha geração terá tempo – e verba – para desenvolvimento de pesquisas.

Sobre Luã Leal 31 Artigos
Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

2 Comentários

  1. Oi, Luã! Só para alertar, na verdade o nome da neurocientista que escreveu a carta que você mencionou é Suzana Herculano-Houzel, e não Rosana Herculano Houzel Pinheiro! Na área das Ciências Biológicas ela é muito conhecida.
    Há vários anos ela vem escrevendo sobre a triste situação da ciência brasileira. Várias vezes já li textos dela que realmente me deixaram preocupada, pois estou no meio do Doutorado, e totalmente incerta sobre o meu futuro na carreira acadêmica. A Suzana até que persistiu por bastante tempo tentando superar as dificuldades em sua universidade, mas a desvalorização e a falta de apoio foi tanta que não teve mais jeito. Foi uma tristeza muito grande vê-la deixando o Brasil, pois isso representa uma grande perda para nosso país, mas essa “fuga de cérebros” é uma dura realidade.

    • Olá Carolina, muito obrigado pelo alerta. Corrigi imediatamente, espero que agora esteja tudo certo com o texto. Ao ler o artigo na revista piauí, senti necessidade de publicar um comentário neste blog, pois há poucos debates no IFCH sobre políticas de C&T.
      As incertezas sobre o futuro estão atingindo cada vez mais os pós-graduandos e o texto da Suzana Herculano-Houzel, cientista renomada, somente aumenta essa sensação de angústia em quem está ingressando no campo acadêmico.

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