No labirinto dos arquivos

Desaparecido por muito tempo, finalmente retornei para o “Vértice Sociológico”. Devido a essa ausência, preciso me justificar: fiquei ocupado com a escrita do texto da qualificação. Confesso que o resultado não foi dos melhores. Ainda não passei pelo exame, mas tenho esperança que conseguirei sobreviver a esse rito de passagem. Aliás, é apenas o rito precedente ao grande cerimonial chamado defesa de tese. Esse tema fica para uma futura postagem. Quando a pesquisa me desorienta, este sim é o tema da postagem, entro no labirinto dos arquivos para encontrar respostas.

A pesquisa “O ‘popular’ na pauta da Academia Brasileira de Música” está em sua reta final, mas ainda tenho bastante conteúdo para postar neste blog. Por não ser uma ciência experimental, a sociologia compreensiva pode se embasar em um modelo hermenêutico para que os processos sociais de variadas durações sejam tratados como objeto.

Na Biblioteca Mercedes Reis Pequeno, encontrei parte significativa do material, as fontes primárias, para a escrita da tese. Dimensão às vezes pouco destacada, mas fundamental em qualquer trabalho de arquivo, envolve as relações tecidas nos bastidores. Sem a colaboração da bibliotecária Dolores Brandão, a pesquisa certamente estaria em outro nível de profundidade. Em muitos labirintos entrei e com muita gente conversei para, depois de quase três anos, finalmente encontrar um fio condutor na descrição do que faço nos arquivos. A tarefa hercúlea será entender, a partir de fragmentos da memória dos acadêmicos e da história institucional, como as classificações operaram na definição das categorias música popular e música folclórica.

A fotografia de Mercedes Reis Pequeno (1921-2015), na entrada da biblioteca, equivale à de Villa-Lobos (1887-1959) no hall da Academia Brasileira de Música. Mercedes e Villa ainda exercem sua autoridade nos respectivos ambientes como figuras fundamentais na tecedura das tramas de estudos sobre a música. Em outro labirinto de pesquisa, na biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro, também há uma fotografia do “proprietário” maestro Mozart de Araújo na sala onde estão seus documentos (recortes de jornal e fotografias), partituras e livros, comprados pela Fundação Banco do Brasil. Por fim, gostaria de chamar atenção para um tipo de ritualização do passado.

Os arquivos, nos dois casos, foram forjados como espaços para, de alguma maneira, reverenciar os ícones das gerações passadas. Ao analisar como tais espaços foram constituídos, é possível compreender como o conjunto de projeções a respeito da realidade brasileira – estudado na subárea pensamento social – vincula-se a relações de poder e disputas por posição ou prestígio.

 

Sobre Luã Leal 34 Artigos
Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutor em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

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