“E a crise no Brasil, pelo que a gente viu, só querem mudar de nome”

“Crise”: assim como em 2018, a campanha do plebiscito de 1993 foi marcada por essa permanente ideia. O título desta postagem foi extraído de um dos versos do jingle da campanha pela república e pelo presidencialismo.  A frente monarquista perguntava ao eleitorado se o “voto rebelde” deveria mesmo ir para a república. Apresentado na propaganda eleitoral como historiador, Gastão Reis criticava o voto na república como “acomodado” ao dizer: “que história é essa de voto rebelde na situação?”. Ele foi um dos mais combativos defensores do voto no rei em seus artigos publicados no Jornal do Brasil antes do plebiscito.

Gastão Reis, então à beira dos 50 anos de idade, era professor no Departamento de Economia da PUC no Rio de Janeiro desde o início da década de 1980. Trabalhou também na iniciativa privada e, a partir da década de 2000, tornou-se dirigente da FIRJAN, além de atuar para desenvolver o turismo em Petrópolis. Em 2008, concorreu ao cargo de vice-prefeito de Petrópolis, na chapa de Marcos Novaes, também do PHS. Em 2018, disputou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo NOVO. Escreveu os livros Revele-se empreendedor e A falência da Res publica: ensaios e artigos em busca do tempo perdido, publicados respectivamente em 2012 e 2017.

É evidente o viés adotado pela campanha da monarquia parlamentarista, o resto do programa pode ser assistido aqui, com os depoimentos do deputado Cunha Bueno. As imagens dessa campanha sempre sugeriam um Brasil diverso e plural, cuja vontade popular somente seria atendida com o retorno da monarquia. Vou continuar a análise iniciada com a postagem da semana passada e voltarei à propaganda em defesa do voto pela monarquia. Logo após o discurso de Gastão Reis, no programa citado acima, uma voz off pretendia delinear as diferenças entre sistemas de governo. Fiz uma tabela sobre as definições apresentadas no programa:
Tabela Monarquia República
Início do regime “aclamação popular” “golpe militar”
Liberdade de imprensa “absoluta” “censura”
Luta contra a escravidão “Família imperial esteve sempre na vanguarda da luta contra os escravocratas” Partido Republicano “nunca teve em sua pauta política a libertação dos escravos”
Menor salário “o equivalente a 22 gramas de ouro” “nosso vergonhoso salário mínimo”
Constituições Uma Seis

Após 50 dias, o último programa das três opções de voto (monarquia parlamentarista, república parlamentarista e república presidencialista) apresentou ao eleitorado dois tipos de abordagem: uma revisão de leituras sobre passado (de certo modo, uma reescrita da história) e também, ao “escrever uma história do futuro”, uma elaboração de antídotos aos problemas e impasses políticos estruturais. Após a propaganda monarquista, logo teve início um trecho de “Nabucco” de Verdi. A bandeira do Brasil, paulatinamente, se misturava à do PDT. Apareceu na televisão, então, Leonel Brizola em seu comunicado ao “povo brasileiro”, um crítico ao processo do plebiscito.

A propaganda presidencialista teve Milton Gonçalves e Joana Fomm como faces públicas da campanha “Diretas Sempre”. Entre os políticos, Marco Maciel, senador por Pernambuco e coordenador da Frente República Presidencialista, e Orestes Quércia, presidente do PMDB e ex-governador de São Paulo (1987-1991), foram as vozes principais pelo voto no presidencialismo.

Encabeçada pelo PSDB, a Frente Parlamentarista Ulysses Guimarães defendia que a escolha pelo parlamentarismo era uma “forma de desviar do abismo”. O slogan era “Parlamentarismo Já”, em óbvia referência à campanha pelo voto direto, derrotada em 1984. Senador José Richa, paranaense, era o presidente da Frente Parlamentarista. Ele defendeu o parlamentarismo como forma de dar “ponto final definitivo ao ciclo de crises” ao lado do então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury do PMDB, quem propôs superar os “vícios” do presidencialismo. Na postagem da próxima semana, concluirei a trilogia sobre o plebiscito de 1993 com uma reflexão sobre o debate final.

Sobre Luã Leal 29 Artigos
Luã Leal é o responsável pelo blog Vértice Sociológico. Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Ciências Sociais/CPDOC da Fundação Getulio Vargas (FGV). Meus interesses de pesquisa estão relacionados à sociologia da cultura e ao pensamento social.

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