Células-Tronco: quem disse que funciona?

A FDA (Food and Drug Administration), agência norte-americana que fiscaliza o uso de novos medicamentos e equipamentos médicos, publicou um alerta numa das mais importantes revistas cientificas do mundo, o New England Journal of Medicine (1). A agência está preocupada com o uso abusivo e irracional de terapias pseudocientíficas usando células-tronco:

 

“A empolgação atual sobre o potencial para a terapia com células-tronco para melhorar os resultados do paciente ou mesmo curar doenças é compreensível. Na FDA compartilhamos essa excitação. No entanto, para garantir que este campo emergente cumpra a sua promessa aos pacientes, devemos primeiro compreender os seus riscos e benefícios e desenvolver abordagens terapêuticas baseadas em ciência sólida. Sem um compromisso com os princípios de geração de evidências adequadas que levaram a tanto progresso médico, nunca poderemos ver a terapia com células-tronco atingir seu potencial máximo”. E aí o texto continua (Leia a íntegra).

 

Apesar da falta de provas científicas de que injetar células-tronco no joelho de pacientes com osteoartrite seja eficaz, muitas clínicas brasileiras tem oferecido este tipo de tratamento. E cobram caro! Como o tratamento ainda é considerado experimental pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) (2), o SUS e os convênios não oferecem o tratamento. Só pagando particular.

 

A Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ), preocupada com o crescente abuso nos consultórios, fez uma consulta formal a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) sobre a autorização ou proibição desta prática (3). A ANVISA esclareceu que não tem poder de controlar as terapêuticas prescritas pelos médicos, já que isso é atribuição do CFM, mas que fiscaliza e regula os laboratórios onde as células-tronco são cultivadas.  Por lei, somente uma rede de laboratórios cadastrados pode fazer a cultura das células-tronco. As células só podem ser fornecidas para uso em protocolos de pesquisa registrados em um dos Comitês de Ética credenciados. No Brasil, você não pode ser cobrado para entrar em uma pesquisa. Na verdade, você não pode sequer ter nenhum tipo de prejuízo financeiro. Logo, como essas clínicas obtêm as células-tronco e cobram pela aplicação é um grande mistério.

 

Mas qual o problema? Se o joelho é meu e o dinheiro é meu, o que tem de errado nisso?

Problema 1

A eficácia não é comprovada. Isso significa que talvez você pague por nada e continue com dor. Sabemos que muitos tratamentos funcionam apenas pelo EFEITO PLACEBO. Então talvez você sinta melhora. Ou talvez o tratamento funcione de verdade, não sabemos até o momento.

Problema 2

A segurança não é comprovada. A quantidade de pessoas que já usou este tipo de tratamento é muito pequena. Com o aumento, as complicações vão começar a aparecer. Mas calma! As células-tronco já são aprovadas para uso em algumas doenças hematológicas, como a leucemia, sem grandes complicações.

Problema 3

Quem disse que o que está sendo aplicado são células-tronco? Talvez você esteja comprando “gato-por-lebre”. Como já dito, de que laboratório estas células estão vindo? O que alguns médicos fazem é colher medula óssea ou gordura do próprio paciente e injetar direto na articulação, sem mandar para um laboratório. Obviamente, a quantidade de células-tronco neste material é muito, muito, mas muito pequena!!! O que tem é um monte de outras células junto.

Problema 4

O tratamento correto pode deixar de ser feito. Essa sim é a complicação que mais me assusta. Não são todos os casos que tem indicação de terapia celular. Existem casos graves de artrose, com deformidade e perda de movimento, que infelizmente perderam o tempo correto para as células-tronco. Elas precisam ser usadas em fases iniciais da doença, quando o doente ainda tem os movimentos, a perna não ficou torta e o osso ainda não afundou. Depois que isso já aconteceu, aí só mesmo uma prótese metálica resolve o caso. Já vi casos de filhos desesperados, querendo uma segunda opinião, porque o pai estava com artrose em último estágio. O doutor receitou um orçamento caríssimo para injeção de células-tronco. A família desconfiou. Fizemos as próteses e os pacientes estão muito satisfeitos.

 

Mas, se você pensa que eu sou um defensor das próteses metálicas, está muito enganado. Tanto meu mestrado quanto meu doutorado foram feitos com pesquisas com técnicas para evitar a necessidade das próteses (4, 5). Incluindo as células-tronco. O que precisamos é saber como usar corretamente esse recurso e saber se realmente é eficaz. Para isso, a UNICAMP está solicitando a autorização do Comitê de Ética para iniciar um estudo clínico sério. Esperamos poder conseguir finalmente uma resposta confiável para esse problema.

 

Referências:

1) http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1613723

2)http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20947%3Acamara-tecnica-alerta-para-uso-de-celulas-troncos-em-tratamentos&catid=3&Itemid=82

3)http://www.sbcj.org.br/?noticias&id=1145

4)https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21128980

5)https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26569221

 

Imagem: www.fotolia.com

 

 

 

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

2 thoughts on “Células-Tronco: quem disse que funciona?

  • 13 de janeiro de 2021 em 01:15
    Permalink

    tenho o joelho varo gostaria de um medico cirurgião e saber se pode colocar placa de titaneo .sou residente do rio de janeiro.

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    • 17 de janeiro de 2021 em 18:01
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      Ola Maria, entre no site http://www.sbcj.org.br e veja quais são os cirurgiões de joelho credenciados na Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho que atendem na sua cidade.

      Resposta

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