Artrose: pesquisa identifica correlação entre dor e pensamentos negativos

Artrose: pesquisa identifica correlação entre dor e pensamentos negativos

Pesquisador da Unicamp apresenta estudo sobre fatores psicossociais envolvidos com a dor da artrose, em congresso internacional no Canadá. A artrose, também conhecida como osteoartrite ou osteoartrose, é a principal causa de dor articular crônica em pessoas adultas. O joelho é a articulação mais frequentemente acometida.

Embora essa doença seja conhecida desde o início do século XX, quando o termo “osteoarthritis” surgiu na língua inglesa, a causa da doença ainda é desconhecida. Da mesma forma, o mecanismo fisiopatológico que gera a dor nessa condição ainda não é completamente compreendido. Isso tem dificultado sobremaneira o surgimento de novos tratamentos inovadores para esta doença.

Inicialmente, pensou-se que a artrose seria um desgaste da cartilagem. Esse desgaste iria progressivamente se agravando com o envelhecimento e levando a alterações do osso subcondral, a parte do osso logo abaixo da cartilagem. Esse modelo “condrocentrista” começou a ruir quando foram publicados estudos mostrando que não há correlação entre a gravidade do desgaste e a dor que o paciente sente. Ou seja, pessoas com desgaste acentuado podem ter pouca dor e pessoas com quase nenhum desgaste podem sofrer dores intensas. Mesmo após a realização de uma cirurgia de substituição por prótese do joelho, cerca de 20% dos pacientes podem continuar a ter dor.

Hoje os pesquisadores buscam entender melhor a causa da dor na artrose. Já está claro que só o dano tecidual intra-articular não é suficiente para explicar a intensidade da dor. Com isso, mecanismos inflamatórios, metabólicos, neurológicos e psicossociais tem sido propostos. Leia também a matéria “Entendendo a dor da artrose“.

No Hospital das Clínicas da UNICAMP, um grupo de pesquisadores tem se dedicado a entender os fenômenos envolvidos nesse tipo de dor crônica, que é um problema de saúde pública mundial. Só no HC Unicamp, mais de 200 pacientes aguardam tratamento cirúrgico para casos graves de artrose no joelho.

Uma pesquisa recém concluída mostrou que a “catastrofização” está associada com a intensidade da dor em pacientes com artrose do joelho. Os resultados foram apresentados pelo Dr Gustavo Constantino Campos, médico ortopedista e pesquisador, no Congresso Mundial da OARSI (OsteoArthritis Research Society International), a principal sociedade internacional dedicada ao estudo da artrose (Figura 1). Os resultados do trabalho foram apresentados e publicados nos anais do congresso, na revista Osteoarthritis and Cartilage (Figura 2).

Figura 1: Congresso Mundial da OARSI em Toronto no Canadá.

 

 

Figura 2: suplemento de Abril da revista Osteoarthritis and Cartilage.

 

O título da apresentação foi 

Correlation between catastrophizing and pain in knee osteoarthritis patients

 

Na pesquisa, 53 participantes responderam a vários questionários. Um deles, chamado PRSS (Pain-Related Self-Statements Scale) foi especialmente criado e validado para quantificar uma condição chamada CATASTROFIZAÇÃO. 

 

O termo catastrofização foi formalmente introduzido por Albert Ellis em 1962 e posteriormente adaptado por Aaron Beck em 1979, para descrever um estilo cognitivo mal adaptativo, empregado por pacientes com transtornos ansiosos e depressivos. No centro de suas definições de catastrofização estava o conceito de um prognóstico irracionalmente negativo de eventos futuros. Da mesma forma, a catastrofização relacionada à dor é amplamente concebida como um conjunto de esquemas cognitivos e emocionais exagerados e negativos, utilizados durante a estimulação dolorosa real ou antecipada (referencia 1). 

 

Referencia 1: Quartana PJ, Campbell CM, Edwards RR. Pain catastrophizing: a critical review. Expert Rev Neurother. 2009 May;9(5):745-58. doi: 10.1586/ern.09.34. PubMed PMID: 19402782; PubMed Central PMCID: PMC2696024.

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

4 thoughts on “Artrose: pesquisa identifica correlação entre dor e pensamentos negativos

  1. Bom dia!
    Uma vez constatada a catastrofização como tratá-la? Seria por meio de psicanálise?
    Pergunto porque sofro há anos de artrose nos joelhos, o que causa enorme desconforto, com muita dor.
    Grata.

    1. Oi Cládia, sim. Caso o médico tenha a suspeita, deverá encaminhar o paciente para um profissional especializado em saúde mental.

  2. Olá, Dr Alessandro!
    Sou acadêmico de medicina da UNICAMP e achei muito interessante esta identificação, pois tenho artrose no joelho esquerdo e somente sinto dor, durante os treinos de futebol, quando tenho determinadas emoções, principalmente quando estou com medo de me lesionar.
    Procurarei alguns artigos sobre a catastrofização e, principalmente, sobre essa correlação existente.
    Ainda sobre isso, é interessante salientar a possibilidade da ocorrência de labilidade emocional em pacientes que realizam a ingestão diária de anti-inflamatórios, que poderia, ao invés de diminuir a dor, pelo efeito anti-inflamatório, aumentar a dor, por alterar as emoções do paciente.
    Caso seja possível, gostaria de saber como, e se, o fortalecimento muscular confere um melhor prognóstico para pacientes com artrose no joelho.
    Grato.

    1. OLÁ JEFERSON, muito interessante sua colocação sobre o anti-inflamatório. Pesquisar alteraçoes do humor em usuários e não usuários pode ser tema até de um estudo clínico randomizado. Parabéns pela perspicácia. Quanto ao exercício físico, sim. Já existe bastante literatura corroborando o benefício do exercício físico para quem tem artrose. Inclusive o guideline da OARSI preconiza o tripé educação + exercício físico + perda de peso como o núcleo central do tratamento da artrose.

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