ENTENDENDO A DOR DA ARTROSE

Pesquisa realizada no Hospital de Clínicas da UNICAMP ajuda a entender porque a ARTROSE causa tanta dor nas articulações. A pesquisa foi realizada pelas fisioterapeutas Amanda Machado Antonio e Thainá Cristina Vieira Gaspardi.

A ARTROSE é a principal causa de dor articular em adultos. Sua prevalência aumenta conforme o envelhecimento. Lesões traumáticas da cartilagem em indivíduos jovens constituem um importante fator de risco para a doença.

O aumento da prevalência de obesidade, o envelhecimento da população e o aumento de traumas articulares relacionados com a prática de esportes e com acidentes de trânsito, permitem prever um aumento significativo da incidência de ARTROSE no futuro breve.

Ainda não existe cura para ARTROSE. Os tratamentos são todos paliativos, baseados em 3 grandes grupos:

  1. educação e mudanças de estilo de vida;
  2. exercícios e fisioterapia;
  3. medicamentos diversos.

Casos refratários e muito graves podem ter benefício com algumas técnicas cirúrgicas: artroscopia, osteotomias e a substituição das articulações por próteses metálicas.

 

Uma das maiores dificuldades no tratamento da ARTROSE é a dificuldade para entender a causa da dor.

 

As lesões teciduais, como perda de cartilagem e esclerose (endurecimento) do osso subcondral são importantes, mas não são as únicas causas de dor. Recentemente a inflamação e alterações neurológicas tanto centrais (cérebro e medula) quanto periféricas (nervos e músculos) estão tendo sua importância cada vez mais valorizada.

Esta pode ser a razão para a desconexão entre a extensão do dano estrutural (observada principalmente pelo exame de RX) e a dor. Existem pacientes com muita dor e Rx com poucas alterações, enquanto existem doentes com Rx grave com pouca dor. A ocorrência de alterações neuroplásticas no sistema nervoso periférico e central, resultando em uma sensibilização à dor, pode ser a explicação.

Dentre as alterações do sistema nervoso periférico, a SÍNDROME DA DOR MIOFASCIAL tem sido objeto de pesquisas. Trataremos disso numa próxima matéria. Esta síndrome ocorre pela presença de PONTOS-GATILHO nos músculos. PONTOS-GATILHO são nódulos endurecidos, dolorosos, muitas vezes agrupados em cordões dentro dos músculos. São os tais “nós” que se formam dentro dos músculos. São classificados em ATIVOS quando causam dor irradiada, a distância da sua localização, ou LATENTES, quando só apresentam dor a palpação. Os LATENTES podem contribuir para a perda de flexibilidade muscular e limitação de movimentos.

A pesquisa realizada no HC da UNICAMP analisou pacientes com ARTROSE grave dos joelhos, que estão na lista de espera para realizar a cirurgia de PRÓTESE DE JOELHO. As pesquisadoras encontraram PONTOS-GATILHO nos músculos de todos os pacientes examinados. O músculo mais frequentemente acometido foi o Adutor da Coxa, que fica na parte interna da coxa. Tanto nos pacientes com deformidade em varo (joelho torto para fora) quanto nos com joelho valgo (joelho torto para dentro, ou joelho em X).

Músculos adutor longo e adutor curto da coxa, com a área de irradiação da dor ilustrada em azul.

 

Agulhamento seco. Técnica que utiliza agulhas parecidas com a de acupuntura para inativar os pontos-gatilho.

Na sequencia, as pesquisadoras realizaram um tratamento para inativar PONTOS-GATILHO, chamado AGULHAMENTO SECO. Uma agulha, parecida com a de acupuntura, é introduzida no nódulo para que ele desapareça. Pacientes que fizeram a terapia com o AGULHAMENTO SECO tiveram resultados melhores que os pacientes do grupo controle, que realizaram somente agulhamento.

Este achado chama a atenção novas abordagens possíveis para aliviar a dor dos doentes que tem ARTROSE. No futuro, talvez novas terapias para inativação de pontos-gatilho possam ajudar a reduzir a necessidade de cirurgias.

Os resultados da pesquisa foram apresentados como Trabalho de Conclusão de Curso e estão sendo encaminhados para publicação em revista científica.

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

8 thoughts on “ENTENDENDO A DOR DA ARTROSE

  • 1 de abril de 2019 em 11:13
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    Bom dia,
    qual a diferença entre a acupuntura e o agulhamento seco?
    meus joelhos estão um problema p agachar, a ressonância mostra meniscos comprometidos, artrose na patela,….
    Onde surgiriam com maior frequência os nódulos?
    É possível desfazer- los por pressão com bolinhas, por ex?

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    • 14 de junho de 2019 em 09:07
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      Olá Aldo, as duas técnicas são muito parecidas no sentido do uso da agulha. A grande diferença é onde colocar a agulha. A acupuntura se baseia o conceito oriental de meridianos e a escolha do local do agulhamento é feita com base na localização dos meridianos. Já o agulhamento seco é baseado na teoria dos pontos-gatilho miofasciais, um conceito ocidental. A agulha é aplicada no ponto-gatilho. Nesse estudo específico, os locais mais frequentes foram o músculo adutor da coxa e o músculo gastrocnêmio medial da panturrilha. Isso não significa que você tenha pontos-gatilho nestes locais. Precisa ser examinado para localizar os pontos. A pressão com massagem e com bolinhas pode ser tão eficaz quanto o agulhamento.

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  • 5 de abril de 2019 em 09:52
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    ótima reportagem e um trabalho que vislumbra uma alternativa eficiente para minimizar ou até sanar uma enfermidade que causa angustias profundas nos pacientes.
    Quem orientou o trabalho e quem são as alunas envolvidas?

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  • 10 de maio de 2019 em 07:05
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    Excelente matéria. Parabéns.

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  • Pingback: Nova pesquisa identifica correlação entre dor e pensamento - FÊMUR DISTAL

  • 3 de junho de 2019 em 15:10
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    Dr,existe aqui uma postagem sua sobre a artroplastia? Gostaria de saber exatamente o que me espera pois tenho indicação para o procedimento. Obrigada.

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  • 26 de setembro de 2019 em 19:23
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    gostaria de saber em relação a infiltração com ácido hialurônico pra tratamento de condromalácia?

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