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A revista Super Interessante desse mês tem uma excelente matéria sobre a história da infância. A infância, enquanto fase da vida em que se protege e ensina, surgiu na Era Moderna da História, junto com a ascensão da burguesia. Hoje, porém, mais de um século depois da proibição do trabalho infantil, as crianças continuam a ser exploradas – e não só nos semáforos.

As crianças pobres são tão exploradas por seus pais que já se tornam até invisíveis. Mas as crianças ricas também sofrem nas mãos de seus próprios pais. A diferença está no cenário. Meninas ricas, por exemplo, sofrem nas passarelas de concursos de beleza infantil. Só nos Estados Unidos, esse tipo de evento movimenta US$ 1 bilhão [fonte]. Esses eventos se tornam cada  vez mais comuns em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Isso tudo pra mim não deixa de ser uma forma mais sutil de pedofilia – e mesmo um incentivo indireto a essa prática nojenta e hedionda. Mas só por ser sutil, isso não significa que seja um atentado menos grave contra as crianças.

Esse Império da Beleza (e da Magreza) em que vivemos hoje se parece muito com uma religião "moderna" que busca incutir desde cedo nas crianças valores moralmente perigosos como beleza física, frivolidade ("Barbie-Girls"), ignorância ("ignorance is bliss"), indiferença, individualismo, consumismo e – por que não – desumanidade.

De que vai nos adiantar ter, em breve, a mais bela geração humana de todos os tempos se as futuras beldades forem pessoas infelizes, deprimidas, consumistas e arrogantes? Não vai ser nossa beleza – ou a de nossos filhos – que vai nos salvar do aquecimento global ou que vai garantir a "paz mundial" (bordão vazio dos discursos de misses que nem sabem do que falam).

Para piorar, sempre se explora cada vez mais cedo a beleza feminina. As mulheres conseguiram conquistar importantes posições no mercado de trabalho e até mesmo alcançar cargos importantes em governos de muitos países.

Ironicamente, porém, parece que elas ainda não se livraram completamente da cultura machista na qual foram criadas e educadas – e contra a qual lutaram há poucas décadas. Tenho certeza que entre as mães (ou talvez até avós) dessas meninas deve haver alguém que queimou sutiãs nos anos 60.

Agora as (ex-)feministas exploram aquilo que tanto criticavam – a beleza da mulher-objeto. Ou melhor, das meninas-objeto.

Quanto aos meninos, não deixa de ser notável a exploração cada vez maior nas áreas esportiva ou musical – Michael Jackson que o diga. Jogadores de futebol – cada vez mais jovens – são vendidos como se fossem mercadorias. Eles podem até receber salários depois, mas isso não deixa de ser uma forma velada e "socialmente aceitável" de escravidão e de tráfico de seres humanos.

Não há nada mais triste do que uma criança sem espontaneidade e alegria. É uma verdadeira castração psicológica de comportamentos absolutamente naturais. Uma criança séria e cobrada o tempo todo não é uma criança. Mais tarde, quando crescer, certamente vai tentar voltar à infância perdida, com resultados que podem ser tão bizarros quanto esses concursos de beleza infantil.

E tudo isso é feito em nome de fama e fortuna ou como forma de projetar nas crianças as frustações da infância dos pais, tudo aquilo que eles queriam e não tiveram (ou não puderam ter porque também foram explorados pelos seus pais). Essas crianças-sem-infância vão passar o quê para seus filhos?

As crianças já são seres frágeis por não ter condição de expressar adequadamente suas vontades próprias. Elas não conhecem o mundo, não sabem o que é exploração. Não são capazes de diferenciar fantasia de realidade. São ingênuas, enfim. Mas um dia a fantasia acaba e o final pode ser trágico.

E mesmo com uma expectativa de vida cada vez maior, a infância não está se alongando. Mas faz-se de tudo para alongar a adolescência, até mesmo rouba-se espaço da infância. Passa-se cada vez mais cedo para uma tal de "pré-adolescência", como se a infância fosse a fase mais vergonhosa da vida humana.

Somente quando criança o ser humano é verdadeiramente livre – livre de dogmas, de preconceitos, de obrigações econômicas e políticas. Livre, enfim, para ser como verdadeiramente é e para ser como todos são. Por que cada um de nós é único, mas também somos todos iguais. Ou pelo menos é assim que as coisas deveriam ser.


0 comentário

Carlos Felipe Figueiras · 13 de agosto de 2009 às 16:38

>Quanto a isso vale citar o filme "Little miss sunshine" onde a história gira em torno da participação da personagem principal num desses concursos mirins de proto-putas.O filme é excelente, e foca os conflitos da família que decide viajar junta de carro até o concurso.

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