Depois de lançar com sucesso seu primeiro satélite espacial, o Sputnik, a União Soviética parecia estar pronta a dominar o mundo. Enquanto isso, os Estados Unidos estavam apenas começando a esboçar uma reação. Em 1958, foram criadas a NASA e a ARPA. No ano seguinte, a relação entre essas duas entidades ainda era confusa. Impaciente, o governo americano já havia percebido que precisava definir bem os papéis para ter suas próprias surpresas tecnológicas. Outro problema: não importava o quanto fosse investido na expansão tecnológica, ela parecia inadequada.

Arthur Obermayer trabalhava na Allied Research Associates, empresa da MIT dedicada ao estudo dos efeitos de armas nucleares em estruturas aeronáuticas. A firma estava envolvida num dos primeiros projetos da ARPA, o GLIPAR (Guide Line Identification Program for Antimissile Research) [pdf]  e precisava de muita criatividade para ajudar a projetar um sistema de defesa com mísseis balísticos. O governo americano queria que todos os envolvidos fossem estimulados a “pensar fora da caixa”. Mas como fazer isso?

Obermayer sugeriu o nome da pessoa mais criativa que conhecia: Isaac Asimov.

Isaac-Asimov

Quando me tornei envolvido no projeto, sugeri que Isaac Asimov, que era um bom amigo meu, seria a pessoa mais adequada a participar. Ele expressou seu interesse e apareceu em algumas reuniões. Eventualmente, decidiu não continuar, porque ele não queria ter acesso a qualquer informação classificada, que limitaria sua liberdade de expressão. Antes de sair, porém, ele escreveu um ensaio sobre criatividade como sua única contribuição formal. O ensaio nunca foi publicado ou usado além do nosso pequeno grupo. Quando o redescobri recentemente, ao limpar alguns velhos arquivos, reconheci que seu conteúdo continua tão relevante hoje como quando foi escrito. Ele descreve não apenas o processo criativo e a natureza das pessoas criativas, mas também o tipo de ambiente que promove a criatividade.

Junto a esse esclarecimento, Obermayer publicou na íntegra o ensaio de Asimov na MIT Technology Review em 20 de outubro. No ensaio, Asimov analisa como e porque uma ideia nova surge na ciência. Para isso, toma como exemplo a descoberta da evolução por seleção natural feita independentemente por Charles Darwin e Alfred Wallace. Para o prolífico autor de ficção científica, “o que se precisa não é apenas de pessoas com um bom background numa área em particular, mas de pessoas capazes de fazer a conexão entre o item 1 e o item 2, que, de ordinário, podem não parecer conectados.” Tais pessoas devem ser capazes de fazer a “conexão cruzada” inédita.

E isso exige gente cheia de excentricidade e muita autossegurança, já que “em geral, o mundo desaprova a criatividade e ser criativo em público é particularmente ruim. Até especular em público é algo aborrecedor.” O grande problema, para Asimov, é como reunir essas pessoas. Já em 1959, ele sugere muito do que se pratica nas empresas de alta tecnologia de hoje: ambiente informal, pouca responsabilidade e até mesmo uma forma diferente de remuneração. “Fazer alguém sentir-se culpado por não ter recebido um salário por não ter conseguido uma grande ideia é — me parece — a maneira mais certa de assegurar que nenhuma grande ideia vai aparecer.”

Uma tradução integral do artigo, feita por este que vos escreve, pode ser lida a seguir.

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NOTA DO TRADUTOR (29/10):
ERRATA: Cometi um pequeno deslize e engoli o verbo “informar” durante a digitação do quarto parágrafo, segunda linha, p. 2. Portanto, a leitura correta do trecho indicado deve ser: “[…] ou deveria informar cada uma do problema […]“. Agradeço ao leitor Anderson Arndt por ter chamado minha atenção para esse erro através de comentário.
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Sobre a Criatividade (Isaac Asimov).pdf by rntpincelli


0 comentário

Anderson Arndt · 29 de outubro de 2014 às 8:27

Ótimo texto do Asimov e obrigado por traduzir para mais gente ter acesso. Mas ali na segunda página, no quarto parágrafo, segunda linha, acho que falta alguma palavra “… ou deveria cada uma do problema”.

Abraço

    Renato Pincelli · 29 de outubro de 2014 às 19:04

    Realmente, Anderson. Cometi um pequeno deslize e engoli o verbo “informar” durante a digitação. Portanto, a leitura correta do trecho indicado deve ser: “[…] ou deveria informar cada uma do problema […]”.

    Grato pela revisão,
    Renato Pincelli

Relatório Asimov sobre a Criatividade (1959) | · 4 de novembro de 2014 às 18:00

[…] Fonte: ScienceBlogs  […]

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