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A chave-de-fenda-sônica do Doutor não funciona em madeira, o Super-Homem enfraquece diante da kriptonita, o Homem de Ferro tem problemas cardíacos, o Batman é uma criança traumatizada e as teias do Homem-Aranha não são lá muito úteis longe dos arranha-céus nova-iorquinos. No mundo dos vírus, o super-herói é o Ebola (EBOV), que também tem um ponto fraco.

O problema, para nós, é que o ponto fraco do EBOV não é tão óbvio quanto o dos protagonistas das histórias em quadrinhos. Há quarenta anos os cientistas lutam para encontrar o calcanhar de Aquiles desse vilão implacável. Em 30 episódios, o Ebola já matou centenas de milhares de pessoas. Na última epidemia — a mais grave, registrada na África Ocidental entre 2014 e 2015 —, redobraram-se os esforços de pesquisa diante de uma ameça potencialmente global.

Os resultados dessa maratona de pesquisas começam a aparecer. Cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, encontraram uma possível vulnerabilidade do EBOV: seu bolso.

Ebola-Zaire

Como se pode ver acima, vírus nada mais são que um novelo minúsculo de proteínas e material genético, que só fazem estrago quando conseguem entrar dentro das células. Foi nessa etapa de entrada que os pesquisadores de Oxford buscaram pistas. O Ebola não tem um pé para derrubar as portas das células, nem uma bazuca: usa uma espécie de cola chamada glicoproteína. Essa arma do EBOV já era conhecida, mas agora a glicoproteína pôde ser observada em alta resolução.

No bolso dói mais

Em artigo publicado em 07/07 na Nature, Yuguang Zhao et al. descrevem os detalhes dessa glicoproteína, formada por duas sub-unidades — GP-1 e GP-2. Na cola do Ebola, os pesquisadores encontraram algo interessante: a junção entre GP-1 e GP-2 não é perfeita e é aí que pode estar o ponto fraco do EBOV. Zhao e seus colegas observaram uma dobra ou bolso nessa junção. O que aconteceria se esse bolso fosse preenchido?

Teoricamente, o preenchimento desse bolso afetaria o mecanismo de ação da glicoproteína, dificultando ou impedindo a entrada do EBOV numa célula. Surpreendentemente, os pesquisadores logo descobriram em testes feitos com ratos que esse bolso poderia ser preenchido com duas drogas já disponíveis no mercado. Uma é o toremifeno, já usado em coquetéis de quimioterapia. A outra droga, porém, é ainda mais comum: trata-se do anti-inflamatório e analgésico ibuprofeno.

As moléculas desses dois medicamentos encaixaram-se no bolso da glicoproteína do vírus Ebola, neutralizando sua virulência. Como já são drogas conhecidas e testadas em humanos, os cientistas vão poder pular algumas etapas da pesquisa. Ainda assim mais estudos serão necessários. O próximo passo é tentar replicar esse efeito em macacos, que têm um sistema imune bem mais parecido com o nosso. Mesmo que esse tratamento não seja bem-sucedido em humanos, ele aponta um caminho promissor pois o Ebola tem um ponto fraco. Só falta saber como colocá-lo no bolso.

Referência

rb2_large_gray25Yuguang Zhao et al. Toremifene interacts with and destabilizes the Ebola virus glycoprotein [Toremifeno interage com e desestabiliza a glicoproteína do vírus Ebola]. Nature 535, 169–172 (07 July 2016). DOI: 10.1038/nature18615


0 comentário

igor · 27 de julho de 2016 às 23:56

Sobre Pesquisa científica:
A bastante tempo conheço e colaboro com o projeto World Community Grid, onde é usado processamento ocioso do computador para pesquisa como Ebola, Tuberculose, e recentemente Zika.

Gostaria de saber se você já conhecia esse projeto e se ele tem resultados reais. Porque é algo tão fácil das pessoas ajudarem, e teoricamente pode ajudar bastante, mas ninguém fala disso.

    Renato Pincelli · 29 de julho de 2016 às 20:47

    Oi, Igor

    Já conhecia o projeto e infelizmente ele recebe bem menos atenção do que merece. No entanto, uma rápida pesquisa na Wikipédia em inglês revela a existência de resultados já publicados em forma de paper nas áreas como o combate ao câncer infantil (como a descoberta de sete compostos que atacam o neuroblastoma com poucos efeitos colaterais), a malária (foram encontradas moléculas efetivas contra essa e outras doenças) e a dengue (foi descoberto e está sendo testado um composto antiviral que também funciona para febre do Nilo). As referências dessas pesquisas encontram-se na página sobre o World Community Grid.

    Obrigado pela sua pergunta, Igor. 🙂

igor · 30 de julho de 2016 às 8:50

Renato,

Gostaria de ver o Scienceblogs e Sciencevlogs divulgado esse projeto.
No WCG é possível criar Times, dá para fazer o time Scienceblogs lá, e os seguidores do site e canal se juntam para competir com os outros times, é tipo um competição saudável.
Tudo que esse projeto precisa é mais divulgação, ele não está chegando no publico geral.
Se um grande canal engajar os seguidores a entrar na “competição” as pesquisas vão terminar incrivelmente mais rápido.

O maior time é de 20 mil, isso é uma piada se os brasileiros entrarem na “Disputa”, Canais como Pirulla, Nerdologia ou do Jovem Nerd se eles divulgarem, 1 milhão de novos membros só de brasileiros. Isso porque o valor atual de membros é de 718 mil no mundo todo (Isso não é nada).

O brasileiro é engajado pra caramba, só o que é preciso é um empurrãozinho.

Abraços

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