Entrevista com Noam Chomsky

Poster da conferência de Noam Chomsky no IEL #ParaCegoVer

Paulo Ângelo Araújo-Adriano & Williane Corôa

O pai da linguística moderna proferiu – via videoconferência ocorrida em 04 de setembro de 2018 – o colóquio intitulado The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language, título do seu último paper publicado na Journal of Physics (2017).

Para saber mais sobre Chomsky e sua importância para a Linguística, leia o post de introdução aqui.

Para ler a entrevista original, em inglês, clique aqui.

Abaixo, trazemos a tradução das perguntas e respostas que foram feitas durante o Colóquio de Chomsky no ForMA, mas que não foram respondidas naquele espaço, por falta de tempo. O que ainda surpreende em Chomsky, mesmo depois de ter modificado radicalmente o modo de se pensar sobre a linguagem, é sua constante indagação sobre o quão óptimo está o seu modelo para a linguagem, marcado até mesmo pela sua última ‘fala’ em The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language: “quanto mais nós aprendemos, mais descobrimos o que não sabemos”.

* Agradecemos ao Antonio Codina pela revisão da tradução das perguntas e respostas.

ForMA: O que você acha da atual fase da Gramática Gerativa como abordagem para o desafio de Galileu? Precisa-se de um salto qualitativo como aqueles indo da Gramática Transformacional para a GB e depois para o PM?

Chomsky: Os trabalhos contemporâneos abordam apenas uma parte do desafio: a tarefa de explicar a capacidade humana única de criar um conjunto ilimitado de expressões estruturadas interpretadas como pensamentos, e os meios pelos quais elas são externalizadas (na verdade, muito raramente). Mas a outra parte do desafio tem a ver com o uso dessa capacidade: o que tem sido chamado de “aspecto criativo do uso da linguagem” – repito: “uso”. Ou seja, a habilidade de usar a linguagem de uma maneira que possamos ser “incitados e inclinados” a fazer a depender das circunstâncias, embora não sejamos “obrigados” e possamos fazer o contrário – a habilidade de usar a linguagem em maneiras que sejam apropriadas às circunstâncias, mas não causadas por elas, isso é uma distinção fundamental. Essas estavam entre as principais preocupações que levaram Descartes a postular uma segunda substância, res cogitans. Às vezes, os comentaristas agora citam o aforismo de Humboldt sobre a linguagem envolvendo o “uso infinito de meios finitos” – normalmente ignorando o fato de que ele estava se referindo ao uso. Essa lacuna na compreensão não é, claro, específica ao estudo da linguagem. Praticamente nada é compreendido como uma ação voluntária mesmo em casos muito mais simples, como a decisão de levantar o dedo, assuntos que, muitas vezes, não são devidamente reconhecidos.

Para a tarefa específica e suficientemente impressionante e significante de explicar a capacidade de gerar pensamentos, o programa minimalista me parece formular os objetivos mais abrangentes que podemos esperar atingir, e, nos últimos tempos, eu acho, houve progresso substancial em estabelecer a plausibilidade da “tese minimalista forte”, uma ideia que parecia estranha não muito tempo atrás. Há aproximadamente 20 anos, eu proferi algumas palestras sobre linguagem em Brasília, organizadas pela Lucia Lobato, que eu acho que foram publicadas no Brasil na época. Nelas, eu especulei que poderíamos descobrir algum dia que a linguagem é como um floco de neve, ou seja, assumindo sua forma pelo que equivale às leis da natureza no modo mais simples possível. Para colocar isso de forma pitoresca, podemos descobrir que a linguagem é “projetada” para ser bela mas não aproveitável – mais prosaicamente, que favorece a eficiência computacional sobre a eficiência comunicativa. Eu acho que já temos condições de fornecer evidências interessantes para essas especulações. Há, claro, grandes desafios pela frente, entre eles mostrar que a aparente variedade e diversidade de línguas é apenas superficial, tendo principalmente mais a ver com questões de externalização, ou seja, com o esforço para interligar os dois sistemas não relacionados, a linguagem verdadeira (língua-I) e o sistema sensório-motor (e claro, a escolha lexical arbitrária).

ForMA: Como a linguagem obteve sua contraparte fonética se ela evoluiu principalmente como uma ferramenta cognitiva?

Chomsky: Há um trabalho muito interessante sobre isso escrito por Riny Huijbregts (“Clic Phonemes, the emergence of language, and the mapping asymetry”; https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28161511). Sabe-se, a partir de estudos genômicos, que o povo San se separou dos outros Homo Sapiens por volta de 125.000 anos atrás, portanto não muito depois que a espécie apareceu (cerca de 200,000 anos atrás). Não há evidências para linguagem; na verdade comportamento simbólico em geral, antes daquela época. Eles compartilham a capacidade geral humana da linguagem, mas seu sistema de externalização é interessantemente diferente. Huijbregts mostra convincentemente que suas linguagens são as únicas que usam cliques (com exceção que ele efetivamente rejeita). A conclusão plausível do autor é que a capacidade da linguagem – pensamentos gerando a língua-I – emergiu praticamente junto com o Homo Sapiens, mas que a externalização ocorreu somente algum tempo mais tarde, depois da separação, e de maneiras um pouco diferentes. Essas conclusões corroboram argumentos independentes semelhantes que Robert Berwick e eu demos. Como a externalização se desenvolveu, não temos ideia, mas não é surpreendente que se um número suficiente de pessoas nos pequenos grupos de humanos que existiam na época compartilhassem a mesma capacidade da linguagem interna, essas pessoas teriam encontrado meios para relacioná-la, de alguma forma aos sistemas sensório-motores que existiam muito antes de modo que pudessem compartilhar seus pensamentos com outros.

ForMA: O que você pensa sobre descrever a FLN [Faculdade da linguagem no sentido estreito] /FLB [Faculdade da linguagem no sentido amplo] em termos neurobiológicos? Isso é fundamental para o Programa Minimalista? É um desafio?

Chomsky: Descobrir a base neural para a linguagem pressupõe desafios enormes . Isso é verdade, de fato, mesmo para casos muito mais simples: por exemplo, encontrar a base neural para as extraordinárias capacidades de navegação dos insetos (que vão muito além das nossas). E o estudo da linguagem coloca problemas únicos porque é biologicamente isolada. Nós não aprendemos quase nada sobre a FLN a partir de trabalhos comparativos. Sabemos muito sobre a base neural para o sistema visual, com experimentos invasivos com gatos e macacos, que têm sistemas visuais muito parecidos com os nossos, mas não há outros organismos com alguma coisa parecida com a faculdade da linguagem, logo não há trabalhos comparativos dessa natureza.

ForMA: Se a linguagem é um sistema do pensamento, não relacionado com a comunicação, a comunicação seria apenas uma função corporal desse sistema particular?

Chomsky: Eu acho que a frase “não relacionada com a comunicação” é forte demais. Certamente, a linguagem é usada para comunicação, na verdade é de longe o sistema mais rico que temos para a comunicação. A conclusão significante que eu acho que está ficando cada vez mais estabelecida empiricamente é que a externalização, relacionando linguagem (-I) interna a algum sistema sensório-motor é um processo auxiliar, e que as exigências da comunicação não parecem fazer parte da evolução ou da natureza básica da língua-I, de modo que usos específicos da linguagem externalizada, como a comunicação, seriam também propriedades secundárias da linguagem. Eu não tenho certeza qual foi a intenção da expressão “função corporal”. Eu não vejo nenhum motivo para questionar a tese de John Locke, segundo a qual processos mentais são aspectos de alguma forma de matéria organizada, em particular o cérebro, portanto “corporal” no sentido amplo do termo.

ForMA: Devemos considerar literalmente que o aparelho linguístico da mente gera sentenças sem limites ao invés de ser ativado apenas quando queremos dizer alguma coisa?

Chomsky: Essas coisas não devem ser consideradas como alternativas, se o termo “gerar” for devidamente compreendido. Considere o caso mais simples da aritmética. Algum componente finito da nossa mente/cérebro – chamemo-la de competência aritmética CA – determina as propriedades dos números naturais, digamos os triplos (x, y, z), tal que z é o produto de x e y, para inteiros arbitrários x e y. Em termos técnicos, CA gera esse conjunto infinito (e muitos outros). Mas o ato de gerar é diferente do processo de multiplicar x e y (que pode produzir uma resposta errada, na prática). O mesmo ocorre com a linguagem. A língua-I gera um conjunto infinito de expressões internas, interpretadas como pensamentos, e às vezes externalizados como enunciados. E quando a língua-I é ativada ela pode produzir enunciados (e interpretar o que nós compreendemos).

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