Noam Chomsky e o funcionamento da linguagem: menos é mais!

Foto de Augusto Starita / Ministerio de Cultura de la Nación - Argentina

Texto de Paulo Ângelo Araújo-Adriano & Williane Corôa

Como aprendemos uma língua? A grande pergunta de Noam Chomsky

Demonstração das instruções recebidas pelo escravo de Ménon no diálogo. (wikimedia commons)

Você provavelmente já passou anos lendo livros ou tendo aulas sobre como aprender uma língua estrangeira. Morar num país estrangeiro ajuda, mas ainda assim o processo de organização mental das palavras e estruturas da língua é bem demorado. Mas e as crianças? Você já parou para se perguntar como elas conseguem organizar mentalmente o funcionamento de sua língua de maneira tão rápida e inconsciente? Reparem que elas não têm ainda uma primeira língua pra se basear e que, por não estarem em um curso de línguas com evidências e instruções concretas, elas têm evidências bem limitadas de como funciona a estrutura das línguas que as pessoas falam a sua volta.

Assim, surge o argumento da pobreza de estímulo, que, basicamente, afirma que os dados disponíveis à criança na língua que a rodeia não são suficientes o bastante para definir uma gramática.

Por muitos anos, Noam Chomsky, linguista americano nascido em 7 de dezembro de 1928, na Filadélfia, tentou responder a tal pergunta, conhecida como Problema lógico da aquisição da linguagem (também chamado de problema de Plãtão). Este problema é baseado no diálogo Ménon, de Platão, na qual o personagem Sócrates demonstra para Ménon que, se desafiado de maneira correta, mesmo um escravo sem instrução possui noções inatas de matemática. Esses conhecimentos permitiriam que o escravo fizesse, de maneira intuitiva, alguns cálculos geométricos. Essa pergunta continua sendo o elemento norteador das investigações científicas assumidas por Chomsky desde a sua graduação na Universidade de Pennsylvania.

O modelo de linguagem da Gramática Gerativa

Chomsky sempre procurou ir além da abordagem estruturalista, distribucionista e comportamentalista que existiam até então no estudo da linguagem natural e deu início à Teoria Gerativa, a partir da publicação de Syntactic Structures (1957). Nesta publicação, Chomsky defende a ideia de uma abordagem formal do estudo das estruturas das frases, baseada em símbolos e regras. As regras dividem as sentenças em partes menores, portanto, ao combinar essas partes através de regras chamadas “transformações”, é possível “gerar” todas e apenas as sentenças gramaticais (válidas) de uma dada língua, que são ilimitadas em número, daí o nome Gramática Gerativo-Transformacional, como a abordagem ficou conhecida na época.

Considerada uma das teorias mais importantes no campo da linguística do século XX (o que lhe rendeu recentemente o prêmio Frontiers Award), a proposta essencial da teoria gerativa é que existe um componente mental inato compartilhado entre todos os seres humanos (Faculdade da Linguagem) que possui mecanismos de regras gerais que nos instruem sobre como funciona a comunicação humana (Gramática Universal).

Uma das mais importantes características atribuídas a essa gramática universal é a capacidade de, com um conjunto limitado de peças (ex. palavras, regras de estrutura, etc.), formar infinitas combinações diferentes, ou seja, a infinitude discreta é uma das propriedades essenciais da linguagem humana.

Imagine que você está esperando o ônibus para voltar para casa e ouve alguém dizer “O João deixou da leitura desse livro”. No mínimo você vai achar que está ouvindo coisas, por estar cansado, ou vai achar que a pessoa que disse isso não está tão sã. Bom, mas por que essa sentença é estranha, quando “O João deixou de ler esse livro”, ou até mesmo “O João desistiu de ler esse livro” é uma sentença completamente normal, e não causaria estranheza naquele ponto de ônibus? Normalmente, a gente não para pensar nessas coisas, porque aparentemente a gente sabe o que sabe, mas não sabe porque sabe. Bom, esse conhecimento inconsciente sobre a linguagem, mais especificamente (i) o que é esse conhecimento; (ii) como ele é adquirido; (iii) como é colocado em uso são as três questões básicas que emergiram na Teoria Gerativa de Chomsky.

Atualizações no modelo de linguagem

Enquanto buscava respostas para estas questões, o modelo chomskyano foi se aperfeiçoando ao longo dos anos. Na década de 80, depois de pelo menos 20 anos de dados e mais pesquisas na área, Chomsky começa a modificar sua teoria para melhor se adequar aos achados da área. Em termos mais técnicos, a abordagem conhecida como Transformacional e foi substituída por uma abordagem melhorada, chamada de Princípios e Parâmetros (P&P), desenvolvida no livro Lectures on Government and Binding: The Pisa Lectures (LGB, 1979). Essa nova abordagem busca explicar a aparente lacuna entre conhecimento linguístico (o que a gente sabe sobre a língua) e fatores que influenciam o uso da língua.

Esse novo modelo também amplia o conceito de gramática universal (GU). Agora é possível dizer que há, nas línguas, princípios estruturais que são inatos e fixos e que as diferenças entre as várias línguas do mundo se caracterizam pelos parâmetros (diferenças) utilizados por um grupo de falantes. Um exemplo bem simples de entender é que em qualquer língua do mundo existe sujeito, verbo e objeto, o que podemos chamar de Princípio. Por outro lado, a forma como esses elementos aparecem em uma frase é diferente entre as línguas, o que podemos chamar de Parâmetro. Línguas SOV (ex. Japonês) são as mais frequentes, seguidas de línguas SVO como o Português e o Inglês. As línguas mais raras são as OSV.

Mesmo com essas modificações nas pesquisas sobre a Gramática Gerativa, ainda tivemos casos de pesquisadores que se aproveitavam do “poder explicativo” do modelo para postular processos dos quais não tínhamos muitas evidências de que realmente existem. Por essa razão, Chomsky buscou tornar seu modelo teórico mais simples e elegante, cortando excessos teóricos e seguindo o princípio científico da Navalha de Occam, de que as explicações mais simples são provavelmente as mais corretas. Assim, a partir de 1993, foi desenvolvido o Programa Minimalista que teve sua publicação oficial em 1995. A tentativa de simplificação persegue dois vieses: o top-down e o bottom-up. Esses nomes soam estranhos? Na verdade, top-down e bottom-up podem ser traduzidos como de cima para baixo e de baixo para cima, respectivamente. São estratégias de processamento de informação e ordenação do conhecimento, usadas em vários campos de conhecimento, incluindo software, humanística e teorias científicas.

Então, como o top-down e o bottom-up se relacionam com o Programa Minimalista desenvolvido por Chomsky? Como lembrado por Cedric Boeckx, autor de Linguística Minimalista: origens, conceitos, métodos e objetivos (review em inglês), a estratégia top-down começa com uma visão geral do sistema, neste caso, o sistema linguístico, e desce até os níveis específicos, uma espécie de engenharia reversa. Um exemplo de top-down seria o método dos antigos gregos. Para os gregos, todas as construções poderiam ser simplificadas a figuras geradas por somente duas ferramentas: uma régua não marcada e um compasso. Essa metodologia pode ser resumida na seguinte proposição: dadas duas ferramentas das mais simples que existem, mostre todas as figuras que podem ser desenhadas.

O legal é que Chomsky adota essa metodologia em sua teoria. No programa minimalista, a proposição baseada em top-down se resumiria da seguinte forma: “dadas as condições mais básicas impostas ao lado do som e significado (interfaces da faculdade da linguagem) e as propriedades mais básicas dos itens lexicais e modos de combinação (concatenar), mostre que toda a sintaxe necessária pode ser derivada“.

Agora que você já sabe o que e como funciona o top-down fica fácil entender como funciona o segundo modo de “fazer minimalismo”: o modelo bottom-up. Este modelo funciona de modo contrário ao top-down: parte-se de elementos menores associados para formar um subsistema maior. Essa estratégia se assemelha a um modelo de “semente”: começa pequeno, com elementos básicos e vai crescendo ao longo de completações e associações. Um exemplo dessa estratégia é o modo como o desenho animado e realista do touro em tinta litográfica, de Pablo Picasso foi criado: “quantas linhas eu preciso para desenhar uma figura minima(lista) de um touro?”. O percurso metodológico é começar com linhas mais complexas e eliminar refinamentos para se chegar a um touro minimalista.

Independente da estratégia utilizada – bottom-up ou top-down – o resultado dentro do Programa Minimalista será o mesmo. Portanto, bottom-up ou top-down convergem no mesmo touro minimalista, seguindo, é claro, caminhos de descoberta diferentes.

A faculdade da linguagem

Chomsky chama a atenção para o fato de que a propriedade básica da linguagem humana é a faculdade da linguagem. Mas o que seria isso?

Lembra do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade: João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém? Você já parou para pensar que podemos dar continuidade a esse poema, encaixando grupos de palavras de modo infinito? Essa capacidade de “encaixar” um conjunto infinito de expressões estruturadas é algo comum e único ao ser humano, chamado por Chomsky de aspecto criativo da linguagem. Essa propriedade básica considera a linguagem como um sistema computacional que consiste de um conjunto de elementos básicos e regras para gerar elementos mais complexos.

Como dito anteriormente, um dos objetivos de Chomsky é tornar a teoria mais simples e elegante. Para isso, as operações computacionais da linguagem devem ser as mais simples possíveis. Desse modo, a operação principal do sistema computacional da linguagem é concatenar. Concatenar significa unir duas estruturas, tomando dois objetos já construídos, X e Y, por exemplo, e formando um novo objeto Z, sem modificar nem X nem Y. Esse novo produto Z seria o conjunto {X, Y}. Um bom modo de representar como a operação concatenar funciona é pensar em como construímos as sentenças. A operação CONCATENAR consegue juntar “o” e “menino”, formando “o menino”. De forma recursiva, isto é, repetida, a operação pode ser aplicada novamente, e concatenamos essa nova estrutura a outra:

1º passo: concatenar o objeto “o” ao objeto “menino”
Resultado do 1º passo: “o menino”
2º passo: concatenar o objeto “o menino” ao objeto “caiu”
Resultado do 2º passo: “o menino caiu”

Disponível em: https://tinyurl.com/vg9qcvp

Essa operação linguística capaz de gerar a linguagem do pensamento seria dependente da estrutura. A operação concatenar se repete durante toda nossa vida ao usarmos a linguagem. Desse modo, podemos supor que tal operação é inata a nós, seres humanos, pois ninguém nos “ensina” que é preciso fazer tal operação para gerar frases perfeitamente gramaticais.
Muito antes da tradição gerativista, outros cientistas e filósofos já se interrogavam sobre a natureza da linguagem humana. Alguns, inclusive, serviram de inspiração para Chomsky. Um deles é Galileu Galilei, ao lado de seus contemporâneos, Antoine Arnauld e Claude Lancelot, que, na tentativa de explicar a simplicidade da natureza (a frase famosa de Galileu sobre isso é “A natureza não faz com muitas coisas aquilo que pode fazer com poucas”), se perguntavam como era possível construir “com 25 ou 30 sons, uma variedade infinita de expressões”?

Assim, para a ciência, quanto mais conseguimos explicar os fenômenos naturais usando menos ferramentas, melhor. Chomsky, então, considerando que menos é sempre mais, reconhece esse questionamento levantado por Galileu como um “desafio”: uma das perspectivas mais profundas na rica história da investigação científica sobre a linguagem e a mente dos últimos 2.500 anos e que deve investigar como a linguagem pode ser usada de forma criativa. Após mais de 60 anos de investigação, Chomsky chega à conclusão que essa criatividade só é possível pelo fato de que a espécie humana é a única capaz de aplicar uma simples operação computacional: a concatenação.

Entrevista com Noam Chomsky

Para debater questões relacionadas ao desenvolvimento da teoria, o ForMA – Núcleo de Estudos em Gramática Formal, Mudança e Aquisição – convidou o linguista Noam Chomsky para participar dos nossos colóquios. Os colóquios do ForMA vêm, desde 2006, propiciando um espaço importante de interlocução para alunos IEL, com apresentações de convidados externos e apresentações de resultados de pesquisa de pós-graduação e pós-doutoramento.

O pai da linguística moderna proferiu – via videoconferência ocorrida em 04 de setembro de 2018 – o colóquio intitulado The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language, título do seu último paper publicado na Journal of Physics (2017). Abaixo, trazemos a tradução das perguntas e respostas que foram feitas durante o Colóquio de Chomsky no ForMA, mas que não foram respondidas naquele espaço, por falta de tempo. O que ainda surpreende em Chomsky, mesmo depois de ter modificado radicalmente o modo de se pensar sobre a linguagem, é sua constante indagação sobre o quão óptimo está o seu modelo para a linguagem, marcado até mesmo pela sua última ‘fala’ em The Galilean Challenge: Architecture and Evolution of Language: “quanto mais nós aprendemos, mais descobrimos o que não sabemos”.

O ForMA congrega pesquisadores do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL – Unicamp) interessados em investigações linguísticas, partindo de modelos formais para análise e descrição gramatical, mudança linguística e/ou aquisição da linguagem à luz de pressupostos gerativistas.

Como o Colóquio foi transmitido online e nem todas as perguntas foram feitas por pessoas presentes no IEL, mas pela internet, decidimos manter o codinome ForMA para as perguntas, uma vez que nem todas elas eram identificadas.

A entrevista foi publicada em ao mesmo tempo, mas separado deste post.
Para ler a entrevista completa, clique aqui.
Para ler a entrevista original, em inglês, clique aqui.

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