Texto por: Willian Mirapalheta Molina e Pedro Leal de Souza
Existe uma essência ou uma natureza da ciência? Nos parece que quando objetivamos responder essa pergunta e encontrar o “âmago” da ciência acabamos entrando em um campo que legitima descartar tudo aquilo que foge dessa “alma” científica.
Não é difícil perceber que não existe só uma forma única de conceituar e compreender o que é ciência. Basta perguntarmos para as pessoas ao nosso redor, aos pesquisadores que estão fazendo ciência nos laboratórios, nas bibliotecas, nas salas de aulas, em bancos de dados de computadores ou da internet, etc, ou mesmo na literatura, a partir do que dizem os diferentes filósofos e sociólogos da ciência.
“A” ciência não existe; nem mesmo há uma essência pura. Talvez pensar nisso nem seja interessante. Existem ciências, no plural – com pluralidade também de formas metodológicas, isto é, não existe um único método científico. É fácil perceber que um físico, um antropólogo e um paleontólogo não trabalham da mesma maneira. E todos eles são pesquisadores e praticantes de ciência. As ciências se adaptam a seus objetos de estudo.
Mas, se não há uma única maneira de se fazer ciência, como podemos delinear o seu limite? Como compreender o que seria uma pseudociência? Se fugimos da ideia de uma “natureza” científica fixa, infalível e inquestionável, não estaríamos relativizando demais e abrindo brechas para o surgimento de diversos discursos se declarando científicos? Como os discursos negacionistas, por exemplo? A questão é mais complexa do que parece. Antes de problematizar isso, é curioso destacar que a palavra “pseudociência”, que significa “falsa ciência”, admite que existe uma “verdadeira ciência”, o que entra em contradição com o que vem sendo discutindo aqui.
O método e a forma de conceber a ciência pode ser um divisor entre o científico e o não científico?
Se pensarmos que as pseudociências são assim denominadas por não serem obtidas e validadas pelo clássico método científico (observação, pergunta, hipótese, experimentação, resultados e conclusões), então, admitiremos que as ciências que não utilizam fielmente esse passo a passo seriam também pseudociências? Bem, sabemos que não existe um método único, e não seguir essa sequência metódica (que é bastante questionada) não as tornam “falsas ciências”.
E mais, há críticas quanto à ciência que não é neutra, objetiva e impessoal. Isto é, ciências que dão espaço à subjetividade, ainda que com rigor científico dentro de seu regime discursivo, são desacreditadas por determinados pesquisadores.
Assim, podemos visualizar que práticas podem ser vistas como “falsa ciência” para um grupo de pesquisadores (seja por não seguir “o” método, ou ser mais pessoal, etc) e uma “verdadeira ciência” para outro grupo. Veja como é complexo o debate. E voltamos à pergunta: como diferenciar algo científico de algo não científico? Como “combater” as pseudociências?
Vejamos um exemplo…
Um dos integrantes do grupo PEmCie da FURG tem uma gatinha, cujo nome dela é Moisés Pantufa. Sim, uma gata com o nome de Moisés (é por causa de um meme).
Essa tal gatinha foi resgatada em 2020, um pouco antes da pandemia. Ela estava na rua, tinha as patinhas dianteiras beeeeeeem tortinhas. Ele achava que ela tinha sido atropelada. Tinha um barrigão que parecia estar grávida, mas era bem miudinha.
No dia seguinte ao que ela foi retirada da rua, abortou os filhotinhos que estavam na barriga, todos sem vida. Ela foi levada de imediato para o veterinário, que examinou tudo e viu que a Moisés não tinha mais nenhum filhote. O que chamava atenção mesmo era que as patinhas da frente eram muito tortas. Depois de examinar, o veterinário percebeu que não havia ocorrido nenhum acidente, as pernas dela eram assim por algum problema na formação ou algo do tipo.
O tempo passou, chegamos em 2025 e a Moisés vivia bem. Nunca cresceu muito, sempre se manteve pequenininha. Havia a suspeita de que ela fosse um pouco mais velha do que aparentava pois já não apresentava os dentes ou a pelagem de filhote.
Um dia de manhã, a Moisés estava andando mais estranha do que o normal dela. Além das patas da frente, estava com dificuldade para se manter em pé com as patas de trás também. Outra vez, ela foi levada para o veterinário com medo de ter acontecido algum acidente. Ela foi examinada, fez Raio-X e novamente não havia acontecido nada. Moral da história: a Moisés já tem uma certa idade, e alguns problemas ósseos que a vem acompanhando durante toda a vida. Precisava fazer tratamento com remédio para evitar a dor e acupuntura – É aqui que queremos chegar!
Acupuntura é científica? Afinal, estamos falando da Moisés
A acupuntura é uma prática terapêutica que faz parte da medicina tradicional chinesa. Ela consiste na inserção de agulhas muito finas em pontos específicos do corpo com o objetivo de tratar diferentes condições de saúde, aliviar dores e equilibrar a energia vital — conhecida como “qi” (ou chi).
Essa técnica tem mais de 2.000 anos de história documentada, embora existam evidências arqueológicas que sugerem práticas semelhantes com até 4.000 anos. Sua origem está na China antiga, baseada em conceitos filosóficos como o yin-yang e os meridianos (canais invisíveis por onde o qi circula).
Apesar de sua longa tradição e do uso por milhões de pessoas em todo o mundo — inclusive em sistemas de saúde pública como o SUS, no Brasil — a acupuntura é frequentemente considerada uma pseudociência pela comunidade científica ocidental. Isso acontece por diversos motivos.
Primeiro, os conceitos fundamentais da acupuntura, como o qi e os meridianos, não têm base na anatomia ou fisiologia reconhecida pela ciência moderna. Nenhuma evidência empírica robusta no campo dessa ciência moderna confirma a existência desses canais energéticos no corpo humano.
Outro desafio está na falta de padronização. Os protocolos de tratamento variam bastante entre praticantes, e o diagnóstico na medicina tradicional chinesa é subjetivo, baseado em observações, o que dificulta a realização de estudos científicos reprodutíveis.
Tá, mas… E daí?
Entende onde queremos chegar? A acupuntura é uma prática que não segue algumas das etapas do método que vínhamos falando até aqui. Além disso, ela também desafia a própria ciência por apresentar um conceito específico de energia, o qi, que foge da compreensão científica usual.
Mesmo assim, ela apresenta resultados considerados “válidos” ou úteis na vida de muitas pessoas (ou no nosso exemplo, vários gatos). Ou seja, existem outras formas de alcançar alguns resultados e de produzir conhecimento para além das que estão pressupostas no “O” método científico ocidental.
Claro, não estamos querendo impor um vale tudo nem defender a acupuntura em específico. Vale sempre reforçar que, conhecer as formas de produção de conhecimento ou os métodos para tal, não significa negar os avanços da Ciência ou todo conhecimento científico que foi produzido até aqui. Não estamos defendendo o negacionismo científico.Com uma argumentação válida – muito importante essa parte, pois encontramos por aí diversos trabalhos que se consideram pseudocientíficos mas que, na verdade, podemos considerá-los de negacionistas – e base teórica bem fundamentada, conseguimos expandir os horizontes da produção de conhecimento em diversas áreas como por exemplo a psicologia ou a educação.
O “combate” não é a melhor opção
É difícil estabelecer um critério único de divisão entre o científico e o não científico. A questão também não é sobre combater as “pseudociências” como se fosse uma guerra. Sabemos que muitos discursos “pseudocientíficos” são negacionistas e alguns colocam em risco a vida das pessoas, estão aí os anti-vacinas para provar isso.
Entretanto, precisamos pensar em outras perguntas antes do “combate às pseudociências”. Algumas podem ser as seguintes: O que estamos entendendo por ciência? Como funciona a validação de um discurso científico? Por qual motivo algo é considerado pseudocientífico? A guerra e o combate não vão nos trazer grandes avanços sociais se nós não dermos um passo atrás e uma atenção à forma como se constroem as ciências. Precisamos falar sobre as ciências e de seu pluralismo. Até mesmo para valorizar o trabalho dos pesquisadores.
Algumas pistas para pensar
Além de problematizar o campo das ciências é importante que conheçamos alguns pressupostos que fundamentam a existência das “falsas ciências”. O problema pode estar mais relacionado às atitudes e as intencionalidades.
Enquanto as ciências buscam (ou deveriam) se revisitar, se autocorrigir – mesmo de forma imperfeita, até porque são construídas por pessoas, as pseudociências distorcem evidências já consolidadas e, muitas vezes, partem disso para a construção de suas narrativas. Os cientistas também questionam as suas “verdades”, mas com o propósito de criticá-las e melhorá-las. Ao distorcer tais evidências validadas dentro de seus campos, os “falsos cientistas” acabam mantendo suas crenças. Além disso, eles podem apelar para conspirações, ignorando quaisquer críticas, mudanças de ideias e seguindo fielmente aquilo que acreditam, apelando para uma linguagem científica esvaziada e sem rigor. Se não aceitam críticas, quais suas intencionalidades? É outro ponto a se pensar.
Assim, para além do método e do combate, podemos refletir que os discursos “falsos” da ciência surgem como recusa ao diálogo crítico, o que distancia da prática científica, que avança pela troca de ideias. Por fim, não devemos colocar as ciências em um pedestal irretocável. Longe disso, elas não estão sempre “corretas”, ciência é um processo de correção constante, diferentemente das pseudociências que tendem a se manter mais estáticas, dogmáticas e imunes às críticas.
Para saber mais…
Texto do Pedro aqui no blog sobre verdades e pós verdades
https://www.blogs.unicamp.br/pemcie/2020/07/11/verdades-antigamente-fake-news-hoje-em-dia/
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