Trote e sua história no Brasil: da idade média, pela ditadura e hoje

Retirada de banco de imagens pública e gratuita

“Nem tudo que luz é ouro
Nem todo sopapo é murro
Nem todo burro é calouro
Mas todo calouro é burro”
Trecho do “diploma de burro” dado aos calouros na peruada de São Paulo e Olinda, em meados de 1878

 

“Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a dispersão dos alunos.
Eram os pobres novatos que os veteranos sovavam à cacholeta, fraternalmente”.
Trecho retirado de O Ateneu, de Raul Pompéia, 1888

O trote universitário como pauta de discussão é assunto principalmente em universidades que ele é consolidado e naturalizado. Mas acaba, vez ou outra, ultrapassando esse nicho, principalmente quando vemos algum exagero relacionado a ele. Durante esses dias, a notícia foi de alunos da PUC-RJ que tiveram atitudes explicitamente racistas com alunos negros da UERJ, em um evento universitário. O que resultou em revoltas, sendo dialogado por influenciadoras como Jout Jout¹. Apesar do evento não ter necessariamente relação direta com o trote, abre um precedente para discorrer sobre o tema.

Por mais que o senso comum relacione-o com universidades públicas e cursos renomados, o trote universitário toma corpo em mais cursos e faculdades do que se imagina. Muitas vezes, ele é visto apenas como um pequeno grupo restrito de universitários que passaram do limite da brincadeira. Porém, a discussão não pode ser apenas nos casos em que se descumpre a lei. Ou seja, é preciso olhar, também, a culturalidade criada pelo trote e suas consequências. Para isso, acredito que a principal necessidade que temos é entender a historicidade do trote nas universidades, principalmente nas brasileiras.

O trote surgiu juntamente com a universidade tradicional, por volta do século XV, na grande maioria dos países europeus. Por exemplo, o principal registro histórico dessa época se encontra no livro “Manuale Scholarium”. Este livro descrevia a vivência nas principais universidades europeias, principalmente na Alemanha. Assim, é possível encontrar trechos da relação entre os alunos já matriculados e os novatos, descrevendo situações de graves agressões. Dentre elas: ser forçado a beber urina, ser chamado de “bicho do mato, criatura horrenda, com chifres e boca ameaçadora”, confessar seus atos sexuais… Caso não aceitasse tais imposições, o calouro era gravemente agredido pelos veteranos. Ao decorrer da história, tais atitudes foram se modificando e também migraram para o Brasil.

No período de consolidação da universidade no Brasil, entre os séculos XIX e XX, as práticas relacionadas ao trote também se consolidaram. Foram importadas, principalmente, das universidades portuguesas, onde os acadêmicos brasileiros se formavam. Já nos primeiros registros históricos do trote no Brasil, em 1831, se notificou a morte de um estudante que se recusou a participar de tal prática e foi assassinado pelos veteranos. Todavia, o tempo não diminuiu a violência dos atos, os casos fatais relacionados ao trote continuaram a ser noticiadas, sendo uma das mais marcantes a morte do aluno Edison na USP, em 1999.

A história da consolidação do rito de passagem que é o trote mostra a semelhança a atos extremamente comuns atualmente. Dessa forma, registros históricos que permeiam o século XXIX  mostram no Brasil ações como os calouros, sempre chamados de bichos, sendo emancipados pelos veteranos, através de um ritual de extrema violência e gozação; músicas de humilhação aos ingressantes, enfeitamentos e descaracterização do corpo do calouro, a obrigação de ser submisso e silenciado, a embriaguez forçada de calouros pelos veteranos. Ações que sempre são justificadas em prol da manutenção da tradição do trote.

Esta tradição pode ser analisada em uma questão que acredito que seja de extremo interesse na relação histórica do trote: sua perpetuação através da ditadura militar brasileira. Este momento é conhecido por “era de ouro” do trote². No momento em que a repressão do Estado brasileiro estava no auge, resultando na ilegalidade de agremiações como UNE e centros acadêmicos, extraoficialmente os militares trabalhavam em formas de desunir a classe estudantil. Assim, encontraram uma forma que criava rivalidades e embates entre os alunos: o trote. Isto serviu como um instrumento de apoio dos militares em desarticular o movimento estudantil. Além disso, o trote também é um grande experimento para desenvolver a desumanização do outro, necessária para torturadores. Existia, também, relações diretas entre alunos que realizavam o trote e atuando em conjunto a esquadrões da morte e de grupos paramilitares. Tais fatos resultaram na perseguição de diversos estudantes brasileiros.

Portanto, vemos que muitas das práticas que consideramos comuns em muitas universidades têm suas origens históricas que remetem ao século XV. E percebemos que esses comportamentos podem auxiliar a repressão e a censura de governos ditatoriais. O trote tem origem conjunta à universidade pública brasileira e sempre estiveram juntos. O fim do trote não pode ser apenas o fim dos exageros, de quem não soube brincar, mas acabar com toda a sua lógica formativa no meio universitário, para que esse resquício de ações que corroboram com a ditadura não continuem perpetuadas em nossas universidades.

Esse foi um post inicial sobre questões relacionadas com o trote. Continue acompanhando o nosso blog para novos diálogos sobre esse tema!

Para saber mais:

¹Jogos Universitários: Olha no que deu – Jout Jout
https://www.youtube.com/watch?v=ajdVqYIHgL0

²Livro – O Calvário dos carecas: história do trote estudantil, de Glauco Mattoso

O Trote e a saúde mental de Estudantes de Medicina
http://www.scielo.br/pdf/rbem/v41n2/1981-5271-rbem-41-2-0210.pdf

 

Sobre Matheus Naville Gutierrez 3 Articles
Apaixonado por ensino e educação, sou licenciado e professor de Ciências e Biologia, formado pela UNESP – Campus de Botucatu. Atualmente faço parte do programa de pós-graduação em ensino de Ciências e Matemática pela UNICAMP, e também já participei de diversos movimentos educacionais.

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