Faltam dados e estratégias para combater evasão no ensino superior

O ensino superior expandiu no Brasil a partir do ano 2000 e, com ele, também a evasão (estudantes que não concluem o curso). Entender como a evasão evolui desde a década de 1970 é estratégico para consolidar um ensino superior de qualidade e para traçar metas futuras. A última edição da revista Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior traz dois artigos que apontam para a urgência de entendermos melhor sobre a não conclusão de cursos em nível superior para garantir a melhoria de qualidade e uma efetiva inclusão social.

Em 2015, o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) identificou 76% das matrículas em instituições privadas, com cerca de 6 milhões de estudantes, enquanto o setor público concentra pouco menos de 2 milhões de alunos. Diante deste quadro, Maria de Fátima Costa de Paula, da Universidade Federal Fluminense (UFF), autora de um dos artigos, afirma que, no Brasil, o “sistema de educação superior está constituído em sua maioria de faculdades privadas, com viés mercantil, de qualidade questionável, que se dedicam fundamentalmente ao ensino e não realizam pesquisa nem extensão de forma sistemática”.

Políticas de expansão do ensino superior

Apesar disso, José da Silva Santos e Giselle Cristina Real, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), identificaram em outro artigo, um aumento substancial no número de matrículas a partir de meados do ano 2000, com saltos de 73% no ensino privado e 27% no ensino público, em relação aos anos 1980 (Gráfico 1). Além de políticas de incentivo, como o Financiamento Estudantil (Fies) a partir de 1999, o programa Prouni (Universidade para Todos) em 2005, ambos voltados para aumentar o acesso ao ensino privado, o Programa de Apoio e Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) em 2007, e a abertura das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) contribuíram para o maior acesso ao ensino superior. Não se pode esquecer, lembram os autores, os investimentos em educação a distância que também ampliaram o número de vagas, responsável por pouco menos de 16% das matrículas em 2012.

Crescimento matrículas no ensino superior 1980-2012 . Crédito: Santos Jr & Real (2017)

Giselle e José também enfatizam o desenvolvimento de um novo método de seleção para as universidades a partir de 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que modificou inclusive a seleção de universidades públicas de elite como as estaduais paulistas. As políticas compensatórias para fortalecer a inclusão de candidatos historicamente marginalizados também favoreceu a ampliação do ensino superior em todas as classes. Mais do que incluir e ampliar as matrículas, é preciso manter os estudantes na universidade para garantir a conclusão de sua educação.

Mas quando os números se voltam para matriculados versus concluintes, percebe-se a fragilidade do sistema. Maria de Fátima traz dados do Ministério de Educação com as taxas de estudantes que concluíram as universidades federais de 2000 a 2015 (gráfico 1), indicando diminuição a partir de 2008 e número de não concluintes sendo superior aos de concluintes a partir de 2012. Para a pesquisadora, o discurso da inclusão no ensino superior fica prejudicado, já que a democratização do ensino superior, efetivamente, não está ocorrendo. A meta de atingir um mínimo de 30% de matrículas entre brasileiros de 18 e 24 anos, traçada no Plano Nacional de Educação (2001-2010 e 2014-2024), ainda não se concretizou.

Percentual de alunos concluintes e não concluintes nas universidades federais (1980-2015), MEC/Inep. Crédito: Costa de Paula (2017)

Questão complexa

Faltam dados consistentes sobre evasão nas instituições de ensino superior prejudica o planejamento estratégico. A falta desses dados também impede que eles sejam levados em consideração na avaliação de universidades brasileiras, como a proposta pelo Ranking de Universidades da Folha (RUF).

Os autores identificaram multidisciplinaridade na abordagem do tema evasão, indicando que a questão é complexa passando pelo viés social, econômico, psicológico, entre outros. O conceito de evasão, afirmam os pesquisadores da UFGD, também tem ficado mais complexo para incluir a evasão temporária (trancamento de matrícula, por exemplo), mas também a mudança de curso, de instituição e, finalmente, a saída do ensino superior. O artigo identifica ainda diferenças entre a evasão, em que o aluno opta por se desligar do curso, e a exclusão, em que a instituição acaba por levar o aluno a sair do curso, por não fornecer as condições favoráveis para que ele ou ela conclua sua profissionalização.

Se por um lado a evasão ainda é um tema de pesquisa emergente, com publicações sobretudo a partir de 2011, os pesquisadores dos artigos enfatizam a urgente necessidade de melhor compreender o tema para garantir que as taxas diminuam no futuro, de modo a oferecer condições mais favoráveis para a conclusão do ensino superior. Maria de Fátima exemplifica que 30% dos matriculados nas instituições de ensino superior dividem os estudos com o trabalho, fato que precisa ser levado em conta pelas instituições de ensino.

“As políticas de ação afirmativa, expansão e interiorização com qualidade da rede pública, assim como de permanência e assistência estudantil devem ser intensificadas, para incluir os setores excluídos socialmente nas universidades, em especial as públicas”, enfatiza Maria de Fátima Costa de Paula.

 

Leia os artigos completos em:

Costa de Paula, Maria de Fátima. Políticas de democratização da educação superior brasileira: limites e desafios para a próxima década. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação do Ensino Superior, v.22 (2). July/Nov. 2017.

Santos Jr, José da Silva e Real, Giselle Cristina Martins. A evasão na educação superior: o estado da arte das pesquisas no Brasil a partir de 1990. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação do Ensino Superior, v.22 (2), 2017.

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Le pont de Guy Laramee. Crédito: Foster/White Gallery