Nos últimos dias temos ouvido falar muito na droga hidroxi-cloroquina (cloroquina com um substituinte hidroxi – OH). Antes você também já pode ter escutado algo sobre ela, seja no tratamento da Malária ou ainda nos bons resultados apresentado para o Zika (outro vírus que nos assusta). E, sim, é muito bom que você já tenha ouvida falar nela antes, pois isso acelera e muito as coisas.

Quando estamos trabalhando no desenvolvimento de uma nova droga, temos diversas etapas para garantir que ela será eficiente e também segura. Eficiente é fácil de entender, ela deve combater a doença que queremos tratar. Segura quer dizer que ela não irá causar nenhum efeito danoso, como câncer ou intoxicar algum outro órgão (toxicidade hepática), por exemplo. E como os profissionais que trabalham no desenvolvimento de drogas garantem isso?

Tudo começa no desenho da molécula que irá atuar como princípio ativo. Nela, não pode haver porções que são conhecidas por alguma toxicidade (não dá para colocar uma  talidomida pendurada na molécula, por que sabemos que ela é teratogênica, por exemplo). Então com a droga desenhada e estuda por ferramentas in silico (em programas de computador), a síntese em bancada (ou o isolamento da natureza) é realizado.

Depois disso, a molécula é testada in vitro e depois in vivo. In vitro  significa ser testada em células isoladas no laboratório, já in vivo  é o teste em animais. Nesta etapa é que entram os testes em ratos e depois em outros animais, claro, presumindo que tudo dá certo desde de o desenho da molécula até o teste em ratos. Testar em animais é muito importante pois começa a avaliar o metabolismo. Tudo isso é a chamada fase pré-clínica, e ela dura de meses a anos.

Passando em todos os testes, e com louvor, a molécula de interesse vai para os ensaios clínicos. Aí entram mais 3 fases, que estão resumidas abaixo.

  • Fase I: avalia a segurança da droga, são 20-100 indivíduos e dura alguns meses. Se os indivíduos começam a apresentar efeitos colaterais, a droga pode ser suspensa;
  • Fase II: Indivíduos sadios e doentes, aqui se avalia a segurança da droga e também a eficácia. É comum, nesta fase, indivíduos receberem a famosa pílula placebo (apenas açúcar) e se avalia relação dose-resposta. Esta fase dura de vários meses até 2 anos.
  • Fase III: O número de indivíduos testados é maior. Segue-se acompanhando a segurança, mas a eficácia é o objetivo. Também ocorre o uso de placebo. Aqui se define que a droga realmente funciona
  • Depois de tudo, a indústria que começou a mais ou menos 10 anos atrás o desenho e síntese de mais de 10000 moléculas, consegue registrar uma que passou em todas as etapas. Quando temos algumas doenças graves, em estado terminal, algumas etapas podem ser puladas. Isso acontece bastante em tratamento de câncer e uso de drogas experimentais. Mas claro, sempre com ética e inúmeras aprovações em inúmeros comitês especializados. 

Se hoje descobríssemos uma droga para a doença causada pelo covid-19, ela teria que passar por várias etapas, sendo algumas delas ignoradas devido à urgência da pandêmina. 

E a hidroxi-cloroquina?

Acontece que como a hidroxi-cloroquina já foi testada para malária e já se sabe (e muito bem) seus efeitos colaterais, não precisamos começar lá no início. Com os resultados bem  preliminares publicado pelos franceses, agora o Brasil está testando protocolos de administração da hidroxi-cloroquina. E isso não está errado, afinal, a segurança da droga já é conhecida. Assim, logo saberemos se a hidroxi-cloroquina é mesmo eficaz no tratamento do covid-19. Fique atento, pois até agora, 21 de março de 2020, as 20:00, enquanto escrevo este texto, não se tem certeza sobre isso. E neste mesmo instante, inúmeros cientistas estão estudando a hidroxi-cloroquina, e diversas outras outras drogas, para assim podermos obter um tratamento eficaz. 

Agora vamos ser otimistas e dizer que a droga funciona, o que vai acontecer? Acompanha nosso próximo texto sobre isso!

Para saber mais:

http://www.cvs.saude.sp.gov.br/up/Desenvolvimento%20de%20novos%20medicamentos.pdf

(acesso em 21 mar. 2020)

http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20171/7600011-3/Introducao-Farmacos-2017-compressed.pdf

Arrepia, D. B.; da Costa, J. C. S.; tabak, D. Registro de insumos farmacêuticos ativos: impactos e reflexos sobre as indústrias farmoquímica e farmacêutica instaladas no Brasil. Vigil. sanit. debate Vol 2, No 2, 9-19, 2015. 

Kumar, A. et al   Hydroxychloroquine Inhibits Zika Virus NS2B-NS3 Protease. ACS Omega Vol3, No 12, 18132-18141, 2018.

Jia Liu et al hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquin, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell discovery. Vol 6, No 16, 2020.


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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp.
Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Roberta Lopes Drekener

Roberta L. Drekener, química industrial de formação, química orgânica de coração. Mestre em Química pela UFSM, doutora em Ciências pela Unicamp, pós doutora pela Unicamp e pelo Leibniz Institut of Plant Biochemistry (Alemanha). Se preocupa muito sobre como o mundo vê a ciência e mais ainda sobre o que a ciência faz pelo mundo. Atualmente está no quadro docente do IQ-Unicamp, ainda procurando seu lugar ao sol (para semear e colher frutos).

1 comentário

Marcela · 15/05/2020 às 15:46

Nesse fatídico dia, 15/05, em que mais um ministro da saúde cai, eu gostaria de ler uma atualização sobre o uso da hidroxicloroquina na COVID = )

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