Pesquisa e desenvolvimento de agentes químicos para o coronavírus

Indo direto ao ponto, não existem fármacos para o tratamento de pacientes com COVID-19. O fato é que nesse momento não tem no mercado nenhum fármaco ou vacina direcionado para conter a ação do coronavírus (SARS-CoV-2). Uma variedade de medicamentos aprovados para outras indicações, bem como vários medicamentos em investigação, estão sendo estudados em várias centenas de ensaios clínicos em andamento em todo o mundo.

Reposicionamento de fármacos

Dado o longo processo de desenvolvimento de novos medicamentos, a estratégia de reaproveitamento de medicamentos tornou-se uma das soluções escolhidas para o tratamento imediato de indivíduos infectados com SARS-CoV-2.

O reposicionamento ou reaproveitamento de medicamentos é uma abordagem para acelerar o processo de descoberta de medicamentos através da identificação de um novo uso clínico de um medicamento existente aprovado para uma indicação diferente. Nesse contexto, dentre algumas fármacos já conhecido que são candidatos a tratar o COVID-2019  tem-se o arbidol, cloroquinona, lopinavir, remdesivir, etc .[1]

Pesquisadores na França publicaram um estudo em que trataram 20 pacientes com COVID-19 com hidroxicloroquina. [2] Eles concluíram que o medicamento mostrava ação antiviral positiva, no entanto, não foi um estudo controlado randomizado e não relatou resultados clínicos, como óbitos. Em orientação publicada na sexta-feira, a Sociedade Americana de Medicina Intensiva disse que “não há evidências suficientes para emitir uma recomendação sobre o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em adultos gravemente enfermos com COVID-19”. [3] Diante das evidências controversas, ainda há muito caminho pela frente quanto ao uso satisfatório de cloroquina no tratamento de pacientes com COVID-2019. Mais informações sobre os ensaios podem ser encontradas em: https://clinicaltrials.gov/

A ribavirina é um medicamento antiviral aprovado pelo FDA, que é  usado em combinação com outros medicamentos para o tratamento da infecção crônica pelo vírus da hepatite C e febres hemorrágicas virais. Produzindo uma atividade de amplo espectro contra vários vírus de RNA e DNA, a ribavirina é um nucleosídeo sintético de guanosina que interfere na síntese de mRNA viral. Atualmente, estudos recentes sugerem que a ribavirina em combinação com interferon ou lopinavi/ritonavir  poderia ser eficaz para tratar a infecção por COVID-19. [1]

Atualmente, pelo menos nove ensaios clínicos sobre lopinavir/ritonavir estão em andamento na China. O resultado inicial sugeriu que o lopinavir e o ritonavir mostram atividade estimulante antiCOVID-19 in vivo, mas com efeitos colaterais intestinais.[4] No entanto, estudo em pacientes adultos hospitalizados com Covid-19 em seu estágio grave não demonstrou nenhum benefício significativo. [5] Adicionalmente, Uma dose fixa da combinação anti-HIV, lopinavir-ritonavir, está atualmente em ensaios clínicos com Arbidol ou ribavirina. [1]

O medicamento antiviral de amplo espectro Arbidol, que funciona como um inibidor da fusão de células hospedeiras de vírus, entrou em um ensaio clínico para tratamento de SARS-CoV-2. O arbidol é capaz de impedir a entrada viral nas células hospedeiras contra o vírus influenza. [1] Será que o arbidol vai funcionar para o tratamento da COVID-2019?

Desenvolvimento de vacina

É crucial o desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes para controlar a pandemia de COVID-19, eliminar sua propagação e, finalmente, impedir sua recorrência futura. Como o vírus SARS-CoV-2 compartilha homologia de sequência significativa com outros dois coronavírus letais, SARS e MERS (Para entender um pouco mais sobre SARS e MERS, visite nosso primeiro post dessa série: Química do coronavírus – parte I), as vacinas identificadas nessas patentes relacionadas aos vírus SARS e MERS poderiam facilitar o projeto de vacinas anti-SARS-CoV-2. [1]

A primeira dose da vacina contra o coronavírus denominada mRNA-1273, [1] desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e pela equipe de pesquisa de doenças infecciosas da Moderna, foi administrada ao primeiro participante do estudo de Fase 1 em 16 de março. A vacina de mRNA se baseia em moléculas sintéticas de RNA mensageiro (mRNA) – que contêm as instruções para produção de alguma proteína reconhecível pelo sistema imunológico. A ideia é que a defesa do organismo reconheça essas proteínas artificiais como um corpo estranho, levando o corpo a combatê-lo. Se der certo,  na presença do coronavírus, a célula terá desenvolvido a habilidade de identificar e combater o vírus real.

Á luz do exposto, nota-se um esforço conjunto para desenvolver medicamentos e vacinas eficazes contra infecções de coronavírus existentes e potenciais e outros surtos de vírus altamente patogênicos é necessário para reduzir os impactos na vida humana e nos sistemas de saúde em todo o mundo. Dado o processo oneroso e árduo envolvido no desenvolvimento clínico de medicamentos, o surto de COVID-19 destaca o valor do desenvolvimento de medicamentos antivirais de amplo espectro e a importância de aplicar abordagens inovadoras, como inteligência artificial, para facilitar a descoberta de medicamentos.

Nesse momento, somos todos responsáveis pelo avanço da infecção do coronavírus.

Fiquem em casa e evitem a transmissão do vírus!

Mapa de coronavírus

A pandemia de coronavírus afetou mais de 329.000 pessoas, segundo dados oficiais. Na manhã de segunda-feira, pelo menos 14.522 pessoas morreram e o vírus foi detectado em pelo menos 161 países, como mostram esses mapas. Para rastreamento do surto global em tempo real, click AQUI.


Coronavirus Disease (COVID-2019) Situation Reports 1–45; World Health Organization, 2020.

Referência bibliográfica

1. Liu, Cynthia, Qiongqiong Zhou, Yingzhu Li, Linda V. Garner, Steve P. Watkins, Linda J. Carter, Jeffrey Smoot, et al. “Research and Development on Therapeutic Agents and Vaccines for COVID-19 and Related Human Coronavirus Diseases.” ACS Central Science, March 12, 2020, acscentsci.0c00272. https://doi.org/10.1021/acscentsci.0c00272.

2. Nota da Editora: este artigo foi retratado e, portanto, retirado das referências.

3. Kupferschmidt, Kai. “WHO Launches Global Megatrial of the Four Most Promising Coronavirus Treatments.” Science, March 22, 2020. https://doi.org/10.1126/science.abb8497

4. Liu, Wei, Hai-Liang Zhu, and Yongtao Duan. “Effective Chemicals against Novel Coronavirus (COVID-19) in China.” Current Topics in Medicinal Chemistry, March 5, 2020. https://doi.org/10.2174/1568026620999200305145032.

5. Cao, Bin, Yeming Wang, Danning Wen, Wen Liu, Jingli Wang, Guohui Fan, Lianguo Ruan, et al. “A Trial of Lopinavir–Ritonavir in Adults Hospitalized with Severe Covid-19.” New England Journal of Medicine, March 18, 2020, NEJMoa2001282. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2001282.

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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp.
Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Gisele Silvestre

Atualmente, sou pesquisadora na área de inovação tecnológica no Laboratório Multiusuário de Química e Produtos Naturais sediado na Embrapa - CE (Postdoc). Doutora em Química pela Unicamp (2017). Bacharel em química pela Universidade Federal do Ceará (2011). Interessada na popularização da ciência, parcerias, trocas de conhecimentos científicos e culturais. Tenho como hobby o ato de "aprender" . O conhecimento sempre me surpreende e fascina. Minha missão é compartilhar conhecimento e descobertas científicas. Ciência para todos! Carpe Diem!

4 comentários

Mauricio Zaniolo · 24/03/2020 às 23:37

Parabéns pela forma clara e didática que foi utilizada , e pela apresentação com identificação das referências bibliográficas.
Dessa maneira é que se consegue ir vencendo gradativamente a pior doença do ser humano , a desinformação , que gera a ignorância e a intolerância .

    Gisele Silvestre · 26/03/2020 às 00:31

    Certamente, Maurício. Bem colocado…Obrigado e agradecemos o incentivo. 🙏🙏🙏🙏

Fernanda Lima · 03/04/2020 às 22:59

Parabéns pelo trabalho, Gi!

Michele · 27/06/2021 às 18:41

Obrigada!

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