Se acharmos um tratamento, o que acontece?

Seguindo uma linha otimista, vamos supor que a hidroxi-cloroquina funciona mesmo. Ai meu amigo leitor, temos a sorte grande! Pois, como ela é tratamento da malária, alguns laboratórios já dominam como obtê-la com sucesso. E como anunciado, os laboratórios do exército já estão atuando em obter uma grande quantidade da droga, apenas não temos informações se eles dominam o processo ou precisam desenvolvê-lo. Então vamos analisar os problemas que encontramos nesta solução, que não pode ser definida como a solução de todos os males.

Ainda não sabemos qual a dose que está sendo administrada, mas vamos supor que tenhamos que dar uma dose de 1000 mg do comprimido por dia, 1 g. Este número foi escolhido apenas para facilitar nosso cálculo e também por que no tratamento de lúpus, a dose é de 800 mg no início do tratamento. Voltemos a esta 1g, administrada por 7 dias, são 7 gramas de hidroxi-cloroquina por paciente. O número divulgado na mídia às 17:47 do dia 21 de março é de  1128 casos confirmados. Para tratar estas pessoas, apenas estas, por uma semana, precisamos de mais de 7 kg da droga. Precisamos de muitos laboratórios para termos a quantidade necessária para tratar todos os doentes previstos para o meio de abril nos hospitais, mesmo que apenas os casos mais graves. 

Falando em síntese, encontramos outros problemas:

  1. Agora vamos falar um pouco da produção. Pense numa reação simples:

A+B → C.

Quando misturamos reagentes químicos, não conseguimos garantir que A reaja unicamente com B, para formar C. A reage com A e forma AA, assim como B forma BB. Ou ainda, B perde um pedaço e vira P. Tudo que forma e não deveria, ou que sobra (nem tudo reage), chamamos impurezas. Assim as impurezas vão se somando ao longo da rota de obtenção, pois estamos falando de mais de uma etapa. O que precisamos é saber que na obtenção de C, pode ter um pouco de P. Então, temos que saber a quantidade de P e saber que P não faz mal. Afinal, não adianta dar C como remédio e ele ter o P lá no meio que causa infarto, ou dá câncer. (Se você precisou ler isso mais de uma vez para acompanhar, tudo bem, pois é mesmo complicado).

Agora extrapola para uma rota de 4 etapas (A+B → C→ D → E), em que no final temos as sobras dos reagentes e também outras impurezas que se formaram pelo caminho. Os produtos obtidos a cada etapa devem ser separados desta bagunça, passo a passo e também no final. Isso chamamos de garantir a pureza. Por isso obter uma molécula como a hidroxi-cloroquina pode não ser simples.

  1. Outro ponto importante é: quem começa a rota de síntese? O primeiro composto da rota chamamos de material de partida. Ele também precisa ser feito de moléculas simples ou então ser comprado. Se a hidroxi-cloroquina funciona mesmo, o mundo todo está de olho nos materiais de partida (e reagentes) para usarem na rota. Como o exército está obtendo? Normalmente no Brasil, a maioria dos reagentes ação importados, pois não temos uma indústria química muito forte no país, que produz materiais de partida e reagentes para nossas rotas.

Vamos dizer então que o processo está validado (sem impurezas) e que conseguimos os reagentes e materiais de partida. Vamos supor um lote do insumo chegue a 25 kg, e que a droga demore 5 dias para ser obtida, ainda assim a progressão da doença é maior do que o que podemos produzir. Ou seja, o laboratório que vai produzir, precisa estar funcionando 7 dias por semana,  24 horas por dia e ainda assim não conseguirá dar vazão. 

No Brasil, grande parte dos princípios ativos é comprada de laboratórios ao redor do mundo e embalados pelas indústrias farmacêuticas, que fazem o comprimido (ou xarope, ou suspensão, etc) com o princípio ativo. Quem faz o princípio ativo é a indústria farmoquímicas. Quando eu falo ao redor do mundo, falo em India, China, Taiwan, Itália, Espanha, e por aí vai. Creio que aqui, você já entendeu que cada um destes laboratórios está destinado a produzir para o consumo interno do país, não é mesmo?

Em resumo, ainda que a hidroxi-cloroquina ou outra droga funcione para o tratamento do Covid-19 ainda temos diversos outros desafios, mesmo correndo contra o tempo, com foco na segurança e eficácia em todas as etapas!

E o melhor caminho é: fique em casa!!!!

 

Para saber mais:

http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20171/7600011-3/Introducao-Farmacos-2017-compressed.pdf

https://www.ictq.com.br/industria-farmaceutica/384-desenvolvimento-de-farmacos-avancos-e-perspectivas (Acesso em 21 mar 2020)

Sangi, D. P. Estratégias de síntese na descoberta de fármacos: e emprego da síntese orientada pela diversidade estrutural. Quim. Nova, Vol. 39, No. 8, 995-1006, 2016.

Arrepia, D. B.; da Costa, J. C. S.; tabak, D. Registro de insumos farmacêuticos ativos: impactos e reflexos sobre as indústrias farmoquímica e farmacêutica instaladas no Brasil. Vigil. sanit. debate Vol 2, No 2, 9-19, 2015.

https://www.ictq.com.br/industria-farmaceutica/990-controle-da-qualidade-de-insumos-farmaceuticos-e-fundamental-para-eficacia-do-medicamento (acesso em 21 mar. 2020)

Jia Liu et al hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquin, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell discovery. Vol 6, No 16, 2020. 

Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

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