A Ortopedia, Arte e Ciência de Corrigir Deformidades

Quando você sente uma dor nas costas, qual médico você procura? Quando você torce o tornozelo, que especialista deve ser consultado? Nos dias atuais é tão natural procurar um ortopedista, que raramente nos damos conta do quão estranha é esta palavra. O que significa “Ortopedia”? Quem criou esta palavra? De que problemas cuida esta especialidade médica?

Podemos dizer que o pai da Ortopedia, ou seja, o primeiro ortopedista, foi o médico francês Nicholas Andry, que criou o termo “Ortopedia” em sua clássica publicação de 1741 chamada:

 

“Ortopedia, ou a Arte de Corrigir e Prevenir Deformidades em Crianças”.

 

A palavra deriva da combinacão dos termos gregos “orthos” (reto) e “paidion” (criança). Naquela época era moda demonstrar erudição criando novas palavras a partir de palavras gregas. Em seu livro, para ilustrar seus métodos de tratamento, ele usou a figura de uma simpática árvore em crescimento, amarrada a uma estaca (assim como fazem os jardineiros), que acabou se tornando o símbolo da especialidade (figura 1):

Figura 1: A árvore de Andry, símbolo da ortopedia.

O século XVIII entrou para a história como o “Século das Luzes” por causa do Iluminismo e pelo início das Revoluções Burguesas, marcando o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea. O ano de 1741 não teve nenhum grande evento histórico importante. Foi o ano da morte de Antônio Vivaldi, o compositor das Quatro Estações. Luis XV era o rei da França naquela época.

Nicholas Andry (1658-1742) nasceu em Lyon, na França. Estudou primeiro Teologia, depois Medicina, nas universidades de Reims e depois de Paris, onde se formou em 1697, aos 39 anos de idade. Acabou virando professor da Faculdade de Medicina de Paris, e mais tarde seu decano. Em 1741, aos 83 anos, publicou o livro que dá nome a nossa especialidade. O interessante é que o livro era um guia para os pais e não um texto médico. Apresentava técnicas para correção postural e exercícios de fortalecimento para as criancas.

Fato interessante é que Andry era um homem de personalidade difícil e um notável anti-cirurgião. Não gostava de cirurgias. Acreditava que o tratamento das deformidades deveria ser baseado em exercícios de fortalecimento, pois os desequilíbrios musculares seriam uma causa importante de problemas músculo esqueléticos. Dava ênfase a prevenção das deformidades através dos exercícios e da educação postural das crianças.

 

Em 1742 obrigou os cirurgiões franceses a se submeterem a Faculdade de Medicina. Até aquela época, os cirurgiões barbeiros eram pessoas práticas, que executavam serviços manuais, tais como cortar cabelos, extrair dentes, realizar pequenas cirurgias sem anestesia. Não eram médicos. Ironia do destino, porque os ortopedistas de hoje se transformaram em exímios cirurgiões (alguns até exageram nas indicações!). Também porque, como disse recentemente em 2002, numa entrevista amplamente divulgada, o ortopedista e médico da seleção brasileira na Copa do Mundo de Futebol, afirmou: “Não sou médico, sou ortopedista!”. Até hoje somos motivo de chacota pelas outras especialidades médicas por culpa desta pérola (e porque alguns colegas da especialidade gostam mais de praticar esportes do que estudar).

Além da palavra ortopedia e do símbolo da especialidade, Andry não produziu mais nada importante, porisso muitos questionam o título de “pai da ortopedia”. Argumentam que talvez o verdadeiro pai fosse o também francês Jean Andre Venel, que em 1780 criou a primeira instituição voltada para o tratamento de deformidades, uma espécie de AACD daquele tempo. Com isto, vemos que a ortopedia se dedica a correção de deformidades do aparelho musculoesquelético. Mais tarde, uma fonte frequente de deformidades, o TRAUMA, foi adicionado ao escopo da especialidade, que passou a se chamar Ortopedia e Traumatologia. A representante máxima da especialidade no Brasil é conhecida pela sigla SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia). 

 

No Brasil, acontece um fenômeno interessante e que intriga os médicos norte-americanos: as dores musculoesqueléticas são tratadas pelos ortopedistas. Existe uma especialidade própria que cuida dessas dores, a Reumatologia. Só que por motivos que vão além do objetivo desta postagem, poucos brasileiros já ouviram falar de um reumatologista, ainda que eles existam. Teoricamente, quando uma doença reumatológica (os populares reumatismos) causam uma deformidade, aí sim haveria campo para a atuação do ortopedista. Por isso, quando um brasileiro com dor nas costas diz que vai procurar um ortopedista (isso por aqui é rotina), para um norte-americano soa como se alguém que tem pressão alta fosse procurar um cirurgião cardíaco!

 

Em tempo: Este ano (2017), o Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP completou 50 anos. É considerado um dos serviços mais importantes do Brasil. Outro fato marcante que liga nossa cidade com a Ortopedia é que o exame para obtenção do título de especialista em ortopedia da SBOT ocorre todos os anos em Campinas. Médicos residentes de todo o Brasil vem para cá em busca do tão sonhado título, para o qual se preparam durante 3 anos. A UNICAMP foi pioneira no estabelecimento desse período de treinamento de 3 anos.

 

 

 

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

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