Medicina Regenerativa 2020: de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

Autores: Alessandro R Zorzi, Ângela C M Luzo

Finalmente foi publicada a norma que regulamenta o uso de células-tronco e outros produtos usados em Medicina Regenerativa, para uso clínico no Brasil.

O que é Medicina Regenerativa? A clara definição deste termo é fundamental para o desenvolvimento desta área. De acordo com Mason & Dunnill, “A medicina regenerativa substitui ou regenera células, tecidos ou órgãos humanos, para restaurar ou estabelecer a função normal” (1). Como? Através da interação de diversas áreas do conhecimento científico: biologia celular e molecular, biomateriais e nanotecnologia, engenharia de tecidos, genética, imunologia e o que mais a imaginação do pesquisador puder alcançar.

O termo “Medicina Regenerativa” foi usado pela primeira vez em um artigo de 1992 sobre administração hospitalar escrito por Leland Kaiser. O artigo de Kaiser termina com uma série de parágrafos curtos sobre tecnologias futuras que impactarão os hospitais. Um parágrafo tinha “Medicina Regenerativa” como um título impresso em negrito e afirmava: “Um novo ramo da medicina se desenvolverá que tentará mudar o curso da doença crônica e, em muitos casos, irá regenerar sistemas orgânicos degenerados ​​ou com falhas”.

O uso generalizado do termo entretanto é atribuído a William A. Haseltine (fundador da Human Genome Sciences). Haseltine foi informado sobre o projeto para isolar células-tronco embrionárias humanas e células germinativas embrionárias na Geron Corporation em colaboração com pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison e da Escola de Medicina Johns Hopkins. Ele reconheceu que a capacidade única dessas células de se diferenciar em todos os tipos de células do corpo humano (pluripotência) tinha o potencial de se transformar em um novo tipo de terapia regenerativa. Explicando a nova classe de terapias que essas células poderiam possibilitar, ele usou o termo “Medicina Regenerativa” da maneira que é usada hoje: “uma abordagem à terapia que emprega genes, proteínas e células humanas para crescer novamente, restaurar ou fornecer substituições mecânicas para tecidos que foram feridos por trauma, danificados por doenças ou desgastados pelo tempo e oferecem a perspectiva de curar doenças que hoje não podem ser tratadas com eficácia, incluindo aquelas relacionadas ao envelhecimento ” (2).

Na última década, houve um aumento enorme no interesse de usar terapias biológicas baseadas nos conceitos de Medicina Regenerativa, para cuidar de pacientes com lesões do sistema locomotor. Além de aliviar sintomas, a ideia é encontrar uma forma de frear a evolução da osteoartrite e outras patologias que poderiam destruir progressivamente a articulação. Nos Estados Unidos criou-se a expressão “orthobiologics” para se referir a estas terapias biológicas. No Brasil, o termo mais usado continua sendo Medicina Regenerativa.

As terapias biológicas mais usadas em ortopedia atualmente são as que utilizam células autólogas, ou seja da própria pessoa. São exemplos bastante conhecidos o Plasma Rico em Plaquetas (PRP) e as células mesenquimais obtidas da medula óssea (BMAC) ou da gordura (Lipogens). Enquanto o uso destas terapias parece ser bastante promissor, ainda existe muito preconceito e questionamento a respeito da eficácia destas terapias. Em geral, raros procedimentos cirúrgicos praticados diariamente foram tão cobrados ou questionados quanto as técnicas de medicina regenerativa.  Apesar disso, a pressão de mercado e a pressão dos pacientes tem levado ao uso clínico indiscriminado, muitas vezes em situações mal indicadas.

No Brasil, o uso de terapias biológicas é regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Enquanto nos Estados Unidos e Europa o uso já autorizado, no Brasil aguardamos a conclusão da trilogia regulatória da ANVISA:

  1. RDC 214 de Fevereiro de 2018: dispõe sobre as Boas Práticas em Células Humanas para Uso Terapêutico e pesquisa clínica, e dá outras providências.
  2. RDC 260 de Dezembro de 2018: dispõe sobre os procedimentos e requisitos regulatórios para a realização de ensaios clínicos com produtos de terapia avançada investigacional, (RDC 260 de Dezembro de 2018)
  3. A terceira e última RDC ainda não foi publicada, mas foi colocada para consulta pública no segundo semestre de 2019. Prepara o lançamento em breve das normas para uso clínico e comercialização dos produtos de terapia avançada, o que permitirá finalmente o uso clínico em hospitais e consultórios.

A permissão para uso clinico de produtos de manipulação mínima, tais como o PRP e o BMAC, em países da América do Norte e Europa, resultou em um aumento brutal do uso destas terapias na área da Ortopedia e Traumatologia e principalmente na Medicina Esportiva. Em 2015 a Academia Americana de Cirurgiões Ortopedistas (AAOS) organizou um simpósio com diversos especialistas de diferentes áreas do conhecimento, chegando à conclusão de que a Medicina Regenerativa deve ser implantada progressivamente no arsenal terapêutico dos ortopedistas, mas com uma abordagem translacional fundamentada em sólidas bases científicas (Medicina Baseada em Evidências). A colaboração entre pesquisadores, agencias reguladoras e a indústria é fundamental para atingir este objetivo (3).

Apesar deste consenso, o uso indiscriminado e desordenado de terapias biológicas em consultórios médicos contrasta com a abordagem promissora que vem sendo realizada por grupos de pesquisa sérios, transformando as descobertas mais recentes nas áreas de cultura celular, biomateriais e engenharia de tecidos, em terapias inovadoras nas mais diversas especialidades médicas. Alguns produtos de terapia avançada já chegaram inclusive ao mercado após rigorosos testes e ensaios clínicos. São exemplos produtos como MACI (Vericel, USA) e o Spherox (Co.Don, Germany) usados para o tratamento de lesões isoladas da cartilagem e o Invossa (Kolon Tissue Gene, South Korea), usado no tratamento da osteoartrite.

No futuro breve, será possível iniciar o uso clínico de tais produtos no Brasil, mas antes é preciso combater o preconceito e estimular o progresso e a inovação através de práticas sérias e comprovadas, com o endosso das agencias regulatórias como a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), das entidades de classe como o CFM (Conselho Federal de Medicina) e das sociedades de especialidades médicas, como a SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia).

 

Aliás, 18/02/2020 será lembrada como uma data histórica para a Medicina Regenerativa no Brasil, pois finalmente foi publicada a RDC 706 da ANVISA, regulamentando o uso de células-tronco e outros produtos biológicos no Brasil.

 

Os autores:

 

Alessandro Rozim Zorzi é médico ortopedista especialista em cirurgia do joelho, atuando no Hospital de Clínicas da Unicamp. Pesquisador médico em terapia celular da cartilagem no Hospital Israelita Albert Einstein e professor de medicina na Faculdade São Leopoldo Mandic, com mestrado e doutorado na Unicamp. Atualmente é também vice-coordenador do Comitê de Ética da Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp e um dos editores do projeto de divulgação Blogs de Ciência Unicamp.

 

Ângela Cristina Malheiros Luzo é médica Hematologista -Hemoterapeuta, foi Diretora Médica do Serviço de Transfusão e do Laboratório de Processamento Celular  (Banco de Sangue de Cordão Umbilical Humano e Laboratório de Criopreservação de Células Tronco Hematopoiéticas) no período de 1990 a 2019 no Hemocentro da Unicamp. Faz pesquisa em medicina regenerativa desde 2008 tendo feito mestrado e doutorado nesta linha na UNICAMP. Atualmente é Pesquisadora Colaboradora do Instituto de Biologia da UNICAMP,  Professora permanente da Disciplina de Pós Graduação em Ciências da Cirurgia do Departamento de Cirurgia, FCM – UNICAMP e auditora em Terapia Celular pela American Association of Blood Banks em parceria com a Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e Terapia Celular.

 

 

Referências

 

  1. Mason, Chris; Dunnill, Peter (2008). “A brief definition of regenerative medicine”. Regenerative Medicine. 3 (1): 1-5
  2. https://en.wikipedia.org/wiki/Regenerative_medicine, consultado em 06/02/2020.
  3. Lamplot, J. D., Rodeo, S. A., & Brophy, R. H. (2020). A Practical Guide for the Current Use of Biologic Therapies in Sports Medicine. The American Journal of Sports Medicine, 48(2), 488–503. https://doi.org/10.1177/0363546519836090

 

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

19 thoughts on “Medicina Regenerativa 2020: de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

  • 2 de dezembro de 2020 em 05:29
    Permalink

    bom artigo. Ótimo trabalho

    Resposta
    • 10 de dezembro de 2020 em 18:28
      Permalink

      Obrigado 😉

      Resposta
      • 30 de dezembro de 2020 em 18:36
        Permalink

        Ola tudo bem tenho um filho com paralisia cerebral gostaria de saber se ele está apto a participar da pesquisa

        Resposta
        • 26 de maio de 2021 em 20:54
          Permalink

          Minha filha tem NPC (JA ESTIVEMOS NA UNICAMP (DR.FRANCO)
          TEM ATAXIA. A MAO ESQUERDA (MESMO COM O EFEITO DO BOTOX) NAO ESTA TENDO SUCESSO (DOR). Haveria possibilidade dessa pesquisa.
          Gostaria de informação ( No DNA( somente UM CROMOSSOMO tem o defeito( doenca).Há pesquisas de se ter a possibilidade de oferecer
          ao cromossomo doente alguma forma do cromossomo sadio?)

          Resposta
          • 7 de junho de 2021 em 09:15
            Permalink

            Olá Meirilice. Pela sua descrição, acredito que você está querendo informação sobre TERAPIA GÊNICA. É diferente do tratamento com células-tronco. Na terapia gênica, um vírus seguro para seres humanos é usado como veículo. Ele transporta para dentro das células do paciente, através da corrente sanguinea, o gene que está faltando. Isso existe atualmente para poucas doenças. Uma delas é a HEMOFILIA. A UNICAMP é o único centro brasileiro que participa do estudo internacional com terapia gênica pata tratamento da hemofilia. Até onde sei, desconheço atualmente estudos com terapia gênica para NPC. Mas é uma grande esperança.

  • 5 de dezembro de 2020 em 13:44
    Permalink

    Gostaria de saber da.medicina regenerativa em distrofia muscular de duchenne,tenho um filho com a patologia com 20 anos

    Resposta
    • 10 de dezembro de 2020 em 18:12
      Permalink

      Oi Silvana, na Unicamp estamos realizando estudos com outras patologias neurológicas, como a Esclerose Lateral Amiotrófica e Esclerose Múltipla, mas não Duchenne. Em São Paulo, a Profa Mayana Zats da USP tem feito muitas pesquisas nesta patologia.

      Resposta
      • 21 de agosto de 2021 em 07:42
        Permalink

        A Unicamp já faz tratamento ou cirurgia de célula tronco pra condromalacia patelar? Aguardo retorno preciso da minha vida de volta 🙏 tenho 62 anos há 4 anos minha qualidade de vida acabou! já fiz várias infiltrações e ácido hialurônico , fisioterapia, hidroterapia, musculação.O pior que tenho artrose grau 2 na coluna e não saberia dizer qual e pior 😞 sou do RJ .

        Resposta
        • 6 de setembro de 2021 em 10:59
          Permalink

          Oi Lucia, faz sim. Mas tenho duvida se seu diagnostico é condromalacia. Muito provável que você tenha ARTROSE.

          Resposta
  • 10 de dezembro de 2020 em 12:12
    Permalink

    Meus danos do envelhecimento (83 anos): HPB (30 anos) + D.E. + Calcificação algumas artérias coronárias (não tratadas ainda) + ateromatose coronária (levando a duas angioplastias com stents, com ansiedade e stress SEVEROS como prováveis concausas) + tosse crônica esofágica erosiva B + apnéia do sono (cepap eventual) e outros menores. Diante da anamense acima, no que e como a Medicina Regenerativa poderia ajudar, até que vivamos até a chegada da Medicina da Imortalidade do Ray Gray (kkkk)e do Aubrey de

    Resposta
    • 10 de dezembro de 2020 em 18:07
      Permalink

      E o pulso ainda pulsa né Marcelo?! É isso aí, o importante é a boa vontade de viver, mesmo tendo que superar diversas adversidades. Como diz meu pai que tem 81 anos, é isso ou morrer jovem. Então melhor isso! De fato, o “Elixir da Longa Vida” é procurado desde a Idade Média, sem sucesso. Desde que o mundo é mundo as pessoas envelhecem. Os conceitos da Medicina Regenerativa podem ser aplicados de duas formas em relação ao envelhecimento: profilática, para evitar que as coisas cheguem onde chegaram para o senhor; e paliativa, neste caso para diminuir a dor e melhorar a qualidade de vida. neste sentido, alguns artigos tem relatado bons resultados para alivio de dores articulares com injeções de células do tecido gorduroso por exemplo. Mas o senhor tem razão, ainda temos muito que aprender e desenvolver neste campo.

      Resposta
  • 27 de janeiro de 2021 em 18:18
    Permalink

    Olá Senhoras (es)

    Fui diagnosticado com tendinopatia do maguito rotator, ocorre que possuo lesões tendineas no ombro esquerdo e direto, sofro a mais de 12 anos com dores diárias, segundo o meu ortopedista, os tendões do subraespinhoso não são capazes de recuperar sozinhos, haja vista a baixa vascularidade. Tentei todos os tratamentos convencionais, inclusive, cirúrgico, e estes não apresentaram resultados satisfatório. Pergunto se a aplicação de PRP poderia me ajudar neste caso. Moro em fortaleza, todavia, estou disposto a ir até São Paulo participar da pesquisa.

    Desde já agradeço

    Carlos Alberto

    Resposta
    • 9 de fevereiro de 2021 em 11:46
      Permalink

      Olá carlos, é bastante provável que sim, que possa ser útil e te ajudar. Mas vai ser necessário avaliar seu caso detalhadamente, para poder saber com exatidão a resposta.

      Resposta
  • 1 de março de 2021 em 16:37
    Permalink

    Dr. Boa tarde! Ha 4 anos
    Sofri uma uma lesão medular provocada por uma síndrome pós laminectomia/ síndrome da cauda equina. Faço uso de poli farmácia ( restiva, vilija dentre outros). Também faço bloqueio facetario seriado. Tenho 42 anos.
    O senhor Acha que o tratamento regenerativo pode ser uma alternativa de cura? Moro em Goiânia

    Resposta
    • 12 de março de 2021 em 11:53
      Permalink

      Ola Romenha, pode ser uma opção em teoria. No momento não temos nenhum estudo em andamento em pacientes pós cirúrgicos. Mas sabemos que as células mesenquimais atuam sim diminuindo a dor e a inflamação.

      Resposta
      • 26 de junho de 2021 em 20:30
        Permalink

        Olá, tenho perda de cartilagem no fêmur direito , e sinto dores em todas articulações, fiz muito esporte na juventude e agora mal posso andar, gostaria de participar das pesquisas de medicina regenerativa, pois não quero cortar o meu fêmur antes de tentar outra alternativa.

        Resposta
        • 5 de julho de 2021 em 08:32
          Permalink

          Anotado. Fique atento às redes sociais. No momento por causa da pandemia, não estamos realizando nenhum estudo. Mas acredito que no próximo semestre vamos conseguir recomeçar. Meu intagram e facebook é @drzorzi

          Resposta
  • 17 de agosto de 2021 em 12:34
    Permalink

    Tenho osteoporose desde que entrei na menopausa, qual a chance de obter um tratamento inovador para o esse problema?

    Resposta
    • 6 de setembro de 2021 em 11:01
      Permalink

      Oi Maristela, o tratamento não precisa necessariamente ser inovador. Temos ótimas opções muito eficazes na medicina atual. Precisa procurar um médico e conversar sobre as muitas opções.

      Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *