Biorrepositório de Células Musculoesqueléticas

Qualquer material biológico obtido durante uma cirurgia humana, só pode ter dois destinos: laboratório de patologia ou incineração. Entretanto, uma terceira possibilidade existe: células obtidas de tecidos humanos descartados durante procedimentos cirúrgicos ortopédicos podem ajudar a viabilizar pesquisas que tragam respostas inovadoras a perguntas tanto clínicas quanto da ciência básica.

Imagine a seguinte situação: você está no quarto do hospital, pois irá submeter-se a uma cirurgia no joelho para corrigir uma lesão. Antes de ir para o centro cirúrgico, alguém bate a porta; você, imaginando ser o médico ou enfermeiros prontos para te levarem, responde positivamente que podem entrar. Quando a porta se abre, uma pessoa vestindo um jaleco, com uma prancheta nas mãos aparece. Logo você pensa que pode ser algum médico ou então uma enfermeira que precisa de mais dados seus. Mas quando esta se apresenta, você percebe que não é nada disso. Mesmo não tendo nenhuma relação de prejuízo ou benefício direto para sua cirurgia, o que ela está explicando e pedindo pode ser algo muito valioso e interessante para a ciência: ela pede sua permissão para que durante sua cirurgia, os tecidos e materiais biológicos que por ventura sejam retirados; ao invés de serem descartados e incinerados, sejam concedidos para um laboratório, no qual as células de cada tipo de tecido serão separadas, selecionadas, cultivadas e caracterizadas para que sejam feitas inúmeras pesquisas.

          Os médicos cirurgiões podem não saber, mas para as áreas de pesquisa do que comumente chamamos de experimental life sciences e biotecnologia médica, eles diariamente, lidam com um material preciosíssimo para nós pesquisadores; o material biológico! Sendo o número total de cirurgias estimadas por ano no mundo em torno de 234 milhões em 2008 (Weiser et al), e falando especificamente sobre as cirurgias ortopédicas, no qual figuram entre os dez procedimentos cirúrgicos mais realizados nos EUA, no qual a cirurgia de joelho e cirurgia para reparo de fratura estão entre o 3º e o 5º tipos de procedimentos mais comuns (Dallas, 2019). Para se ter uma idéia, de acordo com um relatório global publicado pela Research and Market, em 2017, o número de procedimentos cirúrgicos ortopédicos realizados em todo o mundo totalizou aproximadamente 22,3 milhões. O número de procedimentos por ano deve crescer a uma taxa composta anual de 4,9% no intervalo 2017-2022, aproximando-se de 28,3 milhões até 2022, tornando esta uma das categorias de procedimento cirúrgico de crescimento mais rápido. Todos esses números e dados sugerem então que com o passar dos anos, tanto o número total de cirurgias, como especificamente o número de cirurgias ortopédicas tendam a aumentar significativamente, e para as pesquisas baseadas em terapia celular e gênica, estas estimativas se traduzem em excelentes chances para a implantação de Bancos de Tecidos e Células no qual os Biorrepositórios e Biobancos de amostras biológicas se enquadram. 

          No entanto, existem grandes diferenças entre bancos de tecidos e banco de células, e, dentro da classificação de banco de células, Biorrepositórios e Biobancos apresentam funções e características igualmente distintas. 

           Tanto a Resolução CNS nº 441/2011 quanto a Portaria nº 2201/2011 do Ministério da Saúde definem Biorrepositórios como uma “coleção de material biológico humano, coletado e armazenado ao longo da execução de um projeto de pesquisa específico, conforme regulamento ou normas técnicas, éticas e operacionais pré-definidas, sob responsabilidade institucional e sob gerenciamento do pesquisador, sem fins comerciais”. Já Biobancos caracterizam-se como “coleção organizada de material biológico humano e informações associadas, coletado e armazenado para fins de pesquisa, conforme regulamento e normas técnicas, éticas e operacionais pré-definidas, sob responsabilidade institucional, sem fins comerciais”. 

          Sendo assim, toda vez que um projeto de pesquisa é escrito e submetido aos comitês de ética via Plataforma Brasil (sistema eletrônico criado pelo Governo Federal para sistematizar o recebimento dos projetos de pesquisa que envolvam seres humanos nos Comitês de Ética em todo o país), há então o pedido de estabelecimento de um biorrepositório para que seja possível a permissão de armazenamento de material biológico durante a execução do projeto. O que ocorre, é que dependendo do tempo estipulado para execução, todo esse processo de coleta, isolamento, cultivo, experimentação, análise e manutenção dessas amostras na grande maioria dos casos, é um processo demasiadamente minucioso, altamente burocrático, trabalhoso, difícil sendo por estas e inúmeras outras razões nem sempre possível contemplar todos os objetivos propostos para obtenção de resultados significativos e relevantes, o que invariavelmente acarreta em estudos duvidosos ou muitas vezes somente incompletos, nos quais obviamente acaba por não produzir uma ciência de alta qualidade. Para se ter uma idéia, quando há a implantação de um biorrepositório, uma das maiores e mais importantes fases da pesquisa, é a etapa de coleta de material e padronização; desta maneira, cada pesquisador, ou grupo de pesquisa tem seus protocolos estabelecidos para diferentes tipos de técnicas; e falando especificamente para cultura celular, no qual é literalmente um universo a parte, o método como são coletadas, isoladas, contadas, cultivadas e caracterizadas faz toda a diferença no momento dos experimentos e consequentemente nas análises. Sendo assim, os Biorrepositórios acabam sendo coleções muito específicas de amostras biológicas de diferentes grupos, que muitas vezes não passam pelo rigor de uma coleção altamente padronizada que segue todos os requisitos globais de boas práticas de manipulação (GMP – good manufacturing practices). Há desta forma, uma tendência global que vem se verificando, sobre o surgimento de coleções de amostras biológicas altamente padronizadas, gerando desta maneira alto padrão de qualidade para que pesquisadores de instituições e centros de pesquisas públicos e privados, tenham acesso a um material de alta qualidade e reprodutibilidade. 

          Diante desta tendência global, O Banco de Tecidos e Terapia Celular, localizado no Hospital de Clínicas da Unicamp, possui desde 2019 um projeto aprovado para coleta de tecidos musculoesqueléticos humanos para implantação primeiramente de um biorrepositório no qual com o passar do tempo e validações para qualificação, a proposta é que se torne um biobanco de amostras musculoesqueléticas servindo também para outros tipos de amostras abrangendo e beneficiando outras especialidades médicas que já demonstraram interesse. Atualmente, a Unicamp já conta com alguns biobancos em pleno funcionamento, dentre eles o do CAISM (Centro de Atenção Integral a Saúde da Mulher – Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti), que foi implantado em 2017 e possui licença para armazenamento de diferentes tipos de amostras e que já contribuiu para inúmeras publicações relevantes de alto impacto nas áreas de ginecologia, biologia molecular, zica vírus, oncologia dentre várias outras áreas. 

Refs: 

Globe News Wire. Research and Markets. Global Orthopedic Surgery Market Report, 2017 to 2022 – Procedure Volume Trends by Type, Country, and Region. Retirado de: https://~+www.globenewswire.com/news-release/2019/08/13/1901268/0/en/Global-Orthopedic-Surgery-Market-Report-2017-to-2022-Procedure-Volume-Trends-by-Type-Country-and-Region.html. Acesso em 07/01/2020. 

Weiser TG, Regenbogen S, Thompson KD, Haynes AB, Lipsitz SR, Berry WR, Gawande AA. An estimation of the global volume of surgery: a modelling strategy based on available data. 2008. 371 (9633) 139 – 144. DOI:https://doi.org/10.1016/S0140-6736(08)60878-8 

https://www.healthgrades.com/right-care/tests-and-procedures/the-10-most-common-surgeries-in-the-u-s Acesso em 07/01/2020.

RESOLUÇÃO CNS Nº 441, DE 12 DE MAIO DE 2011 https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2011/Reso441.pdf. Acesso em 07/01/2020.

Portaria nº 2201/2011. Ministério da Saúde. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt2201_14_09_2011.html Acesso em 07/01/2020.

Biobanco do Caism busca biomarcadores para diagnóstico e tratamento de câncer de mama e ovário. https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2019/02/22/biobanco-do-caism-busca-biomarcadores-para-diagnostico-e-tratamento-de-cancer Acesso em 07/01/2020.

Um banco de pesquisa (e da vida). Material humano armazenado em hospital da Universidade impulsiona a investigação científicahttps://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/08/21/um-banco-de-pesquisa-e-da-vidaAcesso em 07/01/2020.

Autora: Helga C. N. Holzhausen – Bióloga pesquisadora no Banco de Tecidos e Terapia Celular do HC/UNICAMP. Doutora em Biologia Geral e Aplicada com ênfase em Biologia Celular Estrutural e Funcional. Atua na área de células-tronco aplicadas à engenharia de tecidos e medicina regenerativa. 

Alessandro Zorzi

Médico ortopedista e pesquisador na UNICAMP e no Hospital Albert Einstein, com mestrado e doutorado em ciências da cirurgia pela UNICAMP e especialização em pesquisa clínica pela Harvard Medical School.

One thought on “Biorrepositório de Células Musculoesqueléticas

  • 11 de fevereiro de 2021 em 01:16
    Permalink

    Muito interessante, Dr. Pena sofrermos com tanta burocracia que atrasa tanto a evolução da ciência.
    Nesse ano de 2021 passarei por 3 procedimentos cirúrgicos (em cada ombro e nos 2 joelhos). Sou do RJ, se eu pudesse de alguma forma realizar alguma dessa doação, estaria disposto a ajudar.

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