bloco de notas

Você é uma dona-de-casa que vai para o mercado fazer suas compras mas não se sente segura no caminho? Você é uma moça que quer se vestir como bem entender, mas sabe que precisa se defender de alguns canalhas? Você é um jornalista que, cada vez mais, precisa se defender para fazer seu trabalho mas não quer apelar para uma arma de fogo? Não importa qual o seu caso: você só precisa ter um simples bloquinho de anotações à mão. Ao menos é o que diz Yoshiro Nakamats, inventor da Self defense weapon with memo [Arma de autodefesa com memorando]:

Uma arma de autodefesa para uso por uma vítima sujeita a ser atacada por um perpetrador que inclui um bloco de notas [memo pad] com uma pluralidade de páginas. O bloco de notas tem uma pluralidade de margens e uma indentação em pelo menos uma das margens adaptada para aceitar pelo menos parte de pelo menos um dedo da mão da vítima, de modo que a indentação facilite a capacidade da vítima de agarrar firmemente e segurar o bloco de notas na mão da vítima, a qual pode ser usada pela vítima como arma de autodefesa para se esquivar dos perpetradores.

Pelo menos você só vai precisar de um bloquinho de notas! Se for made in Japan, melhor ainda! Japonês de Minato-ku, região metropolitana de Tóquio, Yoshiro Nakamats cruzou o Pacífico apenas para registrar mais este uso para um caderninho de anotações no U.S. Patent Office. Nakamats-san entrou com o pedido em 8 de outubro de 1996. Pouco mais de dois anos depois, em 20 de outubro de 1998, era aprovada a patente nº. 5.823.572 [pdf]. Ironicamente, Nakamats não foi muito inventivo na defesa de sua arma de autodefesa. Ele argumenta apenas que

Dispositivos de autodefesa convencionais incluem buzinas [buzzers], alarmes, etc, mas tais dispositivos são pesados, volumosos e caros. A presente invenção é leve e assim pode facilmente ser levada em uma bolsa. Também é barata e, além disso, informações sobre a aparência do meliante, sua altura e local e data podem ser escritas no bloco de notas.

Mas qual a diferença desse bloco de notas para um caderninho comum? Para o inventor, “um bloco de notas convencional tem uma forma quadrada com faces laterais retas e é inconveniente para segurar com uma mão.” Além de dificultar a escrita — “especialmente para pessoas que precisam de escrita veloz, como repórteres e estenógrafos” — um bloco de notas comum escorrega com facilidade.

Convenhamos, um bloquinho de notas não é muito útil como arma de autodefesa. E como Nakamats transforma uma pequena pilha de papel pautado em arma? Basta um formato relativamente ergonômico e uma espiral triangular em vez de circular. Para o U.S. Patent Office isso foi o bastante para configurar uma invenção inovadora e digna de ser protegida.

Além de patética, não é uma ideia lá muito efetiva. No máximo, o que a vítima vai conseguir é arranhar o assaltante ao mesmo tempo em que estraga a espiral do seu caderninho. Ainda que a espiral triangular seja reforçada, ela vai sofrer deformações que que talvez inutilizem sua funcionalidade original, que é a de unir as folhas de papel e permitir que elas sejam rapidamente viradas. Ao fazer força para usar o bloquinho como arma, parece inevitável amarfanhar as folhas de papel, o que também as inutiliza.

Além do mais, o lado prático de tomar nota da situação logo em após a ocorrência depende de condições favoráveis. Você sempre vai precisar levar uma caneta. Parece coisa óbvia, mas é fácil se esquecer disso. Mais fácil ainda é perder a caneta ou — o que seria ainda mais patético — vê-la ser levada pelo próprio ladrão. O local do crime também precisa colaborar. Não vai adiantar nada ter papel e caneta na mão debaixo de chuva ou durante a noite, numa área muito mal-iluminada. Descrever um sujeito mascarado ou de capacete também não ajudaria muito. E por mais ergonômico que seja o formato do bloco de notas, vai ser difícil descrever a ocorrência se você estiver com as mãos trêmulas e em estado de choque.

Em tese, até o uso de papel como instrumento autodefesa está obsoleto. Teoricamente, seria mais efetivo se defender a golpes de smartphone ou tablet. Além de mais pesados, eles ainda podem tirar fotos do criminoso e, como têm GPS, podem facilmente registrar o local do crime e até indicar a delegacia mais próxima.

Isso, claro, se seus gadgets não forem levados pelo meliante.


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