O inglês de Joel Santana: muito mais que um sotaque

Será que o sotaque é realmente o problema de Joel Santana?

Sei que o assunto já morreu faz um tempo (meia década), mas talvez seja bacana trazer este tema de volta. Em meados de 2009, Joel Santana, o folclórico técnico e rei dos campeonatos estaduais, campeão baiano pelo Bahia e pelo Vitória, campeão por todos os times grandes do Rio de Janeiro e pelo o Fluminense, e então treinador da seleção de futebol da África do Sul, ficou um pouquinho mais famoso. A razão foi a entrevista abaixo, concedida durante a Copa das Confederações, torneio teste para a Copa do Mundo de 2010.

E aí? Difícil de entender? Então tente ver novamente, agora com a seguinte transcrição:

“My EQUIPE played very nice. In the first time (É…) Iraq and South Africa play same, but in second time I have the control the match. We controlled the match, my EQUIPE played in the left, in the right, in the medium. I had one best opportunity for the score.

Iraq marked in the medium from behind. E after, in the second time, I make two changes. One player experienced, Katlego Mashedo, and another player QUE have experience, QUE play, play very good, Steven Piennar. But I(?) don’t made the goal(?).”

Como definir “sotaque”?

Podemos continuar agora que você entendeu a entrevista. Após ver este vídeo, jornalistas de todo Brasil começaram a falar do forte sotaque do ‘Papai Joel’ (lembrando que seu nome é Joel Natalino Santana e que seu aniversário é no dia 25 de Dezembro). Ao meu ver, porém, seu sotaque é a menor das questões aqui. Vejamos a seguir a seguinte definição do verbete “sotaque”, retirado do Dicionário Aurélio, disponível online no site do Tribunal de Contas da União.

“2. E. Ling. Pronúncia característica de um indivíduo, de uma região, etc.; acento.”

Repare que, segundo esta definição, sotaque é relacionado à pronúncia característica de alguém. Em termos mais técnicos, pode ser entendido como um termo relacionado às características do controle motor durante a fala de alguém. Isso pode ser explicado em termos de aquisição de linguagem e de percepção da fala.

Aquisição de Linguagem

Do lado da aquisição, os linguistas sabem que bebês já conhecem muito mais sobre sua língua do que elas de fato conseguem produzir. Isso fascina os linguistas e os motiva a desenvolverem diversos métodos cada vez mais criativos para obter respostas sobre o conteúdo deste conhecimento ainda oculto. E assim é possível mapear o momento em que as crianças desenvolvem determinados conhecimentos. Uma das razões para que os bebês sejam incapazes de produzir tudo o que sabem é que, junto com a língua, ele também está desenvolvendo o seu controle motor, aprendendo a lidar com os movimentos dos músculos de sua face, língua e boca.

Percepção da Fala

As crianças nascem como ouvintes universais, capazes de distinguir qualquer som existente ou que possa vir a existir nas línguas naturais, por mais parecidos que estes sons possam parecer. Nós, brasileiros, possuímos 14 vogais (as 7 que você aprende na escola e suas versões nasais). Por esta razão, temos uma enorme dificuldade perceber a diferença entre as mais de 20 vogais do francês, muitas que nunca escutamos na vida. Por exemplo, precisamos de muita prática para diferenciar a pronúncia das palavras enfin (enfim) e enfant (criança).

Outra dificuldade comum é perceber e realizar o famoso “biquinho do U” como em “lune” (lua), que compartilha algumas características do I e do USerá por isso que temos duas versões daquele prato que fazemos amassando batatas e adicionando leite e queijo (purê ou pirê)? Ou também daquela forma de servir comida em grande quantidade para um grande número de pessoas (bufê ou bifê)? Por outro lado, a criança falante nativa, no momento em que consegue controlar seus músculos, já consegue também distinguir e reproduzir qualquer destes sons sem a menor dificuldade.

O sotaque do Joel é o verdadeiro problema? Resposta: Não!

O Joel tem sim seu sotaque ao falar inglês, o que é perfeitamente normal e notável. Muitos de vocês já se sentiram desconfortáveis ao conversar em inglês com falantes nativos de outras línguas como francês ou japonês, e nós também temos nosso sotaque originado da forma como os músculos de nossa boca (além de outras questões perceptuais) foram treinados para a nossa língua. Mas a questão vai muito mais além: até que ponto o Joel está falando inglês?

Vou começar a responder esta pergunta com outra pergunta: você tem dificuldade em ler um texto em inglês e traduzir na hora em voz alta para uma pessoa do seu lado? Algumas pessoas conseguem realizar esta tarefa com mais facilidade, outras não. Eu estou no segundo grupo. Mas agora tente fazer exatamente isso com a transcrição da entrevista do Joel Santana.

“Minha EQUIPE jogou muito bem. No primeiro tempo (É…) Iraque e África do Sul jogaram igual, mas no segundo tempo eu tive o controle da partida. Nós controlamos a partida, minha EQUIPE jogou pela esquerda, pela direita, pelo meio. Tivemos a melhor oportunidade para marcar (o gol).

Iraque marcou (marcação) do meio vindo de trás. E depois, no segundo tempo, eu fiz duas mudanças. Um jogador experiente, Katlego Mashedo, e um outro jogador QUE tem experiência, QUE joga, joga muito bem, Steven Piennar. Mas eu(?) não fiz o gol(?).”

Muito provavelmente você conseguiu traduzir com facilidade. Caso acompanhe futebol, neste processo você provavelmente lembrou das entrevistas clássicas do Joel ao dirigir suas equipes no Brasil. E é este o meu ponto: Para traduzir a entrevista do Joel, você não precisou “pensar em inglês”, realizar alterações sintáticas pontuais ou procurar palavras no dicionário. De uma forma geral, basta substituir as palavras do Inglês por palavras do Português. Joel Santana demonstra um domínio razoável das palavras do inglês. Sua sintaxe, por outro lado, não mudou e segue sendo a do Português. Algumas palavras utilizadas sofrem influência deste Portenglish, como “my equip(e)“, “one player“, “in the medium“. Se ainda tem dúvidas, observe os “QUE” usados para ligar as sentenças.

O que podemos tirar de toda esta história?

Repito: o Joel tem sim o seu sotaque forte ao falar inglês, mas será que o sotaque é realmente aquilo que nos faz ter tanta dificuldade em compreender suas entrevistas? Ou a quebra de expectativa ao aportuguesar sua sintaxe?

De qualquer forma, Joel Santana fez seu papel e conseguiu se comunicar com os jogadores e comissão técnica sulafricanos. Compreendia as perguntas dos jornalistas e as respondia. Quando as críticas ao seu sotaque vieram, também soube tirar de letra e transformou seu ponto fraco em ponto forte e comercial, nas propagandas de Shampoo.

E acho que esta é a lição que tiramos desta história toda. Se foque nos seus pontos fracos, não para se martirizar, mas para saber usa-los a seu favor.

MATERIAL EXTRA:

CC BY-NC 4.0 O inglês de Joel Santana: muito mais que um sotaque by Thiago Oliveira da Motta Sampaio is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre Thiago Oliveira da Motta Sampaio 9 Artigos
Professor de Psicolinguística e Processos Cognitivos na UNICAMP; Divulgador da Ciência, Scicaster e "Spiner" (Spin de Notícias) no Portal Deviante (www.deviante.com.br); e Embaixador da Olimpíada Brasileira de Linguística (www.obling.org).

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