Olimpíada de Linguística: como pode ser divertido lidar com línguas que você nunca viu

Delegação brasileira na Olimpíada Internacional de Linguística 2017. Dublin City University, Dublin, Irlanda.

Você lê em georgiano? Se não, então veja os nomes de cinco países da América do Sul nessa língua:

Quais são os nomes dos países que estão faltando?

Se você está a mais de dez segundos tentando responder a essa pergunta, então provavelmente você foi contaminado pelo vírus dos problemas de linguística. Esse gênero de puzzle, que chegou no Brasil faz poucos anos, tem uma longa tradição na Rússia e no Leste Europeu.

Olimpíada de Linguística na Rússia

No início dos anos 1960, alguns estudantes e linguistas da Universidade Estatal de Moscou (Lomonosov) estavam formulando uma modalidade de desafios intelectuais que poderiam mostar para estudantes de ensino médio como a linguística pode ser uma área instigante e divertida — inspirados no efeito conhecido que as competições de matemática já tinham sobre os estudantes. Entre eles, o nome mais importante era Alfred Zhurinski, na época estudante do quarto ano da faculdade Com o passar dos anos, Zhurinski se tornou um linguista importante, especializado em línguas africanas mas interessado em uma série de temas — de sociolinguística à estrutura de adivinhas e de poemas. Ainda assim, ele declarou uma vez que considerava a olimpíada de linguística um dos feitos mais importante da sua vida.

Assim, em 1965 aconteceu a primeira edição da Olimpíada Tradicional de Linguística de Moscou (em russo, Московская традиционная олимпиада по лингвистике и математике), com problemas tratando dos sons das palavras russas e das palavras polonesas, dos significados das palavras em russo, da sintaxe simbólica, da escrita devanagari da Índia, de frases em húngaro, do empréstimo de palavras francesas na formação do inglês, das origens latinas das palavras francesas e das semelhanças entre inglês e alemão. Todos esses problemas foram compostos, discutidos e revisados por uma comissão de três pessoas: o próprio Alfred Zhurinski (autor da maior parte deles), Boris Gorodetski e Viktor Raskin. Além disso, a organização geral incluiu outros linguistas, como Andrei Zalizniak, Alexander Kibrik e Igor Miloslavski.

Andrei Zalizniak em conferência com os estudantes olímpicos da Rússia na Escola de Linguística de Verão 2017. Voronovo, Rússia, 2017. Foto de Boris Iomdin.

Com o passar dos anos, outros linguistas foram se integrando, compondo problemas, ampliando seu contato com as escolas e com os estudantes. A olimpíada, agora Olimpíada Tradicional de Linguística da Rússia, engloba estudantes do país inteiro. Hoje, boa parte dos professores e pesquisadores de linguística de Moscou foram, enquanto estavam na escola, participantes da olimpíada em algum desses 53 anos. Muitos se tornaram professores das universidades russas ou de universidades no exterior; outros trabalham em empresas de tecnologia para as quais o domínio de ferramentas linguísticas e a investigação de padrões em problemas são habilidades fundamentais.

Pera, para quais empresas linguística é útil?

Para mais do que imaginamos, e a Rússia tem uma história interessante sobre isso. Para quem não sabe, o sistema de buscas mais usado no maior país do mundo não é o Google, mas a Yandex. Isso aconteceu porque, quando as duas companhias surgiram, o Google, pensado para a língua inglesa, era incapaz de compreender as variações nas formas dos nomes. No português, os nomes (substantivos e adjetivos) variam dependendo do número e do gênero; em russo, como em muitas línguas do mundo, eles variam também dependendo da função sintática que eles possuem nas frases — as famosas declinações. Em uma língua como o russo, que possui nove casos de declinação (nove terminações possíveis para cada substantivo, para nove diferentes funções sintáticas), é evidente o quanto a limitação do google cria dificuldades para suas buscas virtuais.

Página de busca da Yandex

A busca da Yandex, por outro lado, desde o início programada para lidar com o russo, lidava muito melhor com isso. Assim, a empresa cresceu muito mais que a concorrente americana no país e, mesmo que o Google hoje já esteja muito avançado na compreensão de outras línguas, a hegemonia da Yandex na Rússia se manteve. Assim, eles sempre entenderam o quanto era importante a presença de linguistas para ajudar as máquinas a entenderem as linguagens humanas, e todos viveram felizes para sempre. Pelo menos foi essa a história que me contou Boris Iomdin, um linguista de Moscou que, além de professor de linguística na pós-graduação em Análise de Dados da própria Yandex, é um dos principais autores de problemas da Olimpíada Internacional de Linguística.

Olimpíadas de Linguística pelo Mundo

A ideia dos problemas de linguística demorou alguns anos para se espalhar pelo mundo. Claro, outras modalidades de competições de desafios intelectuais para estudantes (as olimpíadas de conhecimento) já existiam desde o final do século XIX em diversos países do mundo, principalmente em áreas como matemática, física, astronomia, química. Mas que esse formato pudesse cair tão bem para línguas e linguística, era uma ideia ainda nova. A partir da década de 1980, surgiram pelo menos três novas iniciativas: em 1984, foi organizada uma olimpíada de linguística na Bulgária, organizada pela Academia Búlgara de Ciências; entre 1988 e 2000, outra aconteceu no estado do Oregon, EUA, pelas maos do linguista Tom Payne; a partir de 1994, os linguistas de São Petersburgo organizaram outra olimpíada, bastante similar àquela de Moscou.

Prova individual durante a Olimpíada Internacional de Linguística 2017. Dublin City University, Dublin, Irlanda. Foto de Bruno L’Astorina.

Em 2003, russos e búlgaros organizaram a primeira Olimpíada Internacional de Linguística (IOL), com a participação também da Letônia, Estônica, República Tcheca e Holanda. Esse movimento fez com que outros países acabassem conhecendo essa ideia, e novos países organizassem olimpíadas nacionais. Logo estavam participando os demais países do leste europeu (Polônia, Hungria, Romênia, Sérvia), países do oeste da Europa (França, Alemanha, Espanha, Suécia), a comunidade de países de língua inglesa (Reino Unido, EUA, Índia, Austrália, Irlanda, Ilha de Man), os países do extremo asiático (Coréia do Sul, China, Japão, Taiwan) e, naturalmente, o Brasil.

Olimpíada Brasileira de Linguística!


A Olimpíada Brasileira de Linguística foi organizada pela primeira vez em 2011. Cada edição, anual, possui um sobrenome, que é alguma palavra que represente o espírito daquela edição. A primeira edição, kytã ( “nó“ em tupi), teve cerca de 200 participantes. Na mais recente, ñanduti ( “teia “ em guarani), participaram cerca de 2 mil estudantes de 24 dos 27 estados do Brasil. A OBL acontece em quatro blocos:

  1. A primeira fase é online, feita através de um app que você pode baixar na sua Play Store. São 24 problemas de linguística curtos, como o nome dos países em georgiano (que, aliás, foi retirado da primeira fase da edição ñanduti), para serem resolvidos em 3 horas. Aqui a prova da última edição. A primeira fase desta edição acontece já já, de 20 a 24 de setembro de 2017.
  2. A segunda fase é presencial e em papel; podem fazê-la todos os que acertarem 2/3 ou mais das questões da primeira fase. Ela é aplicada em diversos pólos pelo Brasil: universidades, colégios, cursos, etc. São seis problemas longos para serem resolvidos em 4 horas. A partir dela, alunos são premiados com insígnias de papel, pergaminho, papiro e palma. Aqui a prova da última edição.A primeira fase desta edição acontece dia 20 de outubro de 2017.
  3. A fase nacional (também conhecida como Escola de Linguística de Outono — ELO) acontece em um lugar no Brasil, para onde são convidados os 50 estudantes mais bem colocados na fase anterior. Na última edição, a ELO aconteceu na Universidade de Brasília (UnB); além de terem tido palestras e oficinas sobre diferentes temas de linguistica, os estudantes também passaram por três blocos de atividades olímpicas: os problemas de linguística, as rodadas de debate e o rolezinho sociolinguístico. A TV UnB fez um vídeo sobre o evento.
  4. Na ELO são selecionados quatro, ou oito, estudantes que vão representar o Brasil na Olimpíada Internacional de Linguística (IOL). A última IOL aconteceu no fim de julho deste ano, em Dublin, Irlanda. A próxima, em 2018, acontecerá em Praga, República Tcheca.
Estudantes de todo o Brasil na Escola de Linguística de Outono (ELO). Palácio do Itamaraty, Brasília, maio de 2017.

A nova edição da OBL recebeu o nome de mărgele, que significa “miçanga “ em romeno. Pela primeira vez, além da categoria  “ensino médio “, a olimpíada abriu também uma categoria aberta, em que podem participar pessoas de qualquer idade e qualquer formação. A primeira fase começa daqui a poucos dias, de 20 a 24 de setembro de 2017. É assim, digamos, imperdível.

E os países em georgiano?

Vamos começar com uma hipótese simples: que a escrita georgiana é alfabética como a nossa e que é escrita da esquerda para a direita. A repetição do símbolo უ, no início de “Uruguai”, parece indicar que essa é uma boa hipótese.

As transcrições de “Peru” e “Uruguai” possuem a mesma quantidade de letras de suas traduções, com isso se pode fazer a relação letra-letra entre cada alfabeto (ou seja, conseguimos saber como escrever A, E, I, U, P, R, G em georgiano).  Já o nome “Brasil” possui mais letras em georgiano; graças aos outros dois países, poderia se ver que se trata de:

_ R A _ I _ I A

O que provavelmente significa que os georgianos chamam o Brasil de algo como “Brasilia” (se for assim, sabemos como se escreve B, S ou Z, e L).

Assim, poderíamos decodificar as palavras restantes como:

A R G E _ _ I _ A

_ _ L U _ B I A

que só poderiam ser “Argentina” e “Colômbia (Columbia)”.

Quer mais problemas? Veja a área de problemas de teste da OBL e divirta-se!

CC BY-NC 4.0 Olimpíada de Linguística: como pode ser divertido lidar com línguas que você nunca viu by Bruno L'Astorina is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre Bruno L'Astorina 2 Artigos
Entre uma porção de outras coisas, bruno é, desde 2011, membro da Comissão Organizadora da Olimpíada Brasileira de Linguística e, desde 2012, membro do Comitê de Problemas da Olimpíada Internacional de Linguística.

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