O polêmico na língua

Cena de interior II, Adriana Varejão

Recentemente, a exposição Queermuseu do banco Santander reuniu o trabalho de alguns artistas sobre a temática LGBT. Devido à oposição de alguns, que se queixavam de que algumas das obras promoviam blasfêmia contra símbolos religiosos e também apologia à zoofilia e pedofilia, a exposição foi cancelada.

Ao observar o caso da exposição, podemos perceber que é possível entender a organização de uma sociedade por meio da linguagem. Comentários que circularam em sites de notícias como “típico eleitor da extrema-direita”, “às vezes eu entendo os terroristas. Tem hora que dá uma vontade de mandar destruir um banco”, “Jesus cura esta alma” e “gays ridículos” atestam o caráter polêmico vinculado à questão e, de certa forma, mostram a atual polarização política do país.

Com frequência a população é confrontada com alguma questão que demanda certa tomada de posicionamento. Existem inúmeras questões polêmicas que separam a sociedade. Podemos interpretar a polêmica como constitutiva da sociedade, uma vez que nossa História pode ser sumariada sob o rótulo “contradição”. Sobre o caso da exposição, palavras e sintagmas como “povo de bem”, “família tradicional”, “apologia”, funcionando de maneira oposta a “esquerdopatas”, “causa gay” e “arte” mostram que existe uma polêmica a respeito do assunto e que as pessoas se posicionam de maneira diferente quanto a ele. O interessante é que essa guerra se dá na (e pela) linguagem.

O estudo de máximas, slogans e aforismos pode ser bastante produtivo ao procurar saber como se mobiliza o funcionamento da polêmica em uma sociedade. A polêmica se mostra bastante interessante para aqueles que querem compreender o funcionamento da linguagem na sociedade. Uma unidade-lexical polêmica está sempre relacionada a algo grave.

Nesse sentido podemos pensar em uma palavra sociopolítica que porta temas desta ordem. Por meio de algumas propriedades constitutivas de palavras desse tipo, podemos diferenciar uma palavra (ou pequena frase) que se limita a uma frase apenas, e uma que atinge o estatuto de uma polêmica. Essas palavras se tornam um “lugar” privilegiado para se perceber aspectos polêmicos, pois nelas podemos compreender como os sujeitos se organizam, seja por meio dos discursos, das relações de poder ou de opinião.

A análise de uma polêmica abrange fatores que envolvem a consideração do uso que grupos opostos fazem das palavras. Nessas polêmicas há um processo de  interincompreensão que rege a relação entre discursos antagonistas – isto é, o discurso de x é entendido por y de maneira diferente da pretendida por x (e vice versa). Podemos perceber isso na definição que grupos opostos fazem das palavras. Alguns exemplos de sentidos que são disputados no atual cenário brasileiro são “golpe”, “aborto”, “esquerda”, “consciência negra”, “cura gay”, “educação de gênero”, etc.

As palavras circulam amplamente no corpo social. Elas têm história, participam da História. Analisá-las pode nos auxiliar a entender os discursos que circulam no espaço social. Este tipo de conceitualização se mostra útil, pois por meio da linguagem podemos chegar a questões que dizem respeito tanto a situações corriqueiras, quanto ao nosso cenário político-social atual.

CC BY-NC 4.0 O polêmico na língua by paulosilva is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre paulosilva 1 Artigo
Cursando mestrado em Linguística na Universidade Estadual de Campinas (IEL/Unicamp). Pesquisa os seguintes temas: discurso religioso, polêmica discursiva, mídia, funcionamento do discurso e do texto.

4 Comentários

  1. Olá, esse assunto ganhou muita repercussão essa ultima semana. O MBL realmente tem formado uma trupe de bitolados que acreditam ser superiores por quererem a extinção do governo, ‎Kim Kataguiri e Renan Santos são dois ignorantes ganhando cada vez mais adeptos desse grupinhos de pseudointelectuais! seu texto teve uma abordagem completamente diferente de todas que li até hoje, analisou a situação por um ponto de vista da linguagem e isso para entusiastas da linguagem, como sou, é ao mesmo tempo muito inteligente e belo! Muito legal essa sua exposição de como funciona o pensamento bruto da sociedade dividida em duas vertentes (direita x esquerda) e de como o uso dos jargões pela grande maioria de ambos os lados faz isso ficar evidente. Um conselho que tenho a dar ao escritor é que tente ser mais imparcial, por mais que não tenha dito o seu lado objetivamente, este está claro. Mais uma vez, parabéns pelo texto e continue escrevendo!

  2. Achei bem interessante.
    A palavra, em suas mais diversas formas de expressão, tem um grande poder de influenciar comportamentos, ideias, desejos, práticas etc.
    A forma como interpretamos tudo aquilo que nos é “ofertado” pelos inúmeros recursos midiáticos vai interferir diretamente no nosso posicionamento religioso, político e pessoal. E vice versa,né. Por isso é importante sempre observar os dois lados da questão, para tentar compreender de uma forma mais ampla a proposta daquilo que nos é transmitido.

  3. Da maneira errada e grotesca como foi essa exposição, isso na minha opinião é claro, mas vc não focou em defender nem A e nem B, e sim na forma de comunicação.
    Texto bem elaborado.

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