Anhanguera, abacaxi, Tietê: a contribuição das línguas indígenas para o português que falamos hoje

Não é preciso ir muito longe para que nos deparemos com uma porção de palavras de outras línguas que foram incorporadas ao português ao longo do tempo. Nós, falantes de português brasileiro, por exemplo, já quase que, inconscientemente, nem nos damos mais conta das palavras estrangeiras introduzidas em nossa língua. Quem, por exemplo, que não estude ou pesquise línguas, já parou em seu dia-a-dia para refletir sobre a origem de palavras como ‘nhoque’, ‘champagne’, durante a ceia de ano novo, ou, ainda, ‘millkshake’, ‘hamburguer’, ‘light’, ‘fashion’, durante aquele passeio com os amigos? A naturalização desses vocábulos em nosso falar é uma prova indelével de que a nossa língua é permeada de palavras estrangeiras que, ao longo do tempo, foram incorporadas ao nosso léxico e que, agora, fazem parte da nossa língua e do nosso cotidiano.

Foto: Roberto Almeida/AE

Entretanto, para além dessas palavras de origem francesa ou inglesa, muitas outras, oriundas de distintos lugares e povos, vieram a ser incorporadas ao português. Estou me referindo, aqui, às palavras de origem indígena. Aposto que todo mundo já deve ter dado um passeio no parque do ‘Ibirapuera’, ter se entristecido com a situação do rio ‘Tietê’ em São Paulo, ou, mesmo, ter comido aquela ‘pipoca’ quentinha no cinema. Mas o que a gente não se dá conta, geralmente, é que ‘Ibirapuera’, ‘Tietê’, ‘pipoca’, ‘perereca’, ‘abacaxi’ e tantas outras palavras de nosso cotidiano advém de línguas indígenas. Todas essas palavras citadas, por exemplo, são oriundas do Tupi, língua falada por grande parte dos indígenas que viviam na costa do Brasil à época do ‘descobrimento’ e que, com o processo de colonização, deixou consideráveis vestígios de sua existência, sobretudo no léxico, do português falado em nosso país.

Exposto tudo isso, que tal se conhecermos, agora, um pouquinho da etimologia de algumas palavras do Tupi que usamos no nosso dia-a-dia? Certamente, ao fim dessa leitura, poderemos compreender, ainda que só um pouquinho, o significado de algumas palavras que usamos frequentemente, mas que sequer nos damos conta de seus sentidos.

E para começarmos bem, que tal se já falarmos logo das palavras polêmicas? Aposto que todo mundo aqui já deu um sorrisinho torto ao ouvir por aí as palavras ‘piroca’ e ‘pepeca’, certo? Essas palavras, que usamos cotidianamente para nos referirmos aos órgãos sexuais masculinos e femininos, respectivamente, tem sua origem lá no Tupi. Curioso, não é? Pois é: em Tupi, ‘piroca’ significa ‘pele esfolada’ (parece meio doloroso, eu sei rs), ‘membro genital masculino’, enquanto ‘pepeca’ é um verbo intransitivo da língua que significa ‘bater as asas, voar’ (qualquer semelhança com a nossa ‘pepeca’, eu juro, é mera coincidência. Ou não rs).

Mas as palavras de origem Tupi não se reduzem ao domínio dos órgãos sexuais. Basta observarmos os nomes de lugares, no Brasil, para percebermos que, grande parte desses nomes, tem suas origens nessa língua. A toponímia brasileira abriga um vasto léxico de origem Tupi, a exemplo de palavras como Ibirapuera, Tietê, Anhanguera, Araraquara, Jabaquara e assim por diante. Mas que tal se conhecermos o que cada uma dessas palavras significa?

Vamos começar por Ibirapuera. Segundo Silveira Bueno (p. 145), essa palavra é composta por ybirá, que significa ‘mata, árvore’ e o morfema –puera (que se alterna com –cuera, –coera, –goera) e que significa ‘aquilo que já foi e que já não é’. Ibirapuera, portanto, é a ‘mata que já foi mata e que não é mais’. Triste, não?

A palavra Tietê também tem uma etimologia interessante. Há, segundo Silveira Bueno (p. 326), pelo menos dos possíveis sentidos para essa palavra. A primeira dessas acepções seria a composição y (água, rio) + etê (verdadeiro), ou seja, Tietê seria o rio verdadeiro. A segunda dessas acepções, por sua vez, baseia-se na repetição da palavra para canário da terra (passarinho), que em Tupi é tiê: a palavra Tietê, nesse prisma, seria a redução de tiê-tiê (muitos tiês (muitos canários)), uma vez que, à época em que os Tupis viveram às margens desse rio, ele era repleto de tiês. Tietê, portanto, seria então um rio em que há muitos tiês (canários) em sua margem. Bonito, não?

Mas e Anhanguera, Araraquara e Jabaquara, o que significam? Lembram do morfema –puera, que citamos acima, e que poderia alternar com –coera e –goera? Pois então: se observarmos com atenção a palavra Anhanguera, veremos que, em sua composição, o morfema –goera (que neste caso sofreu acomodação fonética e se tornou –guera) está lá. Anhanguera é, portanto, uma palavra fruto da junção de anhangá, que significa ‘diabo, espírito ruim’ em Tupi e –goera que significa ‘algo que já não é’. Em outras palavras, Anhanguera significa ‘o diabo que já foi diabo, que não é mais, que já está velho e não tem mais tanto poder maléfico’. Aposto que, depois dessa, vocês vão dirigir com mais cuidado pela rodovia Anhanguera rs.

O sol ressurge e logo se põe no Xingu: pai e filhos vão descansar em sua maloca. Foto: Roberto Almeida/AE

A palavra Araraquara, por sua vez, é etimologicamente composta pela palavra ‘arara’, que a gente bem conhece, e pelo morfema –coara (que sofreu acomodação fonética para –quara), que significa ‘buraco’, ‘cova’. Numa possível tradução, Araraquara seria, portanto, o buraco das araras, o refúgio das araras. O mesmo processo se dá com Jabaquara:  jabá significa ‘fujão’, ou seja, Jabaquara significa ‘refúgio dos fujões’.

Vejamos algumas outras palavras de origem Tupi:

-Abacaxi: substantivo masculino composto por ibá ‘fruto’ e caxi ‘recendente’. Abacaxi é, portanto, um ‘fruto que tem um cheiro agradável, fragrante’.

– Aracy: substantivo feminino composto por ara ‘dia’, ‘luz’ e cy ‘mãe’. Aracy significa, então, ‘mãe do dia, mãe da luz’.

– Perereca: verbo intransitivo que significa saltar, pular, saltitar. Agora é fácil de entender porque aquele bichinho gelado que muitos morrem de medo recebeu esse nome, certo?

– Pipoca: substantivo feminino que, ao pé da letra, significa ‘pele que arrebenta’, pois é composta por pi ‘pele’ e poc (ou pog) ‘arrebentar’.

– Piracema: que significa, literalmente, ‘saído do peixe’, uma vez que é composta por pirá ‘peixe de couro, que não tem escamas’ (pirá pode também significar pele e, por isso, não se refere aos peixes com escamas, mas somente àqueles com pele, de couro) e ‘sema’ (cema), que significa ‘saída, fluxo’.

Interessante, não é? Essas e muitas outras palavras, como tocaia, sucuri, Goiás, jacaré, Iara e uma infinidades de outras mais que encontramos por aí são heranças do Tupi em nosso idioma. Mais do que isso, elas mostram como as línguas indígenas faladas no Brasil tiveram um papel fundamental e importantíssimo na constituição de nosso léxico e, porque não, também de nossa cultura e da nação que somos hoje.

 Ficou interessado em conhecer um pouco mais sobre o trabalho do linguista indigenista, do linguista que trabalha com línguas indígenas? Conheça, então, o Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL. Lá você vai poder conhecer um pouco mais sobre esse universo que se chama linguagem/língua e aprender muitas coisas interessantes a respeito dele.

Link para o site do IEL: http://www.iel.unicamp.br/.

Vídeo produzido em comemoração aos 50 anos da UNICAMP. O vídeo trata da pesquisa com línguas indígenas no Brasil e no IEL:

 

Referência:

SILVEIRA BUENO, Francisco da. Vocabulário Tupi-Guarani-Português. 5ªed. São Paulo: Editora Brasilivros, 1987.

Obs.: todas as fotos aqui reproduzidas, incluindo a imagem destacada, são de autoria de Roberto Almeida/AE.

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Possuo graduação em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mestrado em Linguística pela UNICAMP e, atualmente, curso o doutorado em Linguística também pela UNICAMP. Tenho experiência na área de línguas indígenas, e tenho pesquisado, principalmente, os aspectos fonológicos e morfossintáticos da língua Mehináku (Arawak), falada no Parque do Xingu. Também tenho interesse por educação escolar indígena e políticas linguísticas.

6 Comentários

  1. Texto muito bom, um dos melhores que já publicaram aqui no Blog. Eu adorei saber sobre as palavras polêmicas rsrsrsrsrs A gente tem muito o que aprender com as línguas indígenas. Parabéns ao autor. Poderia fazer um texto maior, com mais palavras, porque gostei de conhecer a origem delas.

    • Olá, José,

      A etimologia da palavra Urubupungá é bem complexa e tem um montão de teorias sobre ela. Se você procurar pela internet, por exemplo, vai encontrar coisas como: uru ‘ave grande’ + bu ‘negra, preta’, que daria o urubu que conhecemos hoje, uma ave grande e negra, ou ainda ‘punga’ ~ ‘ponga’, sendo tratado como “excremento”. ‘Urubupungá’ seria, então, ‘excremento de urubus’. Nessa acepção, o nome teria surgido como referência ao local onde os urubus costumavam fazer seus ninhos, perto das encostas de pedra que margeavam os rios, e de onde seus excrementos de cor branca faziam contraste com as pedras escuras. Por outro lado, há também outras acepções que conceituam essa palavra danada como ‘grasnar dos urubus’, ‘barulho dos urubus’. Para tentar resolver (digo tentar, porque a coisa é difícil rs), vou te contar o que me disse o professor Wilmar D’Angelis, do IEL, que é um grande conhecedor de línguas Tupi. Creio que a ideia que ele nos apresenta é a mais plausível, porque apresenta argumentos científicos para isso.

      Vamos lá: segundo o professor Wilmar, URUBUPUNGÁ é uma clara composição de duas palavras: URUBU + PUNGÁ. Urubu é a ave negra, o nosso abutre, comedora de carniça, que pode ser o Coragyps atratus (“urubu de cabeça preta”), o Cathartes burrovianus (“urubu da cabeça amarela”) ou o Cathartes aura (“urubu da cabeça vermelha”). Bastante diferente é o “urubu-rei”, “urubutinga” ou “urubu branco” (Sarcorhamphus papa). Pungá, segundo mestre Pe Lemos Barbosa (Pequeno vocabulário Tupi-Português. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1951) é “intumescido; cheio [p. ex. fruta]; hidrópico, hidropisia”. Podemos acrescentar: inchado. Em português pode-se dar ao termo um uso figurado: envaidecido, mas não podemos dizer que o Tupi fazia igual uso. Donde que, Urubupungá seria o urubu inchado ou intumescido. Mas isso soa estranho, ainda que muita coisa pode ter acontecido na história da humanidade, ou de um grupo local, que nem imaginamos. Há, porém, uma alternativa de interpretação: Ponga (mas, nesse caso, paroxítona; de fato, pong + a): “cousa que repercute ou ressoa; sonante” (também do Lemos Barbosa). Isso parece fazer mais sentido com a denominação de uma cachoeira (como é Urubupungá). Seria, então, algo como soar do urubu, ou algo assim. Veja que, pelo que nos disse o professor, a definição de Urubupungá como ‘grasnar dos urubus’ parece ser mais aceitável do que aquela que entende essa palavra como ‘excremento dos urubus’.

      Mas podemos pensar que nada tenha a ver com urubu, mas com mbopungá (fazer ficar cheio, encher) ou mbopong-a (fazer soar, fazer ressoar). O primeiro elemento do composto seria, então, Y e teríamos algo como y + ru + mbopungá (ou y + ru + mbopong-a, mas duvido de uma mudança tão drástica na tonicidade, sem maior justificativa, então acredito mais no verbo encher = pungá). Eu só não sei reconstituir, de pronto, esse ru (ou talvez ri ou ry), como 2a sílaba. Talvez a posposição ri = por, por causa de, para. Poderíamos ter, então, faz crescer por água, ou faz encher pela água (no caso de pungá), ou algo como faz soar por causa da água, ou faz ressoar pela água, faz barulho pela água (no caso de pong-a).

      Curioso é que raramente se faz a etimologia do nome urubu. Curiosamente, me parece, ele consta nos dicionários Tupi dessa forma, sem qualquer comentário. Uma palavra genuinamente Tupi (pensando no Tupi antigo, no Tupi das muitas variantes da Costa como o Tupinambá), para se falar de uma ave do tipo uru (diferente de “ave genérica”, que era guyrá ou wyrá) que fosse preta (ũn), isso daria: uru + ũn + a, e portanto, uruna. Já em Guarani (e, quem sabe, no Tupi de São Vicente), com a queda da consoante final, esse composto seria diferente: uru + ũ > uruũ . Mas mesmo nesse caso, seria factível o surgimento de uma aproximante labial w entre as duas vogais, gerando uruwu (que daria, depois, urubu na fala de brasileiros).

      Não sei se te trouxe mais luz, ou se compliquei ainda mais a sua vida rsrs. Mas, olha, pelo que vimos até aqui pela explicação do professor, parece que é aquilo mesmo que te disse: algo como ‘barulho dos urubus, soar dos urubus’. Quer saber mais sobre isso? vem para o IEL! Talvez esse seja um trabalho interessante que você possa desenvolver.

      Espero ter ajudado, José. Desculpe a demora em responder.
      Um abraço,
      Paulo.

  2. Boa noite Professor !
    Parabens pelo artigo produzido , isto foi de grande valia para mim.
    Sou graduando em traduçao e Interprete e pretendo me especializar em linguistica.

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