Multilinguismo: sobre aquisição e aprendizagem de línguas

Qual seria a língua nativa do mestre Yoda, caso ele tivesse crescido na Terra?

Sabemos que as línguas do mundo possuem diferentes estruturas, diferentes conjuntos e formas de combinar seus sons, além de várias diferenças semânticas e pragmáticas. Ainda assim, não é estranho notarmos a existência de pessoas que conseguem utilizar com fluência mais de uma língua. Damos a essas pessoas o “título” de Bilíngue ou Multilíngue. Por outro lado, existem ao menos dois tipos de bilinguismo que devem ser vistos de forma separada.

Tipos de Bilinguismo / Multilinguismo

O primeiro tipo de bilinguismo acontece quando já somos adultos e desejamos, por diversas razões, usar uma outra língua. Nesse caso, nós já temos uma língua nativa, já sabemos o que é uma língua e os seus componentes. Assim, quando vamos aprender, já temos ao menos uma ideia de o quê precisamos procurar nesse novo conjunto de sons que escutamos de um falante estrangeiro. As pessoas que passam por esse tipo de habituação a uma nova língua passam pelo processo de Aprendizagem, independente de parte desse processo ser consciente ou inconsciente.

O segundo tipo de bilinguismo acontece quando somos crianças e crescemos ouvindo mais de uma língua. Considere, por exemplo, que você, brasileiro, casou com uma chinesa e ambos moram no Japão. Muito provavelmente você irá conversar com seu filho em Português, a mãe em chinês enquanto o mundo usa o japonês. A criança terá, constantemente, acesso a três línguas diferentes numa fase em que ela ainda não sabe o que é uma língua, não sabe o que procurar, simplesmente a aprende! Esse processo é conhecido pelo nome de Aquisição.

A título de exemplo desse segundo caso, veja a sequência de 5 vídeos de Wendy Vo, uma menina de 8 anos de origem vietnamita e que mora nos EUA. Ao longo de seu desenvolvimento, Wendy teve contato com pessoas de diferentes etnias e, com isso, obteve fluência em 11 línguas.

Um pouco sobre Aquisição de Linguagem

Em Biologia é muito comum estabelecermos uma janela temporal em que o organismo precisa receber os estímulos do meio para se desenvolver. Por exemplo, se uma criança nascer surda, os médicos precisam realizar um implante coclear, inserindo um aparelho que emula a “tradução” (o termo técnico é transdução) do sinal acústico para sinais bioelétricos capazes de serem percebidos e processados pelo cérebro. Porém, esse implante deve acontecer até por volta dos dois anos de idade, do contrário, o sistema auditivo da criança não consegue mais se desenvolver.

Essa janela temporal é chamada período crítico. Em aquisição de linguagem, utilizamos o mesmo termo para indicar a idade em que a criança ainda adquire uma língua como língua nativa, e que vai até por volta dos 7 anos.

É comum que o nascimento da criança seja visto como o marco zero do processo de aquisição, visto que somente nesse momento a criança terá contato com a produção linguística das pessoas a sua volta. Porém, existem evidências de que ao menos parte do processo de habituação aos padrões rítmicos da língua aconteçam ainda dentro do útero. Um artigo recente de autores da Universidade de Kansas utilizando a técnica de biomagnetometria demonstra que, mesmo ainda no útero, o feto de cerca de 35 meses consegue distinguir entre o japonês e o inglês americano.

A ideia por trás do experimento é que crianças costumam se agitar quando escutam padrões diferentes daqueles em que estão habituados. Por exemplo, o chupetógrafo é um aparelho com sensores capazes de medir o quão forte e rápido as crianças estão chupando a chupeta enquanto são estimuladas em um experimento cognitivo. Os estudos com fetos normalmente utilizam técnicas de ultrasom, capaz de medir a frequência cardíaca da criança. A biomagnetometria também mede a frequência cardíaca, mas através de campos magnéticos gerados no interior do útero da mãe.

Os pesquisadores estimularam as grávidas com um áudio de 2 minutos em inglês para fazer uma medição de base. 18 minutos depois, 12 mamães foram estimuladas com outro áudio em inglês enquanto outras 12 foram estimuladas com um áudio em japonês, gravado pela mesma pessoa, falante nativa das duas línguas. Os fetos cujas mães escutaram o áudio em japonês apresentaram um aumento em sua frequência cardíaca enquanto os filhos das outras 12 grávidas não apresentaram qualquer alteração.

Testes como esse demonstram que é importante observar como as crianças aprendem suas línguas mesmo antes do nascimento.

Um pouco sobre Aprendizagem de Línguas

Quando aprendemos uma língua depois de adulto, é comum encontrarmos “erros” de estrutura ou de pronúncia que, geralmente, são a forma correta de se falar na nossa língua nativa.

Esse é o caso, por exemplo, do inglês do Joel Santana, que discutimos aqui no blog. O uso de estrutura e sons da língua nativa numa língua estrangeira é chamado de Transferência Linguística. Mas vale lembrar que as transferências também acontecem no sentido contrário, da língua aprendida para a língua nativa, como quando você mora um tempo na França e volta falando que vai “se douchar“.

Em entrevista recente ao portal de notícias da Queen Mary University of London, o professor David Adger, que trabalha com o tema, foi pego de surpresa com uma pergunta inusitada. Com o recente lançamento do filme Star Wars: The Last Jedi, o entrevistador perguntou se, através desses estudos, seria possível descobrir qual a língua nativa do mestre jedi verdinho. Adger responde que, na Terra, existe uma língua que possui estrutura semelhante aquela na qual Yoda usa o inglês, o Havaiano. Nesse sentido, caso o mestre Yoda tivesse nascido e crescido na Terra, muito provavelmente ele seria um havaiano se comunicando em inglês, através de uma forte transferência sintática, assim como o nosso querido papai Joel.

Para terminar

Espero que esse post tenha sido esclarecedor ao diferenciar que existem dois tipos de bilíngues, aquele que sabe duas línguas de forma nativa e aqueles que aprenderam uma segunda depois de adultos. Toda essa discussão serve de exemplo das consequências biopsicológicas envolvidas em cada tipo de aprendizagem. As crianças usam suas línguas nativas de forma natural e sem qualquer rastro de sotaques. Os bilíngues nativos também têm uma capacidade maior de recuperar uma de suas línguas nativas depois de muito tempo sem uso. Já os bilingues tardios, além de sofrerem maior interferência das estruturas e sons de sua língua nativa, podem perdê-la muito mais rapidamente caso deixe de usá-la durante alguns anos.

Caso queira saber um pouco mais sobre tudo o que foi discutido aqui, você pode acessar os links inseridos ao longo do texto ou baixar o episódio #87 do Spin de Notícias, podcast do portal Deviante, em que falo sobre estes dois temas.

 

CC BY-NC 4.0 Multilinguismo: sobre aquisição e aprendizagem de línguas by Thiago Oliveira da Motta Sampaio is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre Thiago Oliveira da Motta Sampaio 9 Artigos
Professor de Psicolinguística e Processos Cognitivos na UNICAMP; Divulgador da Ciência, Scicaster e "Spiner" (Spin de Notícias) no Portal Deviante (www.deviante.com.br); e Embaixador da Olimpíada Brasileira de Linguística (www.obling.org).

2 Comentários

  1. Gostaria de saber, primeiramente, sobre os estudos de respostas dos bebês ainda no útero, qual o critério para considerar o aumento de frequência cardíaca ou até mesmo uma movimentação como uma resposta a mudança de língua que ouviu e não apenas como simplesmente um evento aleatório? E em segundo, no trecho “…se comunicando em inglês, através de uma forte transferência sintática, assim como o nosso querido papai Joel.” a comparação é em referência também ao tipo de transferência? Ou seja, no caso do Joel, é também uma transferência sintática ou fonética?
    No mais, ótima matéria, muito elucidativa 🙂

    • Olá Augusto, vamos lá:

      1) O critério é basicamente controle experimental. Apesar da variabilidade de pessoa pra pessoa, em um ambiente controlado, num experimento repetido diversas vezes e temos quase sempre os mesmos resultados (um aumento da frequência cardíaca quando a língua muda) sendo que o único estímulo alterado é a língua. É razoável imaginar que essa resposta se deve a essa alteração.
      Obviamente, como em qualquer experimento, isso não ‘prova’ nada, é “somente” uma forte evidência. Mas as evidências podem aumentar se o teste for reaplicado em outros lugares, em outros grupos de pesquisa, com outras línguas etc. Se não me engano esse foi o primeiro experimento usando essa técnica.
      Tecnicamente é a mesma coisa que fazemos quando usamos um eletroencefalograma ou magnetoencefalograma, ambas que já se demonstraram bons métodos pra pesquisa linguística. O resultado de ambos é um monte de ondas cerebrais divididas entre um número imenso de canais (eletrodos). Mas em diversos experimentos que são feitos e repetidos inúmeras vezes desde os anos 80, conseguimos saber do curso temporal da compreensão de linguagem com um nível muito maior de certeza.

      2) Agora vai no meu pitaco (pode discordar e jogar pedras se achar que deve rs). Começo com um mea culpa e agradeço por ter me apontado isso. Eu realmente descrevi errado nesse trecho o que eu acho que acontece rs.

      Na minha análise das falas do Joel, o que ele faz é uma relação das palavras em português e em inglês e troca. Na minha concepção de ‘aprender uma língua’, isso não seria uma transferência. Me parece que ele “fala português com as palavras do inglês”, se é que me entende. A transferência ocorreria quando nós realmente aprendemos a língua, mas em determinados tipos de frases nós usamos a estrutura da nossa língua nativa.

      Por outro lado, ele entende inglês. Isso evidenciaria que, de alguma forma, ele sabe a língua. Talvez ele tenha essa enorme transferência sintática.
      Então eu vou ficar devendo uma resposta conclusiva sobre essa questão.

      Abraços

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