Deu bafão! A polêmica sobre a questão do Enem em relação ao “dialeto secreto” de gays e travestis.

No domingo, dia 04/11/2018, aproximadamente, 5,5 milhões de candidatos foram fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Entre várias questões de Linguagens, Ciências Humanas (totalizando 90 questões) e a Redação, houve algumas polêmicas, entre elas, a questão sobre o pajubá, o dito “dialeto secreto” de gays e travestis. Mas o que há de polêmico na questão? O que causou alvoroço nas redes sociais pós prova?

Um pouco de Sociolinguística

Não é de hoje que estudos linguísticos provam sobre a heterogeneidade constitutiva das línguas naturais. Podemos citar os exemplos do inglês: o britânico e o estadunidense; do espanhol: o europeu e o argentino; o português: o europeu e o brasileiro. O precursor da sociolinguística, William Labov, apontou essa característica heterogênea das línguas em diversos estudos que ele fez. Um dos mais famosos foi o de uma comunidade de pessoas negras no Harlem, bairro de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em que ele tentou entender se o dialeto falado por essa comunidade afetava o processo de aprendizagem de leitura das crianças de tal comunidade. Resumindo bastante e não deixando de lado o processo histórico dos Estados Unidos entre brancos e negros, em que os últimos eram constitucionalmente marginalizados, Labov fundou a sociolinguística e provou por A mais B a heterogeneidade do inglês estadunidense.

Saindo dos Estados Unidos e voltando ao Brasil, podemos perceber uma guinada do ensino de Língua Portuguesa nos Parâmetros Curriculares Nacionais, da década de 90; e nas Orientações Curriculares para Ensino Médio nos anos 2000, em que a questão da variedade linguística e da adequação linguística atravessam os documentos quase do início ao fim. Focando no Ensino Médio, geralmente no 1º ano, a ementa das escolas coloca para ensinar variação linguística. Fala-se das diferenças de pronúncia entre sudeste e sul, entre sudeste e nordeste, às vezes, dependendo da formação do professor, discute-se sobre os falares do próprio estado. Essas variantes vão da fonologia, passando pela morfologia, sintaxe, semântica, léxico, prosódia, chegando ao discurso. Enfim, é uma tema riquíssimo, que, quase sempre, o professor não consegue explorar tudo de tão rico que é.

De volta a questão

Chegando até aqui, você deve estar se perguntando: “Ok! Mas e a polêmica da questão do Enem?”. Então… depois de tudo isso escrito acima, acho que conseguimos perceber que as línguas são variáveis e que variam no espaço, no tempo e entre os sujeitos. Não precisamos pensar muito para adequarmos o nosso falar dependendo da circunstância, das pessoas, da faixa etária, etc. E a questão sobre o “dialeto secreto” é justamente sobre isso: adequação, contexto, comunidade de fala. Se fosse uma questão sobre o dialeto dos skatistas, dos surfistas ou dos médicos, teria toda essa polêmica?

Aqüenda a munganga deles…

Confesso que quando li a questão fiquei feliz, embora tenha visto alguns problemas inicialmente. Acho que o primeiro deles foi o apagamento da língua Tupi que também constitui o pajubá. Se recorrermos ao Aurélia, podemos perceber no verbete que define o que é essa língua:

Bajubá – S.m. Baseado nas línguas africanas empregadas pelo candomblé, é a linguagem praticada pelos travestis e posteriormente estendida a todo universo gay. O bajubá falado emprega uma mistura lexical (do próprio bajubá, do português e, em menor grau, do tupi) sobre a base gramatical e fonológica da língua portuguesa. [var.: pajubá].

Importante ressaltar que já na definição os autores apontam que o Tupi está presente em menor grau, mas está! Isso mostra que não é só influenciado pelo Yorubá. Outro aspecto que me incomodou na questão do Enem foi o silenciamento dos outros sujeitos que também constituem a comunidade: os bissexuais e as lésbicas. Esse “dialeto” também é deles. Como pode colocar só gays e travestis? Porém, de uma maneira geral, fiquei feliz porque deu visibilidade a comunidade que foi/é marginalizada durante muitos anos, ainda mais em uma prova nacional em que a maior parcela que faz são jovens os quais precisam lidar com a diversidade o tempo todo seja ela de qualquer natureza.

Ao entrar nas redes sociais, percebi que a polêmica não era sobre o silenciamento das línguas indígenas ou dos outros sujeitos que integram a comunidade LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros), mas sim porque candidatos estavam indignados por acharem que deveriam “saber” sobre “o falar dos gays”. Li novamente a questão do Enem e percebi que o candidato poderia respondê-la sem nunca ter ouvido alguém falando o pajubá na sua frente, sem ter amigos que pertençam a comunidade LGBT. Era uma questão sobre variação linguística e não sobre você saber/conhecer sobre “o dialeto gay”.

Desaqüenda que os alibãs estão vindo… para não dizer que não falei de cores.

Considerações Finais

Essa polêmica toda sobre a questão do Enem nos faz apontar algumas coisas: 1) A ideia de homogeneidade linguística pode vir a ficar forte dependendo de como se estruture o próximo governo. 2) Lamentavelmente, o Brasil é um país muito LGBTfóbico. Como pode uma simples questão causar todo esse alvoroço e até pronunciamento do presidente eleito dizendo que vai fiscalizar a prova do Enem? 3) Um dos deveres dos linguistas é resistir a essa onda homogeneizadora e sempre apontar que essa homogeneidade é uma falácia sem fim.
Por fim, enquanto linguistas, devemos cada vez mais nos debruçar sobre estudos de comunidades clivadas de direitos ao longo da história da humanidade: os LGBTs, as mulheres, os negros, os deficientes físicos e mentais, os indígenas, os pobres. Podemos colocar no centro do debate pessoas que sofrem com a marginalização há anos e ainda continuam sofrendo. Somos vários e temos muitas cores (parafraseando a bandeira do movimento LGBT, um arco-íris) … Se o movimento do “Ninguém solta a mão de ninguém” persistir, encararemos essa onda e passaremos por esse momento difícil sem perder a nossa diversidade.

Vocabulário

Deu bafão: Aconteceu uma confusão
Aqüendar: Olhar
Munganga: Caras e Bocas
Desaqüenda: Dispersar, esquecer
Alibã: policial

Referências:

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Doutor em Linguística, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/ Fiocruz.

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