Em que língua as pessoas surdas pensam?

Você já se fez essa pergunta? É uma indagação comum e antiga que hoje se encontra por aí circulando em forma de meme.

Pra variar, não existe uma resposta simples. Mas algumas coisas sendo estudadas e debatidas na linguística e suas interfaces parecem nos ajudar a refletir sobre possíveis respostas. Esse post é sobre essas coisas. Vamos passar pela psicologia especulativa, falar sobre a voz na sua cabeça, esclarecer algumas coisas sobre surdez e línguas que não se baseiam em sons, e esbarrar em estudos que medem a atividade elétrica nos músculos (eletromiografia).

Pra começar, boa parte da incerteza envolvendo a questão vem de um debate que coloca em dúvida inclusive em que língua VOCÊ, ouvinte curioso, pensa. Nosso primeiro tópico é sobre uma contenda mais geral que tenta definir qual é a língua do pensamento – do pensamento de qualquer ser humano, surdo ou não:

1. Mentalês vs. Línguas naturais

Talvez você esteja pensando: “Ué, mas eu sei que eu penso em português (ou em inglês, em espanhol, em japonês ou em seja lá qual for a sua primeira língua)!”.
Nesse caso você está se colocando do lado de quem defende que a língua do pensamento é uma língua natural, como o neerlandês, o coreano, o francês, o apinajé e etc.

O outro lado da discussão defende que a forma do pensamento humano é o mentalês, uma língua inata e não-consciente, isto é, uma língua que não precisamos adquirir através da experiência e da qual não temos acesso pela reflexão consciente (ou introspecção). Segundo essa proposta, um pensamento sempre teria a forma do mentalês, sendo “traduzido” para uma língua natural quando viesse a consciência (para ser proferido em voz alta ou não). Assim, ao ler esse texto seu cérebro estaria, sem você saber, traduzindo sentença por sentença do português para o mentalês – a língua “dos bastidores” na qual a sua mente realmente opera.

Pode parecer um pouco absurdo a princípio, mas pensar em um paralelo com computadores ajuda a enxergar a possibilidade do mentalês: assim como um computador, disporíamos de uma língua mais profunda (como as linguagens de programação, interpretáveis pelo sistema) que pudesse gerar frases em uma língua natural – processo semelhante ao que o computador realiza para exibir estas palavras em sua tela. Da mesma forma, um computador recebe inputs externos e os converte a uma representação na sua linguagem interna, assim como faríamos ao receber estímulos em língua natural e traduzi-los para o mentalês, de modo que pudessem ser computados pelo cérebro.
Toda essa translação mentalês-língua natural, língua natural-mentalês parece um pouco trabalhosa, não? Bem, essa é uma das queixas contra a hipótese do mentalês. Por que motivo despenderíamos tanta energia e recursos nessas intermináveis tarefas de tradução ao invés de fazer tudo apenas com as línguas naturais?

1.1 O Mentalês como língua do pensamento

Por outro lado, Steven Pinker, psicólogo e cientista cognitivo defensor da hipótese do mentalês, apresenta alguns argumentos interessantes a favor de uma língua profunda do pensamento. O mentalês daria conta de explicar os momentos em que temos uma informação “na ponta da língua”, mas não conseguimos dizê-la; os momentos em que não encontramos palavras para falar de algo e temos dificuldade de nos expressar; e as ocasiões em que uma nova palavra surge para dar conta de uma ideia já existente, mas que ainda não tinha nome. Essas seriam situações em que teríamos já formulados pensamentos (em mentalês), mas não suas versões em língua natural. Além disso, o pensamento não ter fundamentalmente forma de língua natural explicaria o fato de seres que não possuem ou ainda não adquiriram linguagem, como crianças e animais, também disporem de pensamento.

Ao que os defensores das línguas naturais como língua do pensamento retrucam: a dificuldade de expressar um pensamento pode não estar na sua “tradução” para uma língua natural, mas sim na própria formação do pensamento. E não há palavras (novas ou não) que não possam ser expressadas por meio de outras já existentes, de forma que novas palavras não surgem para “dar conta” de um pensamento, mas por motivos externos. E, apesar de não podermos negar que crianças e animais são capazes de pensamento mesmo sem possuírem uma língua, também não há como negar que há grandes diferenças entre o pensamento e a cognição daqueles que dispõem de língua e daqueles que não dispõem, e talvez o pensamento da forma que nós, seres falantes, conhecemos só seja possível pela linguagem, pois essas duas coisas são largamente coincidentes.

A discussão é longa e provavelmente vai continuar sem resposta definitiva por um tempo. Até que desenvolvamos um meio de acessar a língua do pensamento no cérebro humano, a questão se circunscreverá no campo da psicologia especulativa (como o propositor do mentalês, Jerry Fodor, já afirmou) e tudo que podemos fazer é, bom… especular.

Até agora parece que não falamos de surdos (na verdade falamos sim, mais sobre isso daqui a pouco) e não conseguimos responder nada!

Deixemos a discussão do mentalês um pouco de lado. A pergunta do nosso velociraptor filosófico parece não estar preocupada com o mentalês. Ela já assume o papel importante das línguas naturais como a forma dos pensamentos (nossos ou alheios) a que temos acesso, assim como as duas hipóteses da contenda que acabamos de discutir. Isto é, a indagação parece ser mais sobre o que chamamos de “a voz nas nossas cabeças”.

Sabemos por introspecção que língua fala nossa voz interna. Língua essa que coincide com nossa língua dominante. E qual seria a língua da “voz na cabeça” de surdos? Essa pergunta é muito mais fácil de responder: por analogia, provavelmente é a língua dominante do surdo em questão. E essa é a minha deixa para falar sobre línguas de sinais.

2. Línguas de sinais e modalidades de línguas

Vamos começar estabelecendo que línguas de sinais são línguas naturais como o português, o francês, o suaíli ou qualquer outra. Não são gestos, não são mímica, não são códigos. São sistemas complexos de signos capazes de gerar infinitas sentenças sobre qualquer tipo de referente – abstrato, ficcional, passado, futuro, impossível, etc, como qualquer outra língua natural. Não se tratam de línguas artificiais, inventadas; são línguas que surgem naturalmente em comunidades de surdos, assim como línguas baseadas em sons surgem e se desenvolvem naturalmente em comunidade de ouvintes. (Vale mencionar o caso famoso da língua de sinais da Nicarágua, que surgiu recentemente e tem dado a linguistas a oportunidade de estudar o surgimento (natural!) de uma nova língua. Mais sobre isso no vídeo abaixo).

As diferenças entre uma língua como o português e uma língua como a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) que nos fazem pensar (erroneamente) que elas se tratam de sistemas fundamentalmente diferentes estão todas ligadas ao fato de a primeira ser da modalidade oral-auditiva e a segunda da modalidade visual-motora. Mas ambas são abarcadas pelo conceito de língua por compartilharem das propriedades fundamentais e capacidades desse objeto (espetacular, diga-se de passagem).

Por isso, diferente do que você pode ter pensado enquanto lia a primeira parte deste texto, a discussão sobre mentalês vs. línguas naturais também diz respeito a surdos (sinalizantes), pois línguas de sinais também são línguas naturais.

Um surdo não pode adquirir plenamente uma língua oral-auditiva, pois a “matéria-prima” de uma língua desse tipo, o som, não tem realidade psicológica para alguém que não pode ouvir. (Aliás, apesar de não perceberem sons, surdos podem oralizar assim como ouvintes! Por isso não se deve usar o velho termo “surdo-mudo”).

Mas nada impede que surdos adquiram línguas visual-motoras. E é exatamente isso que acontece quando eles são expostos a esse tipo de língua. O ser humano é faminto por uma primeira língua, a língua materna. Ele é muito apto a adquirí-la. Vide o fato de essa aquisição acontecer naturalmente, bastando que o indivíduo seja exposto a uma língua em uma modalidade que ele possa perceber.

2.1 O caso Helen Keller

Para ilustrar essas afirmações, vale mencionar o caso de Helen Keller. Helen viveu entre 1880 e 1968. Ela perdeu a audição e a visão quando tinha menos de 2 anos e, por isso, não recebeu inputs linguísticos até os 7 anos, quando começou, por intermédio de uma professora, a ser exposta a uma língua de modalidade tátil. Essa língua envolvia que alguém soletrasse palavras sinalizando as letras na mão de Helen. Assim, ela pode adquirir uma língua, o que permitiu que se desenvolvesse normalmente, se tornasse escritora e obtivesse título de bacharel.

Em um de seus livros, Helen relata que pode comparar as lembranças da sua experiência pré-linguística com a sua vida interna após ter adquirido uma língua e que as diferenças na maneira de se relacionar com si mesma e o mundo eram drásticas. Além disso, ela relata que, após adquirir uma língua, ela adquiriu também uma “voz interior”, sentindo frases serem soletradas em sua mão quando pensava. Por esse relato, podemos imaginar que se a pergunta do velociraptor tivesse sido direcionada a Helen, ela responderia que pensa na língua que também é sua “língua externa”, na mesma modalidade em que a experiencia. Da mesma forma, um surdo deve pensar na língua de sinais que usa diariamente e é sua língua dominante.

3. Subvocalização em surdos

Se você ainda não está convencido de que a “voz na cabeça” de surdos possa falar em alguma língua de sinais (LIBRAS, ASL, língua de sinais da Nicarágua, etc), existem alguns resultados de estudos sobre a subvocalização (o uso da voz interna) em surdos que podem te persuadir.

No livro “Psychology of Reading”, Keith Rayner e colegas falam um pouco de estudos que monitoraram, durante uma tarefa de leitura silenciosa, a atividade elétrica dos músculos do trato vocal e dos antebraços de surdos e ouvintes. Nesses estudos, se notou que durante a leitura silenciosa surdos apresentam alta atividade elétrica nos antebraços, enquanto ouvintes apresentam o mesmo na região do trato vocal. E essa atividade elétrica diferenciada não ocorria quando os sujeitos não estavam realizando a tarefa de leitura. Segundo os autores, a literatura científica mostra também que a atividade no trato vocal de ouvintes se apresenta em qualquer tarefa de linguagem, seja ela ler, ouvir alguém falando ou pensar.

Faz sentido imaginar que essa atividade elétrica seja resultado da subvocalização, da “voz interna”, das pessoas enquanto leem, ouvem e pensam, não? E se em ouvintes a voz interna é como a voz externa a ponto de a área do corpo que a produz externamente ser ativada também na sua instância não exteriorizada, é de se esperar que esse também seja o caso com surdos. E é exatamente isso que os resultados desses estudos indicam: os antebraços de surdos sinalizantes, parte do corpo responsável por grande parte da sinalização, exibem alta atividade elétrica durante a leitura, mesmo quando ela é silenciosa, o que deve ser atribuído à subvocalização, que, por sua vez, está ligada aos antebraços e deve se dar na forma de alguma língua sinalizada.

Aí está, não sei se resolvi a questão, mas espero ter alimentado a sua curiosidade quanto à linguagem e à linguística e, quem sabe, ter te dado mais material para perguntas interessantes.
De qualquer jeito, eu recomendo que você verifique a resposta ensaiada aqui. E um dos melhores jeitos de fazer isso é refazendo a pergunta para alguma pessoa surda sinalizante. Que tal aprender um pouquinho de LIBRAS pra conseguir levar um papo sobre isso? Existem muitos recursos para isso disponíveis de graça na nossa querida rede mundial de computadores. Dá um google aí.

Observações importantes:

1. Ouvinte é aquele que, em contraste com o surdo, pode ouvir. Dirigi este texto nesse momento a ouvintes, pois imaginei que a pergunta que lhe serve de mote é uma curiosidade típica desse grupo, uma vez que surdos, pela introspecção, talvez já imaginem uma resposta para a questão e não precisem formulá-la.

2. Há diferentes graus e situações de surdez. A resposta ensaiada nesse post partiu da suposição de que a pergunta se referia a um grupo de surdos específico: o dos surdos com surdez severa e ou congênita ou adquirida logo na primeira infância. Uma pessoa que ficou surda depois de já ter adquirido uma língua oral-auditiva, por exemplo, provavelmente terá sua voz interna nessa primeira língua, que é sua língua materna, e não em uma língua de sinais (mesmo que venha a aprender uma em algum momento).

3. Além disso, dentro desse grupo de surdos (com surdez severa e congênita/adquirida na primeira infância) me refiro a surdos sinalizantes. Surdos sinalizantes são aqueles que adquiriram alguma língua de sinais. Infelizmente há muitos surdos (com surdez severa e congênita/adquirida na primeira infância) que não são expostos a essas línguas e acabam por não adquirir língua alguma por muito tempo, muitas vezes pela vida toda.

4. Para que possamos aprender uma língua da forma mais natural possível, a exposição a essa língua deve ocorrer em um período do desenvolvimento chamado de período crítico da aquisição da linguagem, que vai mais ou menos dos 2 anos ao começo da puberdade. Depois desse período dificilmente uma língua será adquirida plenamente.

5. Sobre os estudos com surdos e leitura silenciosa: É bom lembrar que surdos podem aprender a escrita de uma língua oral, já que o meio visual em que a escrita se realiza lhes é acessível. Esse aprendizado, contudo, é mais árduo para os surdos do que para os ouvintes (talvez porque esses últimos normalmente já conhecem a língua em questão antes de aprender sua escrita).

6. Apenas para lembrar, a descrição da mente como um computador é apenas uma metáfora que ajuda a entender alguns aspectos da relação entre processos conscientes e inconscientes.

Referências:

Fodor, Jerry. The Language of Thought. Thomas Y. Crowell Company, 1975.
Keller, Helen. The World I Live In. London: Hodder and Stoughton, 1909
Pinker, Steven. The Language Instinct. Penguin Books, 1995.
Rayner, Keith et al. Psychology of reading. Taylor & Francis, 2012.
Silby, Brent. Revealing the Language of Thought: An e-book. Department of Philosophy, University of Canterbury, New Zealand, 2000. Disponível em: <https://philarchive.org/archive/SILRTL>. Acesso em: 13 de nov. de 2018

Material extra:

– Um dos primeiros estudos sobre uma língua de sinais que a considera uma língua, revolucionando a linguística:
STOKOE, W. (1960) Sign and Culture: A Reader for Students of American Sign Language. Listok Press, Silver Spring, MD.

– Artigo que traz alguns critérios para definer “língua” (em contraste a códigos e sistemas de comunicação como os de alguns animais):
BENVENISTE, Émile. 2005. Comunicação animal e linguagem humana. In: ______. Problemas de linguística geral. Trad. Maria da Glória Novak e Maria Luisa Neri. 5. ed. Campinas: Pontes, v. 1, p. 60-67.

Episódio do podcast Spin de Notícias sobre línguas de sinais

– Breve história de Helen Keller:

– Mais sobre línguas da modalidade tátil; documentário “Boboletas de Zargorsk”:

CC BY-NC 4.0 Em que língua as pessoas surdas pensam? by grizzofonseca is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.

Sobre grizzofonseca 1 Artigo
Mestranda em linguística pela Unicamp.

2 Comentários

  1. Que tema incrível. Dá muito o que pensar. Eu vejo muitos paralelos com a matemática. Sou pesquisador em matemática, então boa parte da minha vida é tentando desvendar questões matemáticas. Muitas vezes eu não sei como as ideias vão surgindo e, sem me alongar, eu diria que elas surgem como que por intuição (que as pessoas conseguem adquirir com treino), isso me parece muito com a parte em que você menciona sobre o mentalês e situações como ” ‘na ponta da língua’, mas não conseguimos dizê-la;”. A maneira que eu faço a pesquisa em matemática é muito assim, as ideias começam de uma forma meio confusa (chamei de intuição lá em cima), as coisas vão aparecendo ali na ponta da língua e com o tempo eu vou tentando entender.

    Um cara muito incrível na matemática foi o Ramanujan, ele não teve educação matemática formal, então o super curioso é que ele não conseguia explicar muito bem como ele fazia o seu raciocínio ele achava que era uma entidade divina que falava para ele. 🙂

    O Joaquim adorou o texto também, diga-se de passagem o Joaquim é uma pessoa com uma maneira muito especial de pensar.

  2. Artigo muito instigante. Parabéns pela escolha do assunto. Sou otorrino e imagino que os implantes cocleares em crianças com surdez congênita possam modular o mentalês – se ele realmente existir. Está aí um campo de pesquisa inesgotável.

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